Contraexemplos notáveis.

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Era comum entre os romanos, que os grandes generais quando do seu retorno de batalhas memoráveis fossem recebidos festivamente pelo povo.

Nestes momentos, como em todos de grande ovação, bem vale ainda o célebre aforismo atribuído a Eurípides: "Deus enlouquece primeiro aqueles a quem quer destruir".

Tanto que naqueles momentos eufóricos em que era louvado o herói do dia e do desfile, seguia sempre alguém, com a função de alertar-lhe ao pé do ouvido: “Memento mori!!!”.

Era um alerta à fugacidade do existir; ou seja: “Lembra-te que és mortal!”.

Sobre a mortalidade, bem vale reler “Sapiens – Uma breve história da Humanidade”, excelente best seller de Yuval Noah Harari, sobre o caminhar da humanidade em sua evolução.

E também sua sequência, “Homo Deus – Uma breve história do amanhã”, em que este autor, nascido em 1976 em Israel, Ph.D. em História pela Universidade de Oxford, e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, prossegue na mesma vereda, agora imaginando o futuro do homem com laivos ficcionais.

Segundo Yuval, e seu discutível “Homo Deus”, a imortalidade não será uma quimera tão impossível como se pensa, e a morte será apenas um problema técnico.

Tal “Homo Deus” será alguém cujo poder possuirá descomunal dimensão em capacidade e realização, que até o não morrer se tornará uma conquista alongada; assintótica, digo eu, algo cada vez mais estendido, como os decaimentos radioativos que se eternizam por sonho ou pesadelo, em equações diferenciais ordinárias e tão simples, quão desvendáveis.

E aqui bem vale explicitar o que seja uma curva assintótica só por lembrança, afinal estender o nosso período de meia-vida é também poder adiar a miragem de um éden ou terra prometida.

Esboço de decaimento radioativo com "meia-vida" de 1, 5, 20 e 100 anos, respectivamente.

Algo parecido com:

dN/dT=-kN

Uma elementar Equação Diferencial Ordinária e Linear de 1a Ordem, cuja solução é a função exponencial decrescente:

N=N_0 e^(-kt)

Onde N, pode ser algo inerente à vida ou seu vigor, o t é o tempo, variável essencial e ainda independente (afinal viajar nele, indo e voltando ao futuro ou ao passado, continua uma hipótese remota ou impossível para alguns), N_0 é o valor deste vigor da vida aferido em um determinado tempo tomado como princípio, ou delimite de contorno, e k seria a tal taxa de decaimento que insere em cada indivíduo o menor ou maior alongamento da vida.

Taxa, diga-se sem olvido, que se presta também aos catastrofistas da falência da previdência e seus cabalísticos cálculos atuariais.

Dir-se-á, portanto, perlustrando Yuval Noah Harari, que a humanidade estaria se comportando como o gráfico abaixo em que o alongamento da vida em demanda da imortalidade faria todos os homens eternos e padecentes como o eram os antigos deuses gregos, misto de homens e heróis.

No gráfico acima N x t, estão listados quatro decaimentos exponenciais em que os períodos de “meia-vida” são respectivamente 1 ; 5; 20 e 100 anos. As curvas aproximam-se assintóticamentes da abcissa horizontal, eixo dos tempos, sem alcançá-lo.

Mas, eis que ao discutir o alongamento da expectativa de vida, eu me afasto do desejo inicial, do apelo “Memento mori!”, deste convite necessário à razão, desde os festejos aos tribunos da antiga Roma, e que deveríamos ouvir, heróis ou tolos, sempre quando nos afagam em aplauso fugaz e passageiro; “Lembremo-nos que somos frágeis e efêmeros!”.

E ao pensar assim, quero lembrar a título exemplar, de algumas figuras que a história colocou como ícone, e a ficção o ensejou para bom reflexo.

Da História, direi que Caio Júlio César, o “Conquistador das Gálias”, acolheu os sicários dos “idos de março” de 44 a.C, por dezenas de anos antes, com afagos de seu carinho.

