CONTROVÉRSIAS SOBRE O SÍMBOLO DA MEDICINA

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 Asclépio, deus da Medicina na mitologia grega, era filho de Apolo e Coronis. Criado pelo mestre centauro Quirón, ele associava a arte de tocador de harpa à perícia de um cirurgião. Unia medicina e arte. Com Quirón, Asclépio aprendeu medicina a partir do uso de plantas para a cura das enfermidades, tornando-se famoso em toda a Grécia.
         Sua fama, inclusive de milagreiro, provoca  inveja em Zeus, o deus supremo, que o elimina com os raios dos Cíclopes. Como a mitologia enfatizava o contraste entre as fraquezas dos seres humanos e as grandes forças da natureza, “a ordem natural não podia ser subvertida com a cura e a ressurreição dos mortos”, como explica Berta Ricardo de Mazzieri, museóloga do Museu Histórico Carlos da Silva Lacaz, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP.

Os gregos buscavam na mitologia a explicação para o mundo em que viviam. Os deuses assemelhavam-se aos mortais e tinham sentimentos humanos. O povo acreditava que sua vida dependia incondicionalmente das divindades e qualquer infortúnio pelo qual passassem cumpria a vontade de uma delas. A relação entre mortais e deuses era amigável. Porém, os deuses eram responsáveis pelos parâmetros de conduta. Se um mortal cometesse um deslize ético, como orgulho, ambição ou prosperidade excessiva, poderia ser castigado.

Segundo o professor Joffre Rezende, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, o símbolo da Medicina, a serpente enrolada no cajado é a representação da tradição médica. Na Grécia antiga, os símbolos estavam ligados a valores morais, status social adquirido e interpretações da Natureza. A serpente por trocar de pele representa a renovação, a libertação das doenças, o renascimento. O cajado era um símbolo de autoridade espiritual, quem o usava estava num estágio superior de amadurecimento, experiência e temperança.

ASCLÉPIO, estátua do Museu do Vaticano
“Ambos têm sua origem na mitologia grega. O de Asclépio é o símbolo da tradição médica; o de Hermes, deus do comércio, dos viajantes e das estradas, foi introduzido tardiamente na simbologia médica”, diz Joffre.

         Hermes é considerado um deus desonesto que roubou parte do gado de seu irmão Apolo, sendo obrigado por Zeus a confessar o crime. Para se reconciliar com o irmão, Hermes inventou a lira e a flauta, presenteando Apolo com elas. Em retribuição, ganhou o caduceu. Caduceus, em latim, significa o bastão dos arautos e servia de salvo-conduto, conferindo imunidade ao portador quando em missão de paz.

         A Hermes foi atribuída a missão de mensageiro dos deuses do Olimpo por ter a capacidade de se deslocar rapidamente. Como o comércio na antiguidade era ambulante, Hermes foi consagrado como o deus do comércio. O caduceu de Hermes é utilizado em emblemas de associações comerciais, escolas de comércio e escritórios de contabilidade. Joffre conta que mais de um fato histórico concorreu para que o caduceu de Hermes fosse utilizado como símbolo da medicina. Um deles teria origem nas trocas culturais entre as civilizações grega e egípcia. Thoth, deus do conhecimento, da palavra e da magia na mitologia egípcia foi associado a Hermes. Desse sincretismo resultou a denominação de Hermes egípcio ou Hermes Trismegistos (três vezes grande), dada também a Thoth. Porém, no panteão egípcio, o deus da Medicina correspondente a Asclepius é Imhotep e não Thoth.

O uso do caduceu como símbolo da Medicina também é atribuído ao desenvolvimento da literatura esotérica, entre os séculos III a.C. e III d.C., que fazia alusão a Hermes Trismegistos, versando sobre ciências ocultas e alquimia. Dessa forma o caduceu foi adotado como símbolo da alquimia, passando para a farmácia e depois para a Medicina. Joffre aponta ainda a influência do editor suíço Johan Froebe que no século XVI adotou um logotipo semelhante ao caduceu de Hermes em sua editora, utilizado na capa de obras clássicas da Medicina, como de Hipócrates. “Além desses, o fato de conferir ao bastão de Asclépio o nome de caduceu, criando uma nomenclatura binária para o símbolo comercial e o médico, e de o exército norte-americano ter usado o caduceu de Hermes como insígnia do seu departamento médico, também colaboraram para estabelecer a confusão entre os dois símbolos”, explica Joffre.

 No Brasil algumas entidades optaram por utilizar o símbolo de Asclépio com estilizações originais: A Associação Paulista de Medicina e a Academia Brasileira de Medicina Militar adotaram o símbolo com o bastão tomando a forma de uma espada; na Escola Paulista de Medicina o cajado é o tronco de uma árvore; a Associação Brasileira de Educação Médica substitui o bastão por uma tocha, simbolizando a luz do saber; no logotipo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto a serpente é um nó cirúrgico. Para o professor Joffre, as estilizações criativas não desrespeitam o símbolo de Asclépio. O que o incomoda mesmo é a confusão com o símbolo de Hermes.

“Lamentavelmente, o caduceu pode ser encontrado em nosso país em revistas, sociedades médicas de fundação mais recente, sites da Internet dedicados à Medicina e, até mesmo, em impressos de algumas universidades. É necessário realizar uma campanha de esclarecimento, sobretudo nas Faculdades de Medicina, junto aos estudantes. O caduceu de Hermes, símbolo do comércio, deve ser visto como um símbolo impróprio aos nobres ideais da Medicina”, conclui.

Pelo menos uma empresa de Medicina de grupo, tirou proveito dessa confusão e adotou o caduceu de Hermes, mais apropriado à sua atividade mercantil, mesmo que seu “produto de mercado” seja a Medicina.

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