CPF X CNPJ e outras tolices.

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O recente debate entre CPF X CNPJ, ditado por loucuras presentes de Corona-Vírus, me fez lembrar o célebre panfleto do Abade Sieyès, deflagrador dos fatos e feitos da Grande Revolução Francesa de 1789.

Escrito que, no meu entender, merece relembrar, até para divagar do comum lugar do noticiário, que só pensa em filmar covas abertas nos dispersos cemitérios do país, exibir desfiles de ataúdes, sem cortejos, nem réquiem, com a finalidade talvez, de assustar a todos, tetanizando a audiência, impedindo-nos do livre pensar, agir e questionar o pacote oferecido pela mídia, sem perquirir o quê, e o porquê, da nossa circunstância.

Capa do Opúsculo “Qu’est-ce Le Tiers-Etat?” do Abbé Joseph Sieyès.

Em conjuntura turbulenta e convulsionada parecida, o Abade Emmanuel Joseph Sieyès publicou um pequeno opúsculo que viria a ser um marco definitivo do Poder Constituinte, em prévias daquela que seria a Grande Revolução Francesa de 1789.

O mês, convém lembrar, era Janeiro, quase seis meses antes da memorável “Queda da Bastilha” e o panfleto  portava um título simples, questionador; “Que é o terceiro estado?”

O texto chegava num momento em que a França discutia as reformas necessárias em busca da modernidade, sempre resistente a sair do conformismo de duas classes privilegiadas; nobreza e clero, perante uma terceira, constituída pela totalidade da nascente burguesia de então, artesãos, liberais, comerciantes, cerca de 97% da população citadina, desfavorecida de importância nas decisões políticas e econômicas do Estado.

O cenário pareceria moderno, por tolerante, quase uma reunião legisladora, em apelo à nação, afinal o Rei convocara a “Assembleia dos Estados Gerais”, um medieval conselho, que estava em desuso por arquivamento de cinco séculos.

O que ninguém pensava, nem discutia, é que, anacronicamente constituído, por retrógrado, os “Estados Gerais” decidiriam por meio dos três ajuntamentos reunidos; o da nobreza, o do clero, e o terceiro estado, aquele de maior deputação.

E por tal anomalia, o “Terceiro Estado” exibia uma maioria que não vingava, nem vogava, porque os outros dois estamentos decidiriam no final, embora fossem minoritários.

Algo parecido com o nosso debate conjuntural entre as classes obreiras e patronais, CPF X CNPJ, amedrontados pelo Corona-Vírus e seus malefícios.

É quando surge no frontispício do manifesto o questionamento exposto pelo Abade Sieyès:

– “Que é o terceiro estado?”

Argumentava o Abade em três perguntas simples, dando-lhe sua resposta rápida.

“1º O que é o Terceiro Estado? Tudo!”

“2. O que tem sido até agora na ordem política? Nada!”

“3º O que ele está pedindo? Para se tornar algo!”

E Sieyès continuaria enquanto estocada consequente e necessária:

“Quem ousaria dizer que o Terceiro Estado não tem em si tudo o que é necessário para formar uma nação completa? Ele é o homem forte e robusto, cujo braço está acorrentado”.

“Se removêssemos a ordem privilegiada, a Nação não seria algo menos, mas algo mais. Então, que é o Terceiro Estado? Tudo, mas um todo dificultado e oprimido.”

“O que seria sem a ordem privilegiada? Tudo. Mas um todo rico e florescente. Nada pode passar sem ele, tudo seria infinitamente melhor sem os outros.”

E continuava desafiador e definitivo:

“Vamos ver se as respostas estão corretas”.

“Examinaremos então os meios que tentamos e os que devemos tomar, para que o Terceiro Estado se torne, de fato, algo.

Então vamos dizer:

4° O que os Ministros tentaram e o que os Privilégios propuseram a seu favor?

5° O que deveria ter sido feito?

6º Finalmente, o que resta fazer no Terceiro Estado para tomar o lugar que lhe é devido?”

 

O panfleto do abade foi um imenso sucesso editorial com 30 mil exemplares vendidos em quatro semanas.

Como foi dito, o opúsculo fora lançado em Janeiro de 1789, quase quatro meses antes da Sessão de Abertura dos Estados Gerais, acontecida em 05 de Maio em Versailles com a presença do Rei.

Logo o Terceiro Estado rebelar-se-á contra os outros dois, nobreza e clero, em 17 de Junho, quando iria acontecer o célebre Juramento do Jogo da Pela, que contra a Lei e contra o poder constituído, votou a primeira Constituição do Estado Monárquico Francês.

Depois, como um rastilho de pólvora inflamado, acontecerão os sucessivos debates, as conflituosas decisões republicanas, uma violência crescente e acrescente de parte a outra, o Rei chegando a perder o trono e a cabeça sob a guilhotina, a assassina máquina  revolucionária erigida, dita igualitária por republicana.

Viria e vigeria o assim chamado período do Terror Revolucionário, quando cabeças foram roladas e substituídas, no mesmo afio sedicioso, até que, já enfastiado de tanta sangueira derramada, o cutelo restou abandonado e esquecido, aposentado definitivamente por Napoleão Bonaparte que, dispondo da força das armas e do apoio popular, extinguiu a Revolução e sua anarquia, um assunto que bem poderia nos ser lembrado agora, embora não nos interesse tanto, no presente momento, já que em nossa anarquia, perde-se o verbo, o senso e a verve, jamais a cabeça, o cargo e a vilania.

E se o que nos interessa no momento é a lembrança do Abade Sieyès é porque no recente debate entre CPF e CNPJ, por loucuras de Covid-19, muitos agitadores provocam disputas entre os providos de algo e os desprovidos de tudo, suscitando o desemprego e a fome.

Porque no atual contexto de Covid-19, alguns querem, aqui e lá fora, enquanto sóis poentes em suas pregações ideológicas, que o tal vírus chinês seja tão capitalista quanto burguês.

E este vírus não o é, nem capitalista, nem socialista.

Trata-se de um germe sinistro, mundial.

E atingiu-nos a todos, como uma imprevidência jamais imaginada pelo fim da história, e pelas democracias liberais ocidentais, em tantos estados perdulários, com suas máquinas públicas sorvendo insaciavelmente uma demanda crescente de recursos, sem a contrapartida eficiente de serviços, excessos de regras, em tantos privilégios sobejamente detectados e nunca coibidos.

E aqui em Sergipe, um Estado pobre de homens e ideias, quer a nossa intelligentsia paroquial que o debate se faça, no melhor combate ao Corona-Vírus, entre vulneráveis CPFs se defrontando a adipócitos CNPJs, antigo baronato empregador, sempre acusado de esfomear muitos, em nome do lucro, sua usura e locupletação.

E as classes produtoras, temendo desempregar tantos e esfomear quantos, ousou pedir ao Senhor Governador a abertura do Comércio, uma demanda pregada pelo Presidente Bolsonaro, que em vendo o erro campear mundo afora, as nações mergulhando num buraco negro insondável da Economia, recomenda como antídoto urgente e necessário de prevenção, não da moléstia, mas da miséria inerente ao desemprego que cederá à crescente desocupação.

Gritam, uníssonos, os Governadores e Prefeitos: – “Fiquem em casa!”

Como ficar em casa, quem não pode sobreviver sem ganhar o pão de cada dia?

Por acaso todos podemos ficar em casa, no ócio aprisionados, ou laborando via computador, nesta novilíngua de vida à mingua, via delivery, e sendo remunerados pelo governo federal, com R$600,00, em benesse paga, com muita crítica, e excessiva acrítica, por raquítica concessão do governo Bolsonaro, que paga com esforço o escorço e a conta de tantos governantes desmiolados?

E haja desmiolo! Afinal, até o Ex-Presidente Lula em recente live assim tisnou, depois pedindo desculpas:  “Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus. Porque esse monstro está permitindo que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises.”

Pois é! Tem muito Governador que pensa igual.

Acha que o Vírus veio para nos dizer que o Estado, só o Estado, e mais Estado será capaz de resolver a atual crise, e outras que surgirão, talvez anualmente, com o micróbio mudando pior todos os anos.

E o Estado, por seus homens enclausurados no poder, nutridos com bastas comissões remuneratórias acumuladas, tudo ao amparo da Lei, pode em sua residência isolados, determinar a custódia do cidadão comum que o desobedeça querendo trabalhar.

E haja prepotência!

E ainda falam do regime autoritário que em Sergipe não produziu um cadáver a carpir e a homenagear.

É quando eu me somo a Regina Duarte, em preferência de música.

Não era e é, melhor, o “Pra Frente Brasil” de Miguel Gustavo, lembrança feliz, que “O Bêbado e o Equilibrista”, restado infeliz, sem Ellis Regina?

Ou sem Ellis ela ressoa melhor, em outras vozes, em permanência?

Ah!, lá vou eu fustigando audaz canalha, boa de jogar pedra e formar patrulha!

E por final e afinal, a gente não deve chorar pelo que nos são próximos somente, e não pelos distantes, embora a cada morte, por poesia de John Donne, os sinos sempre dobrem pela humanidade toda e por nós, e cada um?

Não disse Jesus também, que “os mortos devem enterrar seus mortos”?

