DAR UM PASSO A FRENTE

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Há alguns anos, numa de minhas muitas idas a uma determinada repartição do nosso Estado, cumprindo uma enfadonha rotina burocrática para resolver uns problemas, tornei-me conhecido das pessoas que atendiam naquela Secretaria: de uma jovem senhora atendente, que fazia o trabalho de secretaria na abordagem, entrega de crachás e informações aos visitantes, e um Guarda Vigilante, que sempre estava ali para garantir a ordem, imagino. Fui tanto àquela repartição, que já os conhecia pelos nomes e, muitas vezes, demorava-me em animados papos com eles, aguardando a minha vez de ser atendido.

 

Numa dessas minhas conversas o jovem senhor que trabalhava como Guarda Vigilante, – de uma empresa terceirizada, é claro, – sabendo que eu era advogado, disse:

– É, eu também fazia direito, mas faltou tempo. Depois que iniciei neste trabalho, há oito anos, não deu mais para prosseguir e tive que abandonar o curso quando já fazia o sexto semestre.

 

Tomei um espanto e exclamei em voz alta:

 

Como? O senhor abandonou um curso de direito, no terceiro ano, por achar que não tinha tempo para freqüentar a faculdade?

 

– Não. Eu não achava não. Eu não tinha e nem tenho é tempo mesmo. Desde que iniciei neste emprego, que me senti impossibilitado de continuar, aqui eu trabalho oito horas por dia, quando chego em casa estou morto de cansado. O senhor já pensou o que é passar oito horas em pé? 

 

– Respondi sem atropelos: não estou acreditando. Desculpe. Mas esta é a jornada de quase todos que estudam e trabalham e olhe, há pessoas que fazem serviços bem mais cansativos que este e não param por isso. Só como exemplo, pense numa jovem senhora, dona de casa com filho pequeno, que trabalha para outrem, cumprindo idêntica jornada e, no lar, toma conta do filho, da casa e, sobretudo, não desiste. Desculpe o que vou dizer: ou o senhor é muito fraco, preguiçoso ou mofino. Por favor, volte o quanto antes, conclua o seu curso, adquira uma profissão que, com certeza, é bem melhor do que esta que você exerce. Faltam só dois ano! Retome imediatamente a sua faculdade, amanhã mesmo, requeira a abertura de sua inscrição e termine logo com isso.

 

– Não posso, pois já caducou. (foi a sua resposta).

E prosseguiu:

– Há alguns anos, quis voltar e, falando com meu cunhado, que é advogado, ele disse que já havia caducado que eu não poderia mais, para voltar a estudar seria necessário fazer outro vestibular e, como o senhor sabe, estou sem estudar, trabalhando, e sem tempo, achei melhor deixar pra lá.

 

– Desculpe, mas o senhor foi mal informado pelo seu cunhado, não caducou nada, faça o que lhe disse, vá lá amanhã mesmo e reabra a sua inscrição e volte a cursar a sua faculdade o quanto antes, para você, nesta altura do campeonato, a recuperação de um semestre é muito importante. E emendei, repetindo. E emendei, repetindo:

  Vá lá amanhã mesmo, ouviu?

 

Ele ficou calado, mas senti que havia uma possibilidade.

 

Chegou a minha vez, fui para o atendimento e quando saí, reforcei mais uma vez.

 

Vá amanhã mesmo, ouviu?  Se precisar de mais alguma coisa que eu possa ajudar, me ligue.

 

Dei-lhe meu cartão, ele acenou positivamente e eu fui embora.

Resolvidas minhas pendências naquela repartição, nunca mais tive necessidade de lá retornar, bem como, esqueci aquele fato.

 

O tempo passou, e alguns anos depois, eu colaborava com a Comissão de Exame de Ordem da OAB/SE. – Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Sergipe – na aplicação das provas. Um dia estava numa sala fiscalizando a aplicação daqueles exames e, naturalmente, já esquecido daquele episódio e daquela pessoa. Quando, lá no fundo da sala alguém levanta a mão e diz:

 

Doutor, estou aqui, concluí o meu curso, e já estou fazendo o Exame de Ordem. Vou ser advogado igual ao senhor. Muito obrigado pela bronca.

 

Fiquei, naturalmente, muito feliz, com o reconhecimento e tive que explicar o que realmente tinha acontecido aos outros, até para não gerar uma suspeição, se acaso eu tivesse que, durante a prova, manter algum contato com aquele bacharel.  

 

Contei essa história para demonstrar que muitas coisas nos colocam sempre um pouco atrás daquilo que queremos e merecemos. Até desejamos conquistar uma coisa melhor para nós mesmos e para os nossos, porém estancamos no primeiro empecilho, às vezes simples, às vezes não. Mas, suficiente para fazer naufragar o nosso projeto. Não temos nem disposição para tentar, para persistir, para ultrapassar o obstáculo. Paramos, simplesmente.

 

Uma informação equivocada fez meu amigo perder alguns anos e, quase que perdia todo o tempo. Fico todo orgulhoso ao encontrá-lo, de vez em quando, de paletó e gravata, pelos fóruns da vida, dignificando a profissão que finalmente abraçou.

 

ÀS VEZES, POR FALTA DE PERSISTÊNCIA, PERDEMOS AQUILO QUE QUEREMOS, SIMPLESMENTE POR ACREDITARMOS NA PRIMEIRA INFORMAÇÃO NEGATIVA.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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