De menino das tampinhas a senhor do teatro

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Marcos Cardoso*

Quando se deixa de ser criança? Quando você passa a censurar como algo inadequado o que a sua imaginação fértil criava livremente? Então deixar de ser criança é de certa forma se privar da liberdade de pensar e tentar criar um mundo mais feliz. E quem com naturalidade consegue superar esse rito de passagem vai prolongar aquele mundo cheio de possibilidades? Talvez sim.

Isso deve explicar um pouco como funciona a mente criativa e inquieta de um cara como Jorge Lins, que soube crescer sem nunca deixar de sonhar como criança. Quando menino, ele criava histórias com tampinhas de garrafa. Dava nome às tampinhas, sorria e chorava com elas, enquanto a mãe, dona Lígia, assistia e se divertia com aquilo. “Era um mundo meu e enquanto os outros estavam jogando na rua, eu estava com minhas tampinhas de garrafa, criando. Eu acho que o teatro na minha vida é influência disso”.

Enquanto os outros estavam na rua, o menino Jorge já praticava inocentemente a arte de elaborar episódios, aquilo que Nélson de Araújo definiu como “a arte de fazer bonequinhos andar na mente humana, seja através dos desenhos nos livros, no caso do romance, novela ou conto, seja através do desenho ao vivo de atores sobre o palco, no caso do teatro”. Nélson foi o festejado sergipano professor da Escola de Teatro da UFBA, autor do monumental “História do Teatro”, resultado de 20 anos de ensino da disciplina, publicado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia em 1978.

A prova de que não há exagero na conexão é que Jorge Lins se envolveu efetivamente com teatro aos 15 anos de idade, quando estudava no Colégio Atheneu e criou o Grupo Máscaras e Trastes, que mudou de nome por uma, digamos, solução comunicacional. “O nome era grande demais para o cartaz que eu havia pedido para construir. O rapaz que estava preparando me disse que o nome não caberia no espaço e sugeriu que eu colocasse Grupo Raízes”, ele revelou para o portal sosergipe.com.br.

Nome do grupo resolvido, o menino Jorge continuou o trabalho na Universidade Federal de Sergipe, onde cursou Ciências Jurídicas e Sociais. Quando se formou, em 1980, pegou o canudo, emoldurou e o deu à mãe. “Ela, brincando comigo, colou no banheiro de casa. Nem tenho a carteira da OAB”.

Mas foi a partir da UFS que o Grupo Raízes se fixou. “Era mais um grupo para estudantes classe média que queriam fazer teatro e amadureceu descobrindo que o teatro infantil era a vertente do teatro que estava faltando em Sergipe”. Inicialmente, montavam textos de autores nacionais. A primeira montagem foi de Nati Cortez, uma autora potiguar que tinha vencido um prêmio nacional de dramaturgia. Mas havia dificuldade de montar textos de outros autores. Como gostava de escrever e já era adepto da poesia, decidiu fazer e encenar as próprias peças.

“Eu comecei escrevendo, para depois começar a ser ator e eu nunca me considerei um bom ator, isso é um detalhe importante. Sempre fui muito mais de dirigir e produzir”, afirma o “discípulo” de Zé Celso, um dos mais originais percursos dos palcos brasileiros, e Antunes Filho, renovador da estética e dono de obra dramatúrgica e cenicamente autoral.

Mas o dom de como falar com as crianças e da visão de teatro infantil com função pedagógica certamente Jorge Lins herdou de Maria Clara Machado. Para a fundadora do Tablado, seja no aspecto pedagógico ou no aspecto artístico, assistido ou encenado, o teatro auxilia a criança no seu crescimento cultural e na sua formação como indivíduo. É no Projeto Escola que Jorge forma público, assim como é nas Oficinas do Ator onde ele descobre novos talentos para o teatro. Quem se destaca ganha lugar no Grupo Raízes.

Uma das primeiras influências foi um argentino que morou no Brasil chamado Ilo Krugli, criador da Casa do Ventoforte. “A construção dos meus textos era com fantasias, depois mudei muito com o Projeto Escola, tive que adequar meus textos ao tempo específico, porque os textos só podem ter 50 minutos, nem mais nem menos, por causa do horário das crianças, que vêm e voltam de ônibus”. Outra coisa é que o Projeto Escola trabalha com um público muito grande, “então não dá para desenvolver histórias com tanta fantasia como as que eu desenvolvia antes de trabalhar com escolas”.

O trabalho do Grupo Raízes, segundo sua própria definição, é autoral, educativo e mais voltado para histórias ligadas a Sergipe. Quando quer assinar grandes clássicos e grandes histórias, com elevado número de atores em cena, e justamente para diferenciar o conteúdo das peças que levam a assinatura do Raízes, ele tem a Companhia Brasileira de Teatro, que já encenou os espetáculos “Marcelo Déda”, “Filhos dos Beatles” e “Cazuza”. Aliás, ninguém consegue lotar teatros em Sergipe como Jorge Lins.

Em quase 50 anos de dedicação ao teatro, o aracajuano Jorge Lins de Carvalho escreveu cerca de 120 peças, inclusive “Os reis da floresta de cimento”, publicada em forma de livro em 1978, além de possuir mais de 200 músicas gravadas por vários artistas sergipanos, sem se descuidar da direção teatral, produção cultural e direção do Grupo Raízes e das Oficinas do Ator.

Foi professor dos colégios Visão, Atheneu e Escola Técnica, emprego certo que largou para se dedicar a fazer o que mais gosta. Também é criador dos prêmios Sanfona de Ouro e Destaques da Cultura e do Guia Educar-SE. “Sempre gostei de empreender na área da cultura e entretenimento”, diz, como se ainda fosse pouco.

Embalado por essa inquietação, ele criou no anos 80 a livraria Auê, Cultura e o Escambau, localizada na rua Pacatuba, próxima à Praça Camerino. “Eu tinha necessidade de juntar as pessoas em grupo, então criamos uma livraria que servia para lançamentos de livros e discos, tinha uma cachacinha no final da tarde, promovia debates. Era uma tentativa de fazer uma livraria como eu tinha visto em São Paulo e Recife, que reunia intelectuais e artistas”.

E foi nessa quebrada do século 20 que surgiu na Praia dos Artistas um espaço meio psicodélico que marcou época, o Circo Amoras e Amores. “Foi num momento que não tinha espaço cultural em Sergipe e tinha acabado de sair o Circo Voador, no Rio de Janeiro. Vimos que seria bacana uma lona como espaço de cultura. Só que além de espaço cultural virou também espaço de entretenimento, e assim ficou mais conhecido, embora lá dentro também tivessem espetáculos teatrais, oficinas, tinha muita coisa”. Muita coisa e muitos artistas do circuito nacional passaram debaixo daquela lona.

A imaginação fértil daquele menino que brincava com tampinhas de garrafa moldou a personalidade de Jorge Lins, formando-o como operário da caixa cênica e o transformando no senhor empreendedor da cultural local.

(O texto é uma das apresentações da peça “O segredo das sete águas”, de Jorge Lins, publicada em livro lançado recentemente. As outras apresentações são de Luiz Eduardo Oliva, Jorge Carvalho do Nascimento e Nestor Amazonas)

 * É jornalista e escritor. Foi diretor de Redação do Jornal da Cidade, secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, diretor de Comunicação do Tribunal de Contas de Sergipe e é servidor de carreira da UFS. É autor dos livros “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” e do romance “O Anofelino Solerte”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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