Tais assassinos, “todos bons cidadãos”, os “melhores homens daquela época”, inclusive Brutus, seu filho, segundo o necrológio proferido por Marco Antônio, conspiraram e o mataram como “tirano”, porque estavam zelando pela “democracia”.

Saltando daí para a ficção, realço a notável inserção de Shakespeare com Cina, o poeta, morto pelo populacho enfurecido, querendo vingar César em outro Cina seu assassino.

Esse Cina, introduzido marginalmente na tragédia, não era o singular conspirador que a multidão perseguia. Era um seu homônimo ficcional, e só poeta, apenas.

Mas, para a turba desembestada e enfurecida, não valia menos: -“Despedaçai-o por causa de seus maus versos!” (Cena III do Ato III de Júlio César de Shakespeare). Este Cina mau poeta serviu somenos para amainar espíritos.

Comandando outras fúrias na História, pode-se listar Dom Tomás de Torquemada, aquele que assava hereges em espetaculosos autos de fé, mas que restou na memória para sempre, como ideal padecente dos fogos do inferno.

Infernos à parte, me volto para a Revolução Francesa, por recorrência, afinal ali os feitos eram nutridos pelo aplauso da massa ignara.

E aqui convém ressaltar, por parêntesis necessário, que hoje, nestes tempos de fastígio tecnológico, tal ralé ignorante e bronca empesteia até a internet, tentando esconder sua inépcia e total desutilidade, no anonimato em que se exibe só por medo e desbrio, tentando demolir tudo que não é do seu agrado.

Desvergonhas que os auxiliam como “corajosos” úteis ao serviço dos enxovalhamentos e linchamentos, açulador de multidões enfurecidas.

Razão para fechar o parêntesis e voltar à História e à Revolução Francesa, agora bem além do período do Terror,  exemplo notável de incitação da turbamulta em que se apoiara o “incorruptível” Robespierre, e sobretudo Marat, “o amigo do povo”.

Quatre-vingt quinze – Le Terreur en procès de Loris Chavanette

Porque a História sempre mostra que o povo que mais aplaude, sempre apupa mais fortemente. E é muito difícil acalmar a opinião pública em desembesto.

Robespierre eos respnsáveis pelo Terror

Esta gravura de Jean Alphonse Roehn (1799-1864),  e datada de 1831,  possui uma outra versão pintada por Alexandre-Évariste Fragonard (1780-1850).

Tela de Fragonard exibindo mesma temática.

Em ambas as telas encena-se o fatídico dia 1o de Prairial do Ano III (20 de maio de 1795), em que a turba invade a Convenção querendo obrigá-la reimplantar a Constituição de 1793, aquela que instituíra o banho de sangue do Terror.

Neste particular bem vale apresentar a capa ilustrativa do livro “Quatre-vingt quinze – La Terreur en procès”, de Loris Chavanette (ainda não traduzido em português), onde a massa enfurecida exibe para o Convencional Boissy d’Anglas a cabeça do Deputado Féraud a 1o  de Prairial do ano III.

A cena é notável e merece descrever, afinal apresenta a baixeza e a grandeza daquele momento radical.

Enquanto a multidão ameaça os convencionais exibindo a cabeça do Deputado Jean Bertrand Féraud que fora por ela trucidado, o Presidente Boissy d’Anglas, ao ver a cabeça do seu infortunado colega espetada numa lança, ergue-se de seu acento, retira o chapéu em especial respeito, e o saúda, calando a audiência.

Cito este livro e a cena de sua capa, porque desejo lembrar os momentos pouco conhecidos da História de 1795, ano sequente à Revolução Termidoriana, aquela reação bem sucedida aos excessos do Terror, que ousou decapitar a Robespierre e seus sicários montanheses.