Parênteses inseridos e já fechados, retorno ao tema e aos tempos atuais de excedente totalitarismo, o Estado ousando tudo: impedir o culto, a oração, a Procissão de São José, que não aconteceu, vão antecipar o feriado de Corpus Christe, Santo Antônio será transferido para quando setembro vier, o Natal será jogado pro novo ano, e 2020 será o ano que se começou,  não terá bom fim!

Quanto a mim, porque posso assim, continuo recluso. “Fique em casa!” Gritam meus filhos pelo Skype, esta geringonça, amiga da onça, que nos manda beijos e abraços longínquos e convenientes.

Eu vejo tudo isso e ouso reclamar, sem razão para tanto.

Como reclamar se vivo com a minha companhia predileta; Dona Tereza, a alegria de meus dias?

Ela cozinha e eu lavo as panelas, dividindo as tarefas domésticas.

No mais, faço as minhas orações, uma delícia: no alvorecer as laudes, no entardecer as véspera, e no anoitecer as completas, segundo o breviário antigo.

Não direi que leio bastante, como bem merece a minha biblioteca.

Pela TV, não mais acompanho a mídia pátria, sobretudo os noticiários da Globo, que andam contaminados numa nota só querendo descobrir em Bolsonaro uma venalidade como pelo em ovo, esperando agora a quebra de sigilo de uma gravação ministerial e descobrindo um Marinho, em manha nova, qual pecado original de sua candidatura em definitivo.

Enquanto mídia, prefiro ainda os jornais franceses, cuja leitura diária me é mais produtiva.

Agora mesmo estou a saber que o Presidente Macron queria conferir uma comenda em ouro, prata e bronze a ser conferida aos profissionais de saúde atuantes na Guerra da Cavid-19.

Foi recusada pessoalmente na cara do Presidente pelos Médicos reunidos: – “Queremos melhores salários e condições de trabalho!”

Aqui, como em todo lugar, o Estado relegou em plano supérfluo a saúde, com os profissionais reduzidos ao proletariado mais rasteiro, aviltados em salario, em comparação a outras carreiras de Estado, tão inúteis quão parasitárias.

Desta discussão perdulária, entre Bolsonaro, os Governadores e os Prefeitos, ver-se-á depois que são estes e não o capitão quem será responsabilizado pelo fracasso econômico do país.

E o vírus?

Eu já disse para minha amada em confissão diária, e alardeio aos meus leitores amplamente: se eu for atingido pelo Covid-19, apliquem-me Cloroquina, e não esperem pelo esculápio!

Eu estou cheio de especialistas em imunologia em tantas paralisias e desaconselho.

Morrer, todos iremos, sem exceção!

Alguns como Henrique V, o herói de Azincourt, vertendo o sangue numa imemorial causa, hoje não tão inútil porque vingou o Brexit.

Felizes os que morrem numa guerra justa, recitava Charles de Péguy, em outra guerra, de sanha igual desnecessária.

Necessidade que me faz lembrar do conto de Balzac em que devotos buscavam um padre não juramentado durante o Terror da Revolução Francesa, alguém que ousasse descumprir a Lei, sua Ordem e o Estado atrabiliário que a impunha, para rezar por Réquiem a um  cristão fora-da-lei, o Rei Luís XVI, no dia de sua decapitação.

Naquele tempo havia padres ainda, que ousavam rejeitar o juramento estatal imposto e proceder a celebração de sua missão.

Hoje, a Igreja vem cedendo ao Estado, o pescoço, a batina e a tonsura, as Capelanias sendo fechadas, quiçá seladas, como as lojas comerciais.

Em tempos idos do século XIX, os ancestrais da minha família erigiram a Igreja do Povoado Pedras em Capela, em louvor da Virgem do Carmelo, por promessa de resistência perante a epidemia do Cólera-Morbus.

Naquele tempo, muito mais do que na Ciência Médica, os meus ancestrais creditavam a cura e sobrevivência da família às preces e devoções a Nossa Senhora do Carmo e fui criado a usar o Bentinho pendurado no pescoço, embora o desuso me fez esquecê-lo.

Hoje, os tempos são agnósticos e o Estado afiança que não vale à pena rezar.

Assim, para quem anda com a sensação que perdeu a noção do tempo nesta quarentena, vou ajudar: Em Aracaju, hoje é 21 de maio. Sexta-feira próxima, amanhã, será 08 de Julho, dia para comemorar a nossa Emancipação Política, e na próxima segunda-feira será 24 de Junho, dia de São João dos Carneirinhos, sem direito a comemoração com canjica, fogueira e forró; as moças casadoiras ameaçadas de ficarem “sorteiras”.

E nesse forrobodó e diante de tanta imodéstia a perquirir em novo caminho de racionalidade, sugiro aos poderosos empresários que se unam para fustigar altiva e corajosamente estes governantes maus gestores que não se contemplam bestiários no espelho.

Vale repetir a figura recebida via internet:

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