Das liberdades da raposa e do porco espinho II

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O ensaio, “The Hedgehog and the Fox”, traduzido pela Companhia das Letras em 1988, como “O porco espinho e a raposa”, na coletânea “Pensadores Russos”, foi publicado originalmente nos Oxford Slavonic Papers, em 1951, justamente no início da Guerra-Fria, momento em que Isaiah Berlin se destacava em Londres como um pensador liberal.

 

Neste tempo, o filósofo letão atravessara os muros da academia, assumindo um compromisso com a promoção do grande debate sócio-político, que o destacaria junto ao grande público, passando a ser classificado como um “liberal mainstream”, alguém que virou moda, ou passou a externar um pensamento majoritário daqueles tempos.

 

E porque seus textos eram instigantes, compreensíveis e notáveis, até um programa televisivo sob o seu comando foi exibido pela BBC, com audiência destacada. Neste programa Sir Isaiah não só explicitava seus conceitos, como entrevistava e debatia com diversos personagens do pensamento sociológico, e figuras de destaque da política internacional.

 

O ouriço e a raposa na versão inglesa.

Numa tese de doutorado em Ciência Política da USP de Júlio César Casarin, com o título “Isaiah Berlin: afirmação e limitação da liberdade” há um relato de Edward Said que diz muito bem deste bom relacionamento de Sir Isaiah com diversos personagens de destaque mundial. Winston Churchill, por exemplo, “considerava uma manhã de conversa com Berlin como algo afortunado”.

 

Uma fortuna que se estende a todos que se deliciam com o ensaio “O porco espinho e a raposa”, uma apreciação lúcida do pensamento político de Leon Tolstoi, o grande romancista de Guerra e Paz e de Ana Karênina, que também escreveria sobre outros temas a evidenciar uma crise de ordem religiosa, a oscilar entre o misticismo e a negação da fé.

 

O mote de “O porco espinho e a raposa”, ou “O ouriço e a raposa”, com é também conhecido, é um verso colhido entre os fragmentos do poeta grego Arquíloco: “A raposa conhece muitas coisas, mas o porco-espinho conhece uma só e muito importante”.

 

Segundo Sir Isaiah a humanidade estaria dividida entre ouriços e raposas, pelo menos no que tange ao pensamento filosófico e ideológico. Uma versão simplista poder-se-á apressadamente dizer e repelir, inserindo uma visão maniqueísta que revelaria o porco espinho a rejeitar e repelir o que não lhe é espelho.

 

Por raposas, Berlin compreende todo indivíduo que busca muitos fins, contraditórios às vezes, que têm um refletir centrífugo, disperso e difuso, enquanto que os ouriços por serem centrípetos, concentram o seu pensamento numa vertente única a responder todas as coisas e dramas da humanidade.

 

A visão do mundo dos ouriços é monista e única, e por ela lutam e justificam atitudes afirmativas, enquanto as raposas, porque conhecem muito e são pluralistas, tergiversam, duvidam também bastante, daí serem mais sensíveis a quem lhes pensem diferente.

 

Seriam as variadas astúcias das raposas um perigo menor diante do porco espinho que afasta a dúvida e espanca a divergência, só para entronizar um único pensar como uno e verdadeiro?

Não estaria neste pensar de ouriços e raposas um repensar dos conceitos de “liberdade de” e de “liberdade para”, os conceitos berlinianos de “liberdade negativa” e “liberdade positiva”?

 

Mas, independente da resposta e até da queda inexorável do muro de Berlin derrubando as utopias, os ouriços e as raposas continuam a sua missão, indiferentes à história que sempre pode se repetir em erros e traumas.

 

Ora, se o mote de “O ouriço e a raposa”, é um refletir sobre o pensamento político de Tolstoi, como dizer tanto deste seu pensamento se as suas obras mais destacadas são “Guerra e Paz” e “Ana Karênina”?

 

Como garimpar um ouriço no entreato insosso do amor de Natasha por Pierre? Como ver neste acasalamento em consolação mútua, sem arroubo e sem delírio, um porco espinho a ditar regras imutáveis e decisivas tendo por cenário o fracasso de Napoleão Bonaparte e seu exército dizimado e congelado às margens geladas do rio Berezina?

 

A raposa conhece muitas coisas mas o ouriço só uma e mais importante.
Não será um conceber ouriço, o amor extremado, adulterino e equivocado, de Ana a Karênina, a boa menina, bem nascida e bem crescida, que largou tudo, do conforto à segurança, do filho amado ao marido mal querido, perdendo o siso, o sorriso e até o conciso de toda uma vida, esmagando-se na roda do trilho do trem, só por querer muito bem, a um Vronski qualquer, alguém que nunca deveria ter o amor de uma mulher?