Neste ensaio ao analisar no ano de 1795 o Julgamento do Terror, explicita-se o conflito da justiça de exceção com a necessidade de convivência entre o temor e o arbítrio vigente, quando a intolerância de muitos chocava-se com a indulgência de outros como Boissy d’Angras, para  perseguir o mote fundamental da Revolução Termidoriana, que não só pretendia revisar, como vingar, antigos excessos cometidos no ano anterior, 1794, conhecido como o mais negro da Revolução Francesa.

Como se sabe, os responsáveis pelo Terror subiram todos ao patíbulo no mesmo solfejo de suas vítimas em 10 de Termidor do ano II (28 de julho de 1794), ouvindo da turba os gritos de “- Morte ao tirano!” – “Morte ao Ditador Sanguinário!”.

Todavia, se 1794 é bem conhecido por sua hemorragia incontrolável, 1795 permanece pouco estudado.

Há uma espécie de esquecimento tácito, como se os historiadores não gostassem de ver a Reação Termidoriana como uma Revolução bem sucedida.

E 1795 é um ano importante por trazer consigo toda dificuldade de bem julgar, punir e vingar, procurando-se seguir o devido processo legal e seu contraditório, com procedimentos compatíveis aos auri-tempos românticos da Declaração dos Direito Do Homem e do Cidadão.

Ora, o Período do Terror se encerrou com a decapitação dos líderes radicais jacobinos Robespierre, Saint-Just, Couthon, etc., todos sumariamente custodiados, qualificados e executados, sem processo, nem defesa, como assim acontecera a centenas de seus oponentes, tanto à direita, como à esquerda, aí amontoados moderados, radicais e até indulgentes, todos acusados por suspeição e indício de inimizade contra a República. Aplicava-lhes o próprio remédio, por antídoto de vindita necessária.

Execução de Robespierre e seus aliados – Deflagração da Revolução Termidoriana.

Cessadas as primeiras vinditas, sobrara à justiça Termidoriana algumas figuras que bem vale citar porque se prestaram a coonestar os julgamentos sumários acontecidos no tempo do Terror, e tiveram que ser julgados segundo a nova ordem.

Refiro-me a René-François Dumas, o “Dumas-le-Rouge”, por causa dos seus cabelos vermelhos, Presidente do Tribunal Revolucionário, Jean-Baptiste Coffinhal, juiz deste mesmo tribunal, e Antoine Quentin Fouquier-Tinville, o seu temível acusador geral.

A Dumas, “o vermelho”, enquanto Presidente do Tribunal Revolucionário, atribui-se a resposta ao apelo pela vida do químico Antoine-Laurent de  Lavoisier em 8 de maio de 1794: “A República não precisa nem de cientistas nem químicos. O curso da justiça não pode ser detido”.

Lavoisier, um sábio, foi decapitado por ser também um cobrador de impostos, um “Fermier”, os assim chamados agentes do fisco terceirizados pelo tesouro público.

Quanto a Dumas-le-Rouge, foi decapitado ao mesmo tempo que “O Incorruptível”, sem ter sido julgado.

Vivia-se o momento descrito por Anatole France no romance “Les dieux ont soif”, tempos em que os “deuses tinham sede”.

De Jean-Baptiste Coffinhal, sabe-se que era assaz autoritário contra os acusados. Cassava-lhes a palavra, impedia qualquer defesa.

Se o acusado insistia gritava-lhe: “Você não está com a palavra!

Se o acusado insistia, era retirado da sala de audiência, caso de Georges Danton e Camile Demoulins, e dos assim chamados “indulgentes”, que preferiram ser guilhotinados a guilhotinar.

Coffinhal conseguiu fugir dos termidorianos, refugiando-se numa ilha próxima, ali passando fome e frio. Resolve se abrigar na casa de sua amante, “Madame Nègre”, uma morena que agora o rejeita. Tenta adquirir ajuda oferecendo dinheiro a um amigo. O dinheiro é recebido, mas logo é denunciado e preso na Conciergerie.

