Das liberdades da raposa e do porco espinho I.

0

Neste 6 de junho, o pensador Isaiah Berlin estaria completando 100 anos. Nascido numa família judaica, em Riga, capital da Letônia, que naquela época integrava o território russo, Berlin emigrou com a família para a Grã-Bretanha, muito jovem, em 1921, tendo estudado em Oxford e depois ali lecionado teoria social e política.

 

Os primeiros escritos de Sir Isaiah datam dos anos trinta do século passado. Seu ensaio mais destacado foi uma biografia intelectual de Karl Marx, escrito em 1939, que depois dos anos 70 se tornou o seu livro de maior divulgação com cerca de 250.000 exemplares, só na versão inglesa.

 

Além da atuação acadêmica, Isaiah Berlin teve também expressiva participação no ministério das relações exteriores britânico, tendo trabalhado nas embaixadas inglesas, em Washington, no período da guerra (1939-45), e na União Soviética, onde travou relações com Boris Pasternak, autor de Dr. Jivago, e a poeta Anna Akhmátova, autora de Réquiem, poema sobre o terror stalinista.

 

Com estes dois poetas russos, Berlin contemplaria a realidade da perseguição totalitária, porque neste tempo ambos estavam forçados ao silêncio por atividades anti-soviéticas, que só seriam reabilitados após a morte de Josef Stalin. De Akhmátova, sabe-se entre outras coisas que teve seu esposo, o também poeta Nikolaï Goumilev, executado, por inimigo do regime.

 

O pensador judeu teutão anglo-americano Isaiah Berlin

Os regimes totalitários e de histeria coletiva sempre são inimigos dos poetas. Na tragédia Julio César, Shakespeare narra em gracejo cruel tal realidade. Quando a turba, despertada por Marco Antônio, parte em vingança contra os matadores de César, encontra o poeta Cina (Cena III, Ato III), que estava no local errado e na hora errada. A multidão pensa que é um outro Cina, um dos sicários conspiradores. De nada adianta o poeta Cina dizer que em sua sina, sempre fora um inocente, um não padecente da ira: “Despedaçai-o por causa de seus maus versos!” E a massa enfurecida o dilacera: “Despedacemo-lo! Despedacemo-lo!” Igual ao juiz revolucionário que negou o perdão ao sábio Lavoisier, pai da Química moderna, sentenciando: “A república não precisa de sábios”. Lavoisier era um sábio, mas para seus circunstantes, era apenas mais um odiado cobrador de impostos.

 

Sem imposições, mas como um crítico do totalitarismo, Isaiah Berlin, tem sido visto com reservas pelas esquerdas enrustidas ou enfurecidas, sobretudo a partir da publicação em 1958 do ensaio “Two Concepts of Liberty” (Dois Conceitos de Liberdade), e porque multifacetado, o seu pensamento tem sido mais apreciado por liberais e conservadores.

 

Segundo este estudo, Berlin estabelece uma distinção entre a liberdade positiva e a liberdade negativa.  Estudando tais conceitos assim escreveu José Guilherme Merquior em sua publicação póstuma O Liberalismo, Antigo e Moderno: Berlin definiu “a liberdade negativa como estar livre da coerção. A liberdade negativa é sempre liberdade contra a possível interferência de alguém”.

 

Quando possuímos a autonomia de fruir intitulamentos contra possíveis abusos e patrulhamentos, quando podemos expressar nossas crenças, quaisquer que sejam estas crenças, isentas de censuras ou impedimentos, quando temos a liberdade de auferir pessoalmente os nossos gostos e nos é lícito o livre procurar dos objetos individuais, independentes de modelos impostos, estamos exercendo a liberdade negativa.

 

“A liberdade positiva, por outro lado, é essencialmente um desejo de governar-se, um anseio de autonomia”.

 

Com a liberdade negativa, as pessoas são livres se ninguém as impede de realizar o que desejam. O indivíduo deve ser resguardado das restrições impostas pelo Estado e as leis precisam agasalhá-lo não só do Estado como dos demais indivíduos. A liberdade negativa é incompatível, por exemplo, com patrulhamentos ideológicos ou preconceituosos velados ou explícitos.

 

Já pela liberdade positiva, cabe ao Estado criar condições materiais (saúde, educação) e controles, que permitam os indivíduos agirem livremente e realizarem as suas próprias escolhas.

E continua Merquior: “A liberdade positiva é essencialmente um desejo de governar-se, um anseio de autonomia”.

 

A liberdade negativa, “é a liberdade de, enquanto a positiva é a liberdade para: a aspiração do autogoverno, a decidir com autonomia em vez de ser objeto de decisão”.

 

Os dois conceitos, porém, têm os seus críticos, sobretudo, no livre debater do pensamento ideológico.

 

Os críticos da liberdade positiva, por exemplo, falam que os seus partidários “tendem a justificar os governos tirânicos das ‘elites esclarecidas’, afirmando objetivos humanos ‘verdadeiros’ ou ‘mais nobres’”, como a “formação do ‘novo homem’ sob o comunismo”.

 

Igual ou semelhante à recente solenidade de perdão aos cassados pelo regime revolucionário. O chicote fora o mesmo, mas os cassados ‘ditos de esquerda’ são os heróis ou mártires do regime, já os ‘malditos cassados’ da direita, são vilões a merecerem todos os escarros.

 

Para os alucinados ou encantados da esquerda, uma torcida maior que a do flamengo e de todos os outros times ajuntados e etiquetados e nem por isso menos equivocados, os encômios derivam do carbonário apodrecido e já mal fedido, mas sempre vivo, ressurgente e intolerante, porque tolo, inclemente e violador por excedência. São lobos em peles cordeiras que, quando vivos e incontrolados, porque sempre capazes de tudo, acendem fogueiras, afiam cutelos e erguem cadafalsos aos milhares contra os seus inimigos.

 

E tanto isso é verdadeiro, que numa solenidade explícita de alforria e de perdão, com perdulária indenização à custa do ervanário da nação, desta pobre nação que precisa de ralos heróis a tão aviltado, e mais que avultado, preço, que para os cassados de outra grei, não vale o império da lei, o devido processo legal é desnecessário, e a ampla defesa é mais um bestiário, com o contraditório sucumbindo ao impróprio anedotário.

 

E é por anedotas e tragédias como estas que o pensador Charles Taylor está correto em corrigir Berlin, afinal tanto a liberdade positiva quanto a negativa são caricaturadas no descortinar do debate ideológico; os adeptos da liberdade positiva se acham “inspirados por elevados ideais da humanidade, (são seres) utópicos que se revelam sombrios ‘virtuosi’ do ‘substitucionismo moral’: em nome da nossa mais elevada forma de ser, eles simplesmente decidem a nossa vida, em nosso lugar”.

 

Na mesma discussão, prossegue Merquior, discutindo Berlin, agora citando Norberto Bobbio, por ele inserido no campo dos pensadores liberais, para quem “a liberdade como independência e a liberdade como autonomia partilham um mesmo campo, uma vez que ambas implicam em autodeterminação”.

 

Estariam estas duas liberdades complementadas na era social-liberal dando a uma o caráter ‘liberal’ ,e à outra um caráter ‘democrático’? Na liberdade negativa ou ‘liberal’ deixar-se-ia ao indivíduo decidir tudo o que se referisse à sua vontade, enquanto que na liberdade positiva ou ‘democrática’, estaria assegurado a este indivíduo, como a qualquer indivíduo, o participar, para inferir e interferir quando a decisão tivesse que ser tomada de maneira coletiva.

 

Assim vale o questionar de Bobbio: “Que significa ser livre para o indivíduo considerado isoladamente? Que significa para o indivíduo ser livre como o membro de um todo?”

 

Questões surgidas das inferências do pensar de Isaiah Berlin, que estão a merecer respostas mais amplas, vindas de ouriços e de raposas, outro conceito do humano pensar deste filósofo atual, mas centenário.

 

Sim, porque dividindo e separando o pensamento humano entre raposas e ouriços, Sir Isaiah continuou a discutir a liberdade no ensaio “The Hedgehog and the Fox” (O porco espinho e a raposa), um tema que pretendo ainda discutir.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais