Corrida de rua: uma metáfora da vida

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Por Rafael Bastos

Há alguns anos eu, ainda sedentário, voltando de festas às 5 da manhã em frente ao calçadão ou orla, perguntava-me: “o que motiva uma pessoa (normalmente a palavra “pessoa” estava acompanhada de algum predicado pejorativo) a levantar a essa hora para correr?

A cada corrida que ruas eram bloqueadas, lá vinham meus xingamentos pelo “transtorno” causado a mim que teria que simplesmente mudar a rota para chegar ao meu destino. Rostos felizes, apesar de suados. Não entendia e até me chateava. Será que você também já pensou o mesmo? Principalmente caso sua resposta seja afirmativa, continue lendo. Esse texto é especialmente para você.

Anos depois, quando o “sobrepeso” já me incomodava, resolvi tentar a “tal corrida” para melhorar a forma. Procurei uma assessoria esportiva para orientações dos treinos e fixamos uma meta: Corrida noturna em Salvador. 5km. Dia 26 de maio de 2011. Faltavam 2 meses.

Nossa, como o início foi difícil. O cansaço era absurdo. Acho que só não era maior que minha vontade de desistir. Início chato vendo as pessoas passarem “voando” enquanto eu ainda alternava caminhadas com pequenos trotes. Nos primeiros dias pensei muito em desistir. Sair cansado do trabalho e ainda correr? Enfim, resolvi dar uma chance e seguir tentando.

Acho que esse sentimento de desistência só foi exterminado quando corri meu primeiro quilmetro. Meu deus. Como aquilo foi mágico. Ali vi que SIM, ERA POSSÍVEL. Quebrei a barreira na inércia e da acomodação. Comecei a sentir os benefícios do que estava fazendo. Corpo, disposição, mente, humor. Tudo melhorando.

Vi que eu era capaz de coisas maiores. Queria coisas maiores. As semanas se passavam e segui firme. Focado. Ia conseguir concluir bem minha primeira prova. E assim foi. Debaixo de chuva, percorri meus primeiros 5 km.

Tempo de prova? Pouco importa. Com certeza tempo elevado. Mas não mais elevado que minha alegria.

Eu havia vencido. Não a prova em si, mas havia superado a preguiça, o sedentarismo, a acomodação. Venci a mim mesmo, meu maior adversário.

De lá para cá já se foram 4 anos. Dezenas de outras provas. Cada uma com sua história, mas todas especiais. Sejam provas longas ou curtas. Absolutamente todas são metáforas de nossas vidas. Em cada uma aprendo algo de bom, conheço novas pessoas, passo por dificuldades. Cresço.
Em minha última prova pensei sobre esse texto. Corrida: uma metáfora da vida. E é exatamente isso.

Na corrida temos vários elementos de nossas vidas. Focamos uma meta. Seja um concurso, um emprego, uma conquista na vida pessoal. Enfim, visualizamos nossa “linha de chegada” e nos preparamos para ela.

Nossa preparação determinará como estaremos no momento de buscar a nossa meta. Os mais dedicados, focados, provavelmente na corrida, assim como na vida, sairão – se melhor.

No “percurso” vão haver dificuldades. Sol, chuva, falta de água, as vezes dor. Assim como na vida que diariamente enfrentamos dificuldades: contas, demissões, fim de relacionamentos, perdas…

Como lidamos com elas? Desistimos? Recuamos? Paramos? Reavaliamos? Os que não desistem, apesar das dificuldades, são os vencedores. Os que mantiverem o foco, a determinação, colherão os frutos na “linha de chegada”.

“Qual o tamanho de sua fome?”, dizia meu treinador. E é isso mesmo. Qual o tamanho da nossa entrega nas coisas que nos dedicamos a fazer? Não há conquista de verdade sem suor, sem algumas privações, sem dedicação, sem trabalho. São escolhas, caminhos que temos que optar. Seja na vida, seja na corrida.

As vezes tive um dia cansativo ou problemas ou atormentam. Sento para calçar o tênis e olho pro sofá “me chamando”. É difícil.  Não posso dizer que 100% dos treinos que faço vou por prazer.  Mas garanto que em 100 % das vezes que vou treinar, quando acabo estou sempre mais forte do que quando comecei. Sinto – me sempre mais leve. Encaro os problemas de outra forma. Começo o dia bem mais disposto. Acabo o dia bem mais leve.

E como a Corrida é democrática. Todos podem praticar. Seja na praia, na rua, nas trilhas. Seja sozinho ou em grupos. Viajou? Basta levar um tênis e sair para explorar de uma forma diferente o local. Aqui lembro quantos locais já conheci com a “desculpa” de viajar para correr e quantos ainda quero conhecer… Pra isso basta levar um tênis.

Como esse esporte é maravilhoso e mudou de verdade minha vida. Mudou valores e me ensina a cada dia. Como meu corpo é capaz de fazer coisas que nem imaginava. Hoje me preparo para uma prova de Ironman. Um rapaz que não conseguia correr 1 km, hoje nada, pedala e corre.
Hoje faço parte do grupo que um dia eu julguei errado: o dos “rostos felizes, apesar de suados”.

Então lanço um convite. Faça como eu e tantos outros. Tente. Dê uma chance a você mesmo. Faça por você. Comece. Isso mesmo. Melhore sua vida, viva mais e melhor. Faça algo que lhe trará benefício real na sua QUALIDADE DE VIDA. Experimente.

Para relaxar após um dia de trabalho, para válvula de escape dos problemas, para dormir melhor alguns rendem-se ao álcool, “remédio tarja preta” ou até drogas ilícitas.

Eu? Eu apenas corro….

Sou Rafael Bastos, médico e apaixonado por corridas de rua.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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