Crônica de uma cidade vazia

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Muita gente reclama quando Aracaju fica vazia nos feriadões. Eu, ao contrário, adoro.
Acho que a cidade ganha e muito, em qualidade de vida nessas ocasiões. Não há filas nos caixas dos hipermercados e sobram mesas nas praças de alimentação dos shoppings. Nos bares, o atendimento melhora sensivelmente. Nos restaurantes, o jantar sai em quinze minutos, o transito fica uma beleza e sobra vaga em qualquer estacionamento da praia. Isso é que é cidade, meu amigo!
Num feriadão como esse, dá pra levar as crianças no parque sem ficar torcendo pra que elas cansem logo e voltem dormindo no banco de trás. Pra dar uma geral naquele monte de papéis que você nunca deixa a faxineira jogar fora. Dá até pra visitar aquela tia-avó que passa a tarde toda ligadona nas missas da Rede Vida. 
Nesses dias calmos, aproveito que os cinemas estão livres de adolescentes falando no celular, pra ver aquele lançamento. Ó paí, ó! Que tranqüilidade!
Dia bom também pra tentar terminar aquele livro marcado eternamente na bendita página 101. Dia de tocar violão, de matar a saudade de Jobim. Fico aqui pensando naquela história babaca da “cidade que não pára nunca”, da tal “metrópole que não dorme”. Essa besteira consumista nasceu em Nova York e como uma macaqueação, se espalhou por colônias americanas não oficiais.   
É mais uma dessas idéias que vão, gritantemente, contra a natureza da espécie humana e do planeta. É por essas e outras que já estamos derretendo as geleiras e inundando as primeiras cidades. Mas essa é uma outra história que não vem ao caso agora.
O fato é que, numa cidade em que se tem o privilégio de estar a cinco minutos de qualquer amigo, com praias ainda limpas e tempo pra curtir um bom de semana prolongado reclamar que a “cidade tá um cemitério!” ou que “não se tem nada pra fazer” é ser mal agradecido e não saber aproveitar bem o que tem.
Ao invés de reclamar à toa, veja quanta coisa boa tem pra se fazer. Se não quiser nem sair de casa chame os amigos pra assistir um DVD ou prepare aquele camarão aos quatro queijos pra loura do 301.
E, mais importante: continue estimulando todo mundo a se mandar pra Itacaré, Guinga ou Praia do Francês no feriado. Seja um baluarte do turismo de exportação, porque se esse pessoal todo resolve ficar por aqui, meu amigo, aí estraga tudo. Adeus tranqüilidade!  

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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