Conta-se que foi de uma covardia incrível na prisão, a ponto de ser censurado por seus colegas Robespierristas, incomodados com suas lamúrias.

Como os demais detidos, foi sumariamente condenado.

Conduzido sobre a carroça, da Conciergerie à Praça da Grève, o todo-poderoso juiz ouvia agora da turba: Coffinhal! Coffinhal!, tu não tens a palavra!”

Coffinhal foi a centésima quinquagésima vítima das purgas de Termidor, o ultimo decapitado do dia .

Quanto a Fouquier-Tinville, o terrível acusador público do Terror, este não teve um julgamento sumário. Seu julgamento demorou quase nove meses. Nesse tempo houve muita discussão quanto aos crimes e sua condenação.

Como, a despeito do retorno à liberalidade do estado de direito, imperava o efeito bumerangue entre juízes e jurados, acusadores e acusados do Tribunal Revolucionário, prevaleceu o devido processo legal para coonestar o justiçamento.

E assim Fouquier-Tinville foi condenado e executado.

Sobre a sua execução, vale repetir o relato do jornal “Le Messager de soir”, citado por Loris Chavanette, no seu livro em epígrafe; “Como no dia da execução de Robespierre, a alegria era imensa na multidão… Indivíduos de todo tipo de fortuna, idade, e sexo gritavam: ‘Viva a justiça!’”

Outros Julgadores Execráveis

Poder-se-ia parar por aqui, mas bem vale citar dois outros juízes cujos excessos ficaram marcados na História: Roland Freisler (1893-1945), o mais conhecido juiz do Terceiro Reich alemão e Andrey Vyshinsky, o terrível procurador estalinista dos Processos de Moscou.

Ambos foram responsáveis por julgamentos hoje considerados arbitrários

Roland Freisler em seus momentos de glória.

Roland Freisler pode ser visto, ao vivo ou em ficção, atuando em alguns processos, onde se percebe o seu destempero no interrogatório dos réus.

Do seu currículo afirma-se que as sentenças de morte saltaram de 102 em 1941 para 2097 em 1944.

Convido o leitor a pesquisar no Youtube o nome de Roland Freisler, onde se pode ver a sua atuação gravada.

São vídeos por se só bastante elucidativos.

Quis o destino que Roland Freisler não fosse julgado pelos seus crimes em Nuremberg.

A fortuna o poupou desse dissabor.

Morreu soterrado pelos escombros do seu tribunal em Berlim, bombardeado pela aviação aliada em 3 de fevereiro de 1945.

Quanto a Andrei Vyshinsky, um dos homens fortes de Josef Stalin, foi responsável pelos processos jurídicos que legitimavam os grandes expurgos promovidos entre 1936 e 1938, todos aplaudidos pela massa imbecilizada.

Processos ainda hoje pouco estudados, sobretudo pelas “confissões”, arrancadas sob tortura, coerção e chantagens, algo parecido com o que se vê no nosso noticiário em tantas “delações premiadas”.

O tempo e a História têm mostrado que o desembesto da massa ao erigir salvadores da pátria e purificadores de costumes tem estimulado mais intolerância que concórdia, e o herói do momento pode ser o ícone a execrar, afinal nos julgamentos espetaculosos a real motivação pode não ser tanto a justiça, mas o proselitismo político que não nos agrada.

Andrey Vyshinsky repousa como herói na Praça Vermelha em Moscou.

Eu ali estive em 2016, prestando minha reverência ao assustador Lenin, único exemplo no mundo de um ícone em corpo presente embalsamado e ainda conservado.

Para discutível memória, na passagem ao mausoléu há uma fila de bustos e túmulos de “heróis” bolcheviques.

Devo ter passado por seu mausoléu sem o reconhecer.

Estava a procura do jazigo de John Reed, o fascinante autor de “Dez dias que abalaram o mundo”. Não o encontrei.

Como reconhecer aquela fila de “heróis” se estavam todos nomeados em Russo, idioma que não domino?

Coisas da vida.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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