Delicadeza

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Ser delicado nos dias atuais soa como ser diferente, ser bobo, ser bajulador e até “puxa-saco”.

Abrir uma porta para o outro, oferecer a mão para uma Senhora, mesmo jovem, descer uma rampa, escada ou passar por lugares com problemas no piso; ceder um assento ou uma melhor posição num coletivo a outrem; parecem posturas ultrapassadas. Respeitar os mais velhos, auxiliando, quando necessário, a se locomover numa via pública, por exemplo, saudar com um sorriso, um “bom-dia”, ou um “boa-noite”, usar a expressões como  ”por favor”, “obrigado”, “com licença”.

Oferecer uma carona, dignar-se a acompanhar até certo ponto, oferecer-se para levar embrulhos, malas, sacolas e pacotes, são atitudes que, às vezes, até se justificam que, por óbvios motivos, evitemos. Mormente se desconhecidos e em determinadas situações pontuais: se oferecer uma carona poderá resultar, em certos casos, sérios aborrecimentos; oferecer-se para acompanhar alguém, até determinado ponto, muitas vezes por cortesia, por segurança ou apenas companhia, poderá soar como segundas intenções; num aeroporto, rodoviária ou mesmo na rua, ajudar a conduzir algo poderá redundar numa enrascada. Logo, convenhamos, é bom ter cautela.

Contudo, mesmo entre conhecidos e até familiares, há um silencioso rompimento dos padrões de boa convivência, de respeito e, até, diria eu, de amor. Esta minha afirmativa se fundamenta na comprovada percepção do cotidiano, muito diferente do que acontecia nos tempos idos: (e lá vou eu pensando no passado para falar do presente e, pior ainda, falar mal do presente). Porém, não há outro parâmetro que não as experiências passadas para balizar e comparar. Somente no passado podemos encontrar referências comparativas. 

Constato, com pesar, que esta falta de cuidado no trato está causando a todos nós, um prejuízo muito grande em qualidade de vida.

Sejamos francos. Quem não gosta de ser bem tratado?

Sou funcionário público aposentado e por vários anos exerci um cargo de diretor e, no exercício daquela função, era obrigado a tomar decisões que nem sempre eram as mais agradáveis. Contudo, por princípio, antes de iniciar qualquer conversa com o outro, eu pedia a Deus que me desse equilíbrio para tratar da melhor maneira possível aquela situação e que ela fosse solucionada, sempre minimizando as mágoas existentes e nunca potencializado-as ou aumentando-as.

Lembro-me que a repartição onde trabalhava promoveu um curso para melhorar as nossas correspondências externas. O professor, vindo de outro Estado, nos ministrou excelentes aulas. O curso foi deveras proveitoso. Apenas de uma coisa discordei e fui, de certa forma, muito mal interpretado no meu posicionamento.  Foi o seguinte: ele nos ensinou que as correspondências deveriam ser as mais enxutas possíveis e chegou a dizer que o efeito dela era apenas comunicar, convidar, requerer, determinar…

Em suma, apregoou ele: o vocativo deveria se exprimir em apenas uma ou duas palavras, o texto, se possível, numa linha e a saudação no seco “atenciosamente”.

Expressões como: Determino que…, Solicito que…, Informo que…, Comunico que…

Esta seria a regra.

Imagine alguém que se sinta mal com um tratamento deste e que tenha o poder de atrasar o envio do documento, ou até mesmo de não atender a tal “ordem” embutida naquele seco (“Determino”, “Informo”, “Solicito” ou “Comunico”)? Retarda ou até mesmo não envia o tal documento e ainda olha assim de ponta, e indaga: “quem foi mesmo que enviou isto, hem?”

A correspondência, neste caso, certamente não cumpriria a sua finalidade e não resultaria em satisfação da demanda prejudicando, exatamente, quem nada teve a ver com aquela falta delicadeza e de compromisso que é, em suma, o maior interessada, usuário do serviço público. Duvidam que isto pudesse acontecer? Duvidem não, isto acontece.

Mas, sem que se desperdice material, nem tempo e com um pouquinho de boa vontade o mesmo documento seguisse com uma redação mais suave, certamente não magoaria o ego daquele que na outra ponta do processo tem que cumprir o solicitado.

E como seria esta redação?  Simples, como a comunicação mesmo sendo escrita acontece entre pessoas que têm sentimentos, continuamos usando maneiras respeitosas nas nossas correspondências. Em vez do “determino que”, o “honra-me cumprimenta-lo para pedir…”, em vez do “comunico que”, “temos o prazer de comunicar…”, por exemplo.

Deve-se acabar com a hipocrisia de que as pessoas não gostam de ser bem tratadas pelo que são. Há raríssimas exceções. Mas, muito raramente mesmo, alguém, que sendo alguma coisa, detendo algum título, não goste de ser tratado com a devida reverência a que tem direito.

O que, convenhamos, não diminui em nada a quem o saúda, por exemplo. Mas, com certeza, aquele que, por qualquer razão, detém um cargo ou função que o eleve a merecer um tratamento diferenciado, que tenha sido conquistado através de estudo, concurso, eleição ou qualquer outro meio, gosta e deve ser tratado como tal. O governador, o prefeito, vereador, o professor, o mestre, o doutor. Eles têm o direito e nós outros, sem a necessidade de nos sentirmos diminuídos, de tratá-los com o respeito e a deferência necessária.

Sabe qual é a nossa aversão em tratar bem, tratar corretamente, com respeito e delicadeza? É que no nosso imaginário coletivo está introjetada a ideia de que, se assim agirmos, estaremos nos diminuindo perante aquelas pessoas. Quando sabemos que não é bem isso. Tratar dignamente os outros – a todos os outros – é que é o ideal. No bom e respeitoso relacionamento é que está a harmonia. Esta tão decantada, esperada, perseguida e sonhada harmonia.

PENSE NISSO, SEM SOFISMA, APENAS PENSE E ME DIGA SE ISSO É OU NÃO VERDADE.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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