 

Como dizer que num cenário de amor mal correspondido em desfechos de tragédias, Tolstoi estaria a se denunciar ser mais ouriço que raposa?

Sim, porque Tolstoi é classificado por Isaiah Berlin como um porco espinho ou um ouriço, como assim o desejar o leitor tradutor.

 

Porco espinho, por excelência, seria Dante, já Shakespeare, por abrangência, uma raposa em muitas astúcias. Ouriços também seriam Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoievski, Nietzsche, Ibsen, Proust, enquanto Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goeth, Puchkin, Balzac, e Joyce seriam raposas.

 

Para Sir Isaiah, Tolstoi talvez se achasse uma raposa, mas na verdade era um porco espinho, embora isso não ficasse tão descortinado nos seus escritos, uma vez que era preciso separar o seu talento e a sua obra, das suas crenças e opiniões.

 

E Tolstoi quando se referia à historia se revelava “dogmático, intratável e exagerado”, sendo acusado de “charlatanismo a usar de farsas e de trapaças para enganar os incautos, chegando a classificá-la como uma das ciências mais atrasadas, e que perdeu o seu objetivo”. E mais: “a história jamais nos revelará as ligações entre a ciência, a arte e a moral, entre o bem e o mal, a religião e as virtudes cívicas,… afinal a história nada mais é do que uma coleção de fábulas e ninharias inúteis, amontoadas desordenadamente com um enorme conjunto de números e nomes próprios desnecessários,… a demonstrar uma descrença sardônica, quase cáustica, no aperfeiçoamento da sociedade, por meios racionais, pela promulgação de boas leis ou pela difusão do conhecimento científico”.

 

Mas, deixando de lado o genial romancista e seu drama existencial a findar-se onisciente e duvidando de tudo, muita coisa se poderia inferir do pensar divergente entre ouriços e raposas.

 

De uma maneira mais prática e eminentemente conjuntural, do ouriço Platão e do Aristóteles raposa, poderemos inferir uma boa discussão quanto à natureza do que seja uma boa república.

 

Seria boa a república de Platão submetida à égide da sabedoria? Seria melhor aquela ditada pelo império da lei aristotélico?

 

Porque em Platão, a boa república seria aquela em que os reis fossem filósofos, um dogma porco espinho por excelência, creditado e acreditado por muita gente que, freqüentando as universidades se crê superior aos menos letrados e instruídos.

 

Que o digam, a título de exemplo, os que abominam o Presidente Lula por possuir e exibir uma educação postiça e uma fala pouco castiça.

 

E porque os que repelem Lula, não lhe vêem proficiências e clarividências de estadista, mesmo com a massa gritando em maioria: Fica! Fica! No lugar de: Fora! Fora. Aristóteles continua a vencer Platão, repelindo a sua preconceituosa república de sábios ouriços, a ensejar castas e estamentos intransponíveis.

 

E para explicar o fenômeno do presidente metalúrgico, vale explicitar o pensar de José Guilherme Merquior, aplicando-o como uma luva impossível na república dos reis filósofos: “Para Aristóteles, a premissa de reis sábios traz consigo um erro insanável, qual seja o de julgar que a diferença de qualidades entre os homens possua uma extensão e constância capazes de justificar a entrega do poder aos melhores dentre eles”.

 

Não sendo a sabedoria um atributo tão nítido, nem tão bem distribuído na coletividade dos humanos, melhor é possuir um governo da lei (Aristóteles), do que um regido por sábios (Platão)

 

Esta é a grande vitória do pensar multifacetado do Estagirita, que nos princípios aurorais da república já ensejava o que depois se caracterizaria como o pensamento liberal, qual seja o de moderar e limitar os excessos do poder.

 

E hoje, independente das crises do capital, e dos sonhos e pesadelos de todas as ditaduras, inclusive daquelas dos proletariados enganados, mais vale o pensar liberal, humilde por excessiva aceitação das diferenças.

 

De modo que o pensamento de Isaiah Berlin, uma raposa por excelência, merece ser, revisitado e meditado, afinal não existem certezas absolutas, elas cegam os sábios que capengam à plena luz.

 

Assim fustigue-se o dogma, sejam rejeitadas as imposições totalitárias e intolerantes de clubes, credos e cores, porque só a duvida fertiliza o ser, iluminando a passagem trôpega do frágil homem construindo a sua história.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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