Construir, conservar e destruir

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Há homens que são construtores; dê lhes a régua, o compasso, a enxada e o trator. Não lhes dê vassouras, espanadores ou escovas. Dê-lhas aos que conservam, aos que cuidam da longevidade e da eficiência das coisas. A estes dê também o comando das coisas, porquanto só o bom senso e a boa ponderação de utilidades conseguem mediar o sonho com a realidade.

Prof. Acrísio Cruz, um revolucionário da Educação em Sergipe. Um construtor de escolas pouco imitado

Mas, se não podemos em realidade dar as ferramentas necessárias a quem erige e a quem mantém as coisas e as instituições de pé, jamais devemos dar tais utensílios a quem só sabe destruir.


Talvez, fruto de uma interpretação simplista, vejo a humanidade dividida entre estas três características: Há os que levantam torres e fortalezas, escolas e hospitais, pontes e estradas, locomotivas de várias vias, nações poderosas e gentes de tradições ciosas, há os que as mantém, lhes dando utilidade e vida longa, e lamentavelmente, há homens que se louvam em derrubar, desconstruir e suscitar entulhos.


Na tradição dos hinduístas com o seu cultuar politeísta do mundo, há deuses para a criação, outros para a conservação e divindades que conduzem à destruição. Ali o eterno retorno é contemplado com um contínuo e interminável ciclo de criação, conservação e destruição, suscitando uma evolução de vidas renovadas, em reencarnações sucessivas, padecimentos, comiserações e evoluções.


Trata-se, como tudo inerente a cultos e crenças, um escopo de fé religiosa, com iluminados profetas, doutrinadores brilhantes e ascetas piedosos. Tudo o que se pode respeitar, admirar e até zombar, segundo esta mesma razão transformadora, mantenedora ou demolidora do ser.

Mas deixemos os hindus, esqueçamos a sua trina de deuses. Deixemos Brahma o Ser supremo criador, deixemos Vishnu e seu princípio eterno de preservação, bem como Shiva, o que tudo dissolve preparando a recriação sem fim. Voltemos à nossa humanidade que se perde também neste ciclo criador, preservador e demolidor aqui na nossa cidade de Aracaju.


Há poucos meses ou alguns dias, a Prefeitura Municipal de Aracaju erigiu na Praça da Imprensa um monumento ao Professor Acrísio Cruz, como marco significativo do centenário deste mestre sergipano, um idealizador e construtor de centenas de Escolas Rurais espalhadas por Sergipe. Um verdadeiro visionário da educação como processo libertador. Mas, deixemos a educação e voltemos à Praça.

Monumento ao Prof. Acrísio Cruz, localizado na Praça da Imprensa, começa a ser depredado



A Praça da Imprensa, para quem a conheceu trinta e tantos anos passados, era um imenso lamaçal esquecido pela Prefeitura. E só fora lembrada porque eu, recém casado e ali morando nas imediações, liderei um grupo de moradores assinando uma parceria com a Prefeitura para calçar a Rua Laura Fontes às nossas custas. Talvez por causa deste calçamento feito por nós a PMA resolveu sanear aquele palustre manguezal. Saía o lamaçal entrava no lugar uma praça na qual minhas crianças andavam de velocípede tomando banhos de sol. A praça era muito simples: tinha um arremedo de obelisco que ainda ali está, alguns canteiros, e uma calçada feita de blocos de cimento.


O porquê da homenagem à imprensa, nunca o soube. Ali não tinha jornal, nem morava qualquer jornalista. Devo dizer que os moradores das imediações gostaram até do nome, afinal acreditávamos que a imprensa não a deixaria sucumbir no matagal. Mas a praça foi logo esquecida, pelos prefeitos e por todos os jornais.

Muito tempo depois, quando meus filhos ainda eram crianças, um prefeito se lembrou da praça e resolveu construir uma quadara de esportes. Foi a alegria da meninada. Ainda hoje lembro de Machado e Junior retornando suados e corados da quadra achando-se verdadeiros Romário. Viraram frequentadores da quadra na folga dos estudos. Tempos depois, quando os meninos viraram rapazes um outro prefeito reformou a quadra de esportes, cobriu-a, dotando-a de refletores e alambrados. E foi um inferno para a nossa rapaziada. A praça se encheu tanto de futebolistas de outras bandas, que os nossos jogadores foram dali banidos pelos cavalões que passaram a mandar na área e nas bolas.

E eu achei isso ótimo, afinal somos, aqui em casa, pernas-de-pau sem vocação para Pelés. Não adianta insistir; não é esta a nossa praia. Mas, é difícil dizer a um adolescente, que estudar é muito melhor que jogar bola. E a quadra invadida por securentos me foi um santo remédio. Hoje, graças a Deus eu não tenho nenhum atleta nos esportes, mas tenho campeões nos estudos.

Mas voltemos à Praça da Imprensa e aos que a construíram, mal conservaram e bem continuam a destruir.


Numa destas reformas da praça, ergueram uma mulher alada de asas murchas, dizendo que era uma homenagem à nossa imprensa. E a estátua ficou ali com refletores a iluminá-la, qual deusa da liberdade. Mas a liberdade de recriar não iria parar. Um alcaide erigiu ali uma banca de revistas, uma guarita policial. Outro fez um parque infantil, embelezou os canteiros, botou até um monumento com uma letra A, chupando um caju estilizado. E, como de rotina, tudo isso que foi criado e nunca foi bem conservado. Primeiro a polícia foi-se embora, carregando a casa e o posto. O caju também se foi e no A nem castanha ficou. O alambrado está todo furado, não há mais parque infantil, e até a deusa alada da imprensa está no escuro com os refletores danificados e roubados. Todo um testemunho dos que constroem, dos que não conservam e dos que destroem.

E o ciclo não parou por aí. O monumento erigido pela Prefeitura de Aracaju ao Professor Acrísio Cruz há poucos dias, já está quebrado. Quem passa hoje pela praça da imprensa já pode constatá-lo. Não existe mais a placa em bronze nem os dizeres que continha. Resta por hora só o busto do Educador. Quanto tempo ficará ali? Talvez amanhã o destruidor volte para cumprir a tarefa ainda inconclusa. Por que? Para que? Para destruir somente?


E assim eu me lembro também de outra estátua; a da Pietta de Michelangelo em Roma, atacada por um maluco a golpes de martelo, que por conta disso hoje se encontra enclausurada num aquário a prova de choque.


E o que falar do choque de um fanático matar John Lenon por amor, um poeta que não era estátua, mas um ícone de tolerância de uma geração? Não. Tudo isso é muito difícil de compreender e aceitar.


E aí eu me volto de novo para Aracaju. Onde estará o busto do jornalista e filósofo Jackson Figueiredo? Está no mesmo lugar, tomando sol poente na testa sem abrigo de chapéu? Se não foi engano meu, eu nada vi no pedestal quando por ali passei. Parece que sumiu também e ninguém ainda notou, quando acabou o terminal hidroviário; coisa dos que depredam.

Se a conservação é fruto da educação, que fazer então com os que teimam em demolir? Fica a pergunta colocada para o desafio dos que constroem e não conservam.

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