Conselho a um país inzoneiro

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O Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu na imprensa sulista sugerindo a renúncia do Presidente Michel Temer, cobrando-lhe um gesto de grandeza

Entende o principesco sociólogo que isso pacificaria a alma nacional.

Em seu julgamento, só Temer, mais sujo que xiqueiro de leitão, teria o condão de desfazer a amarração suína institucional, mediante uma proposta de reforma constitucional, que poderia viabilizar, de maneira urgente e precisa, a imediata eleição direta para Presidente da República.

Longe de ser inusitado, o conselho não tem nenhuma singularidade.

Rotineiramente, o beletrista pensador sugere como bom conselho a renúncia presidencial, enquanto ideal “gesto de grandeza perante o país”.

Trata-se de uma sua prescrição para todos e quaisquer mandatários, que se viram em popularidade descambando ao rés do chão.

Quem não lembra de seus discursos, entrevistas ou declarações, enquanto “cabeça preta” de ocasião, recomendando igual renúncia ao Presidente Sarney, no tempo da Constituinte, com Collor, no escândalo PC Farias, e já bem recente grizalho e ancião,  golpeando Dilma, com as fantasiosas pedaladas?

Por acaso está a mudar o tom com Michel Temer, o indesejado Presidente, carne fraca mal urdida, (por muitos e todos, salvo ninguém), mas que restou bem ungida (por outros tantos, muitos outros, ou todos outros mesmos), como pior solução?

Não está o Ex-Presidente, incomodado com a sua aposentadoria, repetindo o dito de ontem, trasantontem, ou a ditar no amanhã em qualquer horizonte envergonhado deste país, tentando biguzar na onda montante e desmoralizante de qualquer estação, aquilo que lhe serviu com maestria naqueloutras ocasiões?

E neste discurso repetido não vige um sorriso patranho, que disfarça mais uma pernada política, da sua verve sociológica, que lhe resserve como melhor rasteira?

Ou o que foi, não poderá sê-lo de novo, nesta terra que acha ser de bom tom e senso, descumprir a regra ou refazê-la ao sabor do dissenso, em clima carnavalesco ou por jocosa alegoria junina, para que nesta ideal entropia, possa despontar a melhor quadrilha da estação?

Não está sendo assim com os escândalos acontecendo sem esperança de solução?

Tentar experimentar qualquer solução obtusa, onde o golpe das instituições pode ser combinado ao sabor de beletristas articulistas e formadores de opinião?

Vejo e leio assim, eu que não sou nada, mas que “à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

E nas minhas equivocadas ilações, como se pode conceber uma reforma constitucional que antecipe eleições diretas para Presidente da República, cobrando um gesto heróico de renúncia do Presidente Temer?

Por acaso existe vácuo de poder, quando a regra está expressa e definida pela Constituição e tantas Leis vigentes no país?

Dispositivos que definem sucessões e substituições, inelegibilidades, prazos, inscrições partidárias, podem ser desprezados só por mau conselho e má intenção?

Isso não é um convite a aventuras senis, via golpes de estado?

Por acaso neste país houve já golpe de estado sem cavalgada nem cavalaria?

Não foi o caso da Proclamação da República em 1889, da derrubada de Wahington Luís, em 1930, da queda de Getúlio Vargas em 1945, do apeamento de Café Filho pelo General Lott em 1954, e dos idos de Março de 1964; todos em cavalgada e arma em punho, e sem um cadáver para carpir ou memoriar?

Em tanta desmemória, é possível mudar tudo ao sabor do pensamento do Ex-Presidente, como se isso não fosse mais um golpe, tão deletério quão oportunista, num país que resiste a se levar a sério?

O Ex-Presidente, com tantos serguidores a carpirem sua necessária aposentação, está tentando puxar um pelotão de combatentes, tão dementes, quão inconseqüentes, com trema e tudo, para mais uma vez tentar fazer tremer os alicerces da nação.

E o que fazer com o temível Temer, tão desmoralizado quanto o Congresso que o aplaude e apoia?

Não tem jeito: Temos que aguentá-los!  Por acaso é da nossa tradição a violência e a defenestração?

Se não houver um acidente de percurso e o povo permanecer indiferente, dias e noites irão passar, e 2017 seguirá politicamente ruim, mesmo que chova canivete.

A julgar pelo conselho de FHC, um estadista que não consegue se erigir pedestal, compreende-se o porquê de sermos um país inzoneiro, como bem o define a nossa melhor canção.

Inzoneiro, diga-se por lembrança, é apanágio de sonso, de manhoso, e…, quem o sabe: de quem tem pouca vergonha!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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