Criatividade e negócios

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“As empresas de sucesso em todo o mundo já descobriram isso, mas até quando vamos continuar ignorando a importância da criatividade nos negócios e em especial no Nordeste?” Fernando Viana.

 

 

 

Volta e meia encontramos nas mais diferenciadas mídias notícias sobre a criatividade e sua importância, a mais recente delas foi publicada nas páginas amarelas da Veja (O motor do mundo, 28/06/2006). Recebi esse artigo, enviado dos mais diferentes cantos do Brasil, através de amigos que sabem e valorizam a importância da criatividade e conhecem o trabalho que desenvolvo.

 

Todavia, porque resistimos tanto sobre o resgate e desenvolvimento dessa habilidade? Afinal somos todos criativos no Brasil? Não é isso o que sempre ouvimos? Então para que falar mais em criatividade? Mas, se somos tão criativos (no Brasil) porque não encontramos soluções verdadeiras para os graves problemas que nos atormentam? Afinal, só somos criativos para o Carnaval? Para preparar festas? Para organizar as “espertezas” da vida? Para buscarmos escapadas das punições? Onde está esta badalada criatividade brasileira para resolver os problemas estruturais que nos afetam, sejam eles políticos, sociais ou empresariais? Onde está essa tal criatividade brasileira? Alguém a conhece? Gostaria muito de falar com ela…

 

Na verdade o que acontece é que a palavra criatividade foi muito mal utilizada e aplicada nos anos 80 por alguns indivíduos que se rotulavam “consultores em criatividade” e que chegavam nas empresas prometendo mudar a cabeça dos funcionários. Vendiam programas maravilhosos, que deixariam as pessoas “felizes e criativas para sempre” e que a partir daí o sucesso empresarial seria garantido. Ouvi falar e tomei conhecimento de muitos desses cursos aplicados em grandes empresas brasileiras por profissionais que “haviam ouvido o galo cantar”, mas não sabiam aonde e que na verdade não conheciam nada acerca de criatividade como uma habilidade a ser desenvolvida.

 

O resultado de alguns projetos desses “consultores” quando muito deixou as pessoas mais “felizes” por alguns dias, todavia, com o passar do tempo ao caírem da “realidade real[1], perceberam que tudo aquilo que haviam aprendido no curso não poderia ser aplicado na sua empresa da noite para o dia. Assim sendo, pouco a pouco, esses chamados indivíduos criativos formados nessas empresas foram esquecendo o que aprenderam, tomaram uma verdadeira aversão aos cursos de criatividade e, o pior de tudo, o fantástico investimento das suas empresas foi por água abaixo.

 

Quando falamos em criatividade, não dá para considerar que basta apenas aprender apenas algumas “regras e dicas” para sermos mais criativos. Criatividade, na realidade é “um estilo de vida”, através do qual o indivíduo investe maciçamente na educação da qualidade do pensamento e no conhecimento e desenvolvimento de atitudes mobilizadoras, o que, na maioria das vezes, como conseqüência dos seus “insights[2]” e da sua capacidade de enfrentar desafios e de se transformar fará como que o mesmo reformule o seu comportamento (externo). Quando isso se realiza, verificamos e constatamos a transformação.

 

Todavia, nada acontece e nada mesmo se o indivíduo não desejar e permitir que essa mudança, que essa transformação desejada aconteça. “Ninguém pode persuadir outra pessoa a mudar. Cada um de nós vigia uma porta da mudança que só pode ser aberta pelo lado de dentro. Não podemos abrir a porta para ninguém, seja com argumentos ou com apelos emocionais”, trecho do livro “Conspiração Aquariana”, best-seller mundial da famosa jornalista americana Marilyn Ferguson[3] que fala da atuação dos “conspiradores aquarianos”[4] nas transformações pessoais e sociais dos anos 80.

 

Com a minha ainda pequena experiência em ajudar pessoas e empresas a resgatar a sua criatividade, gosto mais de definir a criatividade como ‘a habilidade[5] que o indivíduo tem em organizar a qualidade do seu pensamento”. Ou seja, todos nós somos educados em um sistema ensino no qual há décadas perdura um modelo extremamente ultrapassado, no qual o conhecimento que é repassado as pessoas é centrado na sua capacidade lógica de aprender e recorrer a soluções já pensadas há bastante tempo. Toda a nossa educação, mesmo a dita educação moderna da atualidade está fundamentada no compartilhamento[6] do conhecimento: aulas de português, matemática, física, química, ciências e etc. Dando continuidade os professores entram na sala de aula e despejam informações aos alunos, que por sua vez copiam direitinho e organizam seus apontamentos. A maioria deles sequer abre um livro depois, pois o seu mundo de conhecimento está centrado no seu caderno de anotações. Indo mais além, aqueles que anotam bastante. E muito têm os seus cadernos extremamente disputados por aqueles que não anotam nada. Ao final, todos estudam pelos cadernos e muitas vezes tiram notas boas e acreditam que estão “preparados”; a primeira grande surpresa aparece no vestibular, pois se constata que os alunos não estão preparados o suficiente, a disputa é grande e precisam tirar notas altas. Então aparecem os consagrados cursos preparatórios, quando as aulas de dicas são intensas, os simulados são poderosos, e cada vez mais o conhecimento ao invés de ser ampliado, ao invés dos alunos serem preparados tanto emocionalmente como cientificamente, os mesmos aprendem apenas a preencher quadradinhos, questões “casca de bananas” e coisas similares.

 

Muito bem, depois de alguns anos de lutas nas faculdades, esses jovens que – cada vez mais aprendem – menos vão enfrentar o que chamamos “realidade real”: o cada vez mais competitivo mercado de trabalho. Por outro lado, as empresas – também por conta dessa nua e crua realidade estão cada vez mais exigentes, pois precisam de profissionais proativos, que pensem rápido, que tomem decisões, que sejam criativos[7], mas o que acontece? Muito bem, lido com isso há muitos anos. As pessoas na maioria das vezes não sabem pensar, pois essa habilidade não lhes foi ensinada nos bancos escolares, elas sabem, quando muito reproduzir conhecimento, ou seja, apenas repetir o que aprenderam nas salas de aulas e quando o problema que estão enfrentando na empresa não apareceu durante o curso é um “deus nos acuda”.

 

São executivos que lêem um cronograma de trabalho e não são capazes de analisá-lo, visualizá-lo e de enxergarem que mudanças práticas poderão introduzir no processo que estarão melhorando os resultados do projeto. São excelentes profissionais que não conseguem encontrar soluções que ainda não foram pensadas; são pessoas que entram nos supermercados e fazem suas compras seguindo um roteiro e uma lista previamente agendada e que não são capazes de parar para analisar outro produto e experimentar a sua qualidade. São pessoas que sempre reclamam da falta de tempo porque dizem que não conseguem “administrar” bem o seu tempo, quando na verdade o tempo não poder ser administrado e sim “alocado”, é só pensar e prestar atenção: “sempre encontramos tempo para fazer aquilo que nos agrada”.

 

Assim sendo, num mundo de competitividade, cada vez menos os empresários desenvolvem suas habilidades criativas, o que a maioria faz é copiar estratégias de sucesso uns dos outros, terminando pelos mais fracos sucumbirem. Constatamos isto todo dia, nos mais variados cenários de negócios.

 

Mas, existe solução para esse dilema? Claro que existe, à medida que executivos, empresários e educadores abrirem os seus olhos para a realidade e enxergarem que estamos caminhando para um mundo de oportunidades e nesse fantástico mundo, quem souber pensar, que souber transformar obstáculos em oportunidades irá vencer essa batalha.

 

Portanto, está na hora de resgatar a criatividade, o potencial criativo para isso é preciso apenas sair da zona de conforte e cair em campo.



[1] Verdadeira.

[2] Sua capacidade de olhar para dentro de si, de se conhecer mais e enxergar suas dificuldades e agir para superá-las.

[3] Editora Record, 1998, 11a Edição.

[4] Mais precisamente “agentes de transformação”

[5] Portanto é um “dom” e é uma habilidade que pode ser desenvolvida.

[6] Compartilhamento no sentido de divisão. Pouco uso ou quase nenhum da transdisciplinaridade.

[7] Ou seja, capazes de enxergar diversas soluções ainda não pensadas para o mesmo problema e escolher e melhor delas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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