Como vi ‘Era uma vez… em Hollywood’ de Quentin Tarantino

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Assisti o último filme de Quentin Tarantino, “Era uma vez,… em Hollywood”, formidável!

Tarantino, mais uma vez se supera, agora lançando mão de ficção e realidade, sem ter intenção de permanecer real e verdadeiro.

Embora não tenha nada a ver, “Era uma vez” toma emprestado por título a célebre película de Sérgio Leone, “Era uma vez no Oeste” (Once Upon a Time in the West), o mais relembrado western espaguete, rodado em 1968, que restou famosíssimo, estrelado por Henry Fonda, Charles Bronson e Jason Robards, no qual se destaca a belíssima Claudia Cardinale, no seu melhor momento.

Naquele “Era uma Vez no Oeste”, Leone desenvolve uma trama lentíssima centrada em quatro personagens:a ex-prostituta Jill McBain (Claudia Cardinale), o bandido Cheyenne, (Jason Robards), o pistoleiro de aluguel Frank (Henry Fonda), e um misterioso tocador de gaita, conhecido como “Harmonica” (Charles Bronson), cujo realejo é trinado em notas intrigantes e misteriosas.

Maravilhosa é a construção musical na história inserida, e ecoada à exaustão, sem enjoar, por Ennio Morricone.

Trata-se de uma cantata sofrida, monótona e repetitiva, como a querer diluir sofrimentos e dores, excedentes esforços de suor e cansaço, permeando disputas leais e até as refregas desleais, embaralhando infindáveis embustes traiçoeiros e tantos embates francos, nem sempre exemplares e altaneiros.

Talvez, por lembrar Sérgio Leone, imaginei que o “Era uma Vez,… em Hollywood”, de Quentin Tarantino contivesse algo que soasse memorial ao italiano que ousara fazer um filme de caubói em cenários do Arizona, do deserto de Almeria, na Espanha, e até na Cinecittà italiana.

Algo, senão impensável, enquanto heresia ao bangue-bangue entre bandidos e mocinhos.

Pelo que consegui ler sobre este “Tarantino baby”, eu esperava ser um canto de amor a Hollyood, mesmo porque o Diretor se confessara um apaixonado pela cidade meca do cinema, sobretudo nos idos de 1969, tempo onde se passa a trama ali narrada.

Na história, Leonardo de Caprio é Rick Dalton, um ator decadente, lutando para conseguir papéis, cuja carreira perde fôlego, sendo rejeitado para trabalhos menores na televisão e filmes de pouca monta de caubói italiano.

O outro personagem é Cliff Booth, um dublê de Rick Dalton, estrelado por Brad Pitt.

Na tela e na vida, Booth e Dalton são amigos inseparáveis.

Humoristicamente o ator decadente, Rick Dalton (De Caprio), revela-se verdadeiro canastrão, possuindo extrema dificuldade para memorizar as falas e encenar papéis.

Quanto ao seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt), é seu segundo em todas as tarefas: é seu chofer, seu cuidador do cachorro, o encarregado da manutenção do carro e da casa do ator, um verdadeiro “faz-tudo”, chegando até a subir no teto da mansão de sua mansão para consertar a antena da TV.

O filme mostra a realidade entre o fracasso e o sucesso em Hollywood.

Se Cliff Booth é presença constante na mansão de Rick Dalton, dirigindo seu enorme Cadillac Coupe Deville pelas ruas da cidade e enormes cenários de gravação, em contraste o automóvel do dublê é um Karmann Ghia velho, detonado e barulhento, e sua casa é um miserável container improvisado como lar na periferia da cidade.

O filme permite ver esta dura realidade, sem explicitar lamentos de exploração do pobre pelo rico; tudo fazendo parte da realidade americana, sem maiores discussões de conteúdo social e/ou relações trabalhistas, cobranças de horas-extras e férias não gozadas.

Gozações à parte, ator e sparing frequentam festas luminosas em cores e risos, com direito a todos os excessos na Mansão Playboy, mas também se vê o contexto de pobreza e miséria, num cenário sempre esquecido pelos cartões postais.

A decadência da carreira do ator, por exemplo, inviabiliza a sobrevivência de seu dublê que precisa ser demitido, já que o seu salário se tornou inviável. Isso, todavia, não é um problema para ambos; faz parte do jogo.

Há coisas que achei bem interessantes destacar.

O dublê, por exemplo, não é um homem benquisto nos cenários de gravação, temido sobretudo pelas esposas dos produtores dos filmes, afinal sua fama era de ter conseguido, algo impossível, mas sempre sonhado; assassinar a própria esposa e se safar do processo na justiça.

O dublê também é um brigão que costuma se desentender com figurantes e atores nos intervalos das gravações.

Nesse contexto há no filme momentos que vale o ingresso. A luta que acontece entre o dublê Booth e Bruce Lee, o celebre ator de lutas marciais.

Quem quiser saber quem ganha no punho e quem perde no grito, pague o ingresso e assista o filme.

Vale à pena até para ver o estrago acontecido no diálogo entre a lataria de um cadilac e as costelas do karateca.

Impressionante é a introdução de fatos reais com a ficção porque a trama se passa no entorno do fatídico dia 9 de agosto de 1969,  entreato em que o riso substitui o trauma.

Na história real e num cenário idílico que restou macabro, o dia 9 de agosto de 1969 marcou Hollywood com o terrível assassinato da belíssima atriz Sharon Tate e alguns hóspedes amigos por uma gangue de hippies, seguidores de um fanático chamado Charles Manson.

A tragédia, acontecida há exatos 50 anos marcou Hollyood para sempre.

Naquela fatídica noite, um bando de fanáticos invadiu a residência de Roman Polanski  assassinando brutalmente sua esposa, a atriz Sharon Tate, o cabeleireiro Jay Sebring, o roteirista Wojciech Frykowski, a milionária Abigail Folger e o vigia da casa Steven Parent, amigos que lhe faziam companhia, já que Polanski encontrava-se em viagem de gravações na Europa.

O assassinato teve requintes de extrema crueldade, perpetrado por três homens e uma mulher: Tex Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel, membros da família de Charles Manson, que invadira a mansão gritando estarem a serviço do diabo.

“Sou o diabo e vim fazer o trabalho do diabo”, teria escutado Sharon Tate, de 26 anos, grávida de oito meses, antes de ser esfaqueada 16 vezes numa carnificina que deixou a casa da Cielo Drive coberta de sangue com as mensagens “Pig” e “Helter Skelter”, escritas com as hemácias das vítimas.

“Pig” (“porco”) era então um apelido usado pelos negros para se referirem à polícia e “Helter Skelter” uma expressão pejorativa aos católicos, pistas que posteriormente delatariam Manson como a mente criminosa por traz da maldade.

A matança de Sharon Tate não foi isolada.

Com a mesma performance, outros assassinatos aconteceriam dias depois, com a própria participação de Charles Manson, como no caso do suplício do casal Leno e Rosemary LaBianca que recebeu 41 facadas.

A família de Charles Mason tinha cerca de cem seguidores vivendo em um rancho nos arredores de Los Angeles, e Manson pretendia desencadear o que ele chamava de Helter Skelter.

Queriam fazer as autoridades acreditarem que os assassinatos tinham sido cometidos por membros da comunidade afro-americana e com isso provocar uma guerra racial entre negros e brancos. Um confronto concebido numa suposta profecia contida na música homônima dos Beatles.

O grupo e a seita que chegou a ter 100 seguidores vivia em um rancho nos arredores de Los Angeles pertencente a um idoso cego chamado George Spahn.

Spahn, que tinha 80 anos, permitia que a comunidade de hippies morasse em sua propriedade em troca de cuidados e favores das garotas que integravam o culto, com muitas drogas como LSD e bastante orgia.

No filme de Tarantino, o dublê, Cliff Booth, dá uma carona a uma garota da turma de Manson, levando-a até o antro da gangue, reencontrando o velho amigo Spahn que não o reconhece.

Depois há um desentendimento entre Booth e os hippies com muitas pancadas bem dadas, por merecidas.

No contexto do filme, o casal Tate e Polanski, não conhece os dois decadentes colegas.

No máximo há um comentário sobre Polanski do tipo: “Este baixinho está mexendo com muita coisa que não deve. Não sabe o que anda futucando!”

Talvez o comentário tenha surgido no contexto de seus recentes sucessos, os misteriosos  “A Dança dos Vampiros” e “O Bebê de Rosemary”.

Sharon Tate é interpretada por Margot Robbie, enquanto Rafal Zawieruche e Damon Herriman vivem, respectivamente, Polanski e o assassino Charles Manson.

Se Sharon Tate em vida era deslumbrante e símbolo sexual desejado, na tela, Margot Robbie a interpreta de forma doce e terna.

Faz uma Tate super feliz e de bem com a vida, grávida esperando o seu primeiro filho.

Chega a ser inocente e pueril quando a atriz em seu personagem vê o cartaz do filme “Arma secreta contra Matt Helm”, no qual tivera uma boa participação.

Pede a bilheteira para deixa-la assistir sem pagar. Está sem dinheiro para comprar o ingresso. “Não mereço assistir? Eu estou no filme!” graceja.

Cenas inocentes a ensejar inclusive uma foto com o proprietário do cinema.

Tudo ficção do notável Tarantino, em 50 anos de uma memória melhor tecida.

Tessituras outras que levam o bando de Manson, no fatídico 9 de agosto de 1969, não a invadir a casa de Polanski e Tate, mas a de seus vizinhos, o desimportante Rick Dalton onde está o seu dublê Cliff Booth.

Ali o bando pegue em baixo, com direito a um refazimento da história que só o cinema e a ficção permitem melhor final, em golpes e mordidas de um cachorro guardador  invejável, inclusive com desfechos de lança-chamas, piscinas inflamadas, torrando todos nas labaredas que nem o inferno imagina.

E o que mais?

Há muito mais, ora essa! Porque o filme tem dia seguinte com o estrago acontecido sem polícia, o dublê indo para o estaleiro feliz, e o ator decadente mais feliz ainda ao saber que Sharon Tate o conhecia nos seus trabalhos, e para conhece-lo pessoalmente o convida para um jantar em sua casa, confessando-lhe sua fã.

Se não foi assim, era como devia ter sido “Era uma vez… em Hollyood” para Quentin Tarantino.

 

 

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