Demóstenes, Fouquier-Tinville e Maurício Rands.

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Eu não consigo me empolgar com estas cassações congressuais. Para mim é tudo fingimento; mera luta política. Não creio na seriedade dos julgadores. Não consigo visualizar uma pregação ética. Vejo apenas um momento para que o vulgo se destaque na mídia, como se muitos se estivessem a dizer: Nós é que somos os “bão”. Confiem em nós!

Sem medo de generalizar, eu não consigo bater-lhes palma. Entre o apupo e o aplauso, prefiro votar nulo, a endossar tanto discurso vazio.

No caso do Senador Demóstenes Torres houve muita exibição em conteúdo de assessoria, e infértil eloquência de própria autoria. Um excesso de pusilanimidade até, porque é muito fácil requerer a punição de cachorro atropelado.

E o senador Demóstenes já estava morto há muito tempo, faltava-lhe o atestado de óbito, embora os formadores de opinião “desconfiassem” de uma votação secreta. Uma prova que o problema não era do Demóstenes, mas de seus colegas, estes sim sem merecerem confiança, e, sobretudo, respeito.

Mas, como pensar assim se o noticiário do Senado não vem primando por esse desejado respeito? Como pensar diferente se um senador notável, em inteligência e argumentação, talvez a maior cabeça entre seus pares, fosse pego em ligações telefônicas consideradas ilícitas e até criminosas, pelo menos no parecer bilioso da mídia?

Logo a mídia que não se vê biliosa, nem se crê parcial? Quando todo mundo sabe que isenção e imparcialidade devem ser características da magistratura, do juiz de futebol, do bandeirinha, não da imprensa, nem sua editoria.

Porque a imprensa não se orienta pela verdade. Ela tem a sua verdade, aquela que é do seu interesse, imoderada e furiosa quando contestada, perseguindo inclusive qualquer vertente que melhor agrade o seu pensar, de modo a manipular e carrear a insatisfação do leitor.

A mídia é tão biliosa que chega a ser venenosa, por exemplo, quando em proximidade de uma luta eