De Stonewall ao cansaço da homofobia

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Marcos Cardoso*

O Dia Internacional do Orgulho Gay, ou Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ — de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Pessoas Intersexo, Assexuais e outros grupos e variações de sexualidade e gênero — é comemorado no dia 28 de junho.

Nesta data, há 52 anos, iniciou-se a Rebelião de Stonewall, uma série de manifestações violentas e espontâneas de membros da comunidade gay contra uma invasão da polícia de Nova York que aconteceu na madrugada no bar Stonewall Inn, localizado em Manhattan.

Os motins são considerados como o evento que desencadeou o movimento moderno de libertação gay e da luta pelos direitos LGBTQIA+.

Pela primeira vez, jovens homossexuais, lésbicas, drag queens e transexuais decidiram não tolerar mais o abuso policial e encurralaram um grupo de agentes durante uma operação no bar gay do Greenwich Village.

Eles não tinham consciência da dimensão histórica do evento, que mudaria a vida de milhões de pessoas no mundo.

No fim dos anos 60, a homossexualidade era considerada uma doença, o sexo homossexual era ilegal nos Estados Unidos, os gays viviam de modo secreto e podiam perder o emprego ou suas casas se fossem descobertos.

Nenhuma lei protegia a comunidade. Muitas vezes eram atacados nas ruas ou detidos pela polícia por conduta indecente.

O bar Stonewall Inn era administrado pela máfia e vendia bebida alcoólica sem autorização, mas o lugar era um refúgio em meio à opressão.

Diante do bar, Martin Boyce, disse à Agence France-Presse: “Era um lugar incrível. Neste bar você podia ser você mesmo, apesar de ser administrado pela máfia, apesar de ser um lixo, nós estávamos felizes em ter qualquer coisa”.

Para ele, “Stonewall é um verbo, uma palavra de ação, e sempre será”. O Stonewall Inn foi declarado monumento histórico nacional pelo ex-presidente Barack Obama em 2016.

Os movimentos pelos direitos dos negros, das mulheres, dos latinos, a revolução sexual e os protestos dos estudantes em 1968 e contra a guerra do Vietnã contribuíram para criar o ambiente propício à mudança.

A Rebelião de Stonewall inspirou a Parada do Orgulho Gay, ou Parada do Orgulho LGBT, agora LGBTQIA+, realizada em diversas cidades do mundo quase sempre no mês de junho.

No ano passado e neste ano, por conta da pandemia, o evento tem acontecido virtualmente, sem os famosos desfiles, como aquele que pinta de cores e alegria as avenidas Paulista e Consolação, no Centro de São Paulo, um dos maiores do mundo e que agora completaria 25 anos.

Mas o espírito de resistência e libertação nunca esteve tão fortalecido.

Na semana passada, quando a Hungria aprovou uma lei anti-LGBTQIA+, que, mais de 50 anos depois de Stonewall, proíbe a “promoção” da homossexualidade entre menores de idade, o assunto mexeu com a comunidade europeia e penetrou na disputa da copa de seleções regionais, a Eurocopa.

E quando o estádio de Munique seria iluminado com as cores do arco-íris, em uma partida entre Alemanha e Hungria, e a manifestação de apoio à causa gay foi proibida pela Uefa, entidade responsável pelo futebol na Europa, a luta contra o preconceito ganhou uma dimensão maior do que a esperada, espalhando pelo mundo a certeza de que a igualdade entre as pessoas é um passo sem volta.

A Hungria é presidida por Viktor Orban, um político de extrema direita intolerante com pessoas diferentes dele, como os imigrantes e os gays. Do outro lado do continente que parece cansado da homofobia, o premiê de Luxemburgo, Xavier Bettel, primeiro líder da União Europeia a casar legalmente com uma pessoa do mesmo sexo, declarou referindo-se ao líder húngaro:

“Eu não me tornei gay. Eu sou, não é uma escolha. A minha mãe odeia que eu seja gay, eu vivo com isso. E agora você põe isso numa lei. Eu o respeito, mas esta é uma linha vermelha. É sobre direitos básicos, o direito a ser diferente”.

É assim: você não escolhe ser gay, mas escolhe ser desrespeitoso e intolerante.

*Marcos Cardoso é jornalista e escritor. Foi diretor de Redação do Jornal da Cidade, secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, diretor de Comunicação do Tribunal de Contas de Sergipe e é servidor de carreira da UFS. É autor dos livros “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” e do romance “O Anofelino Solerte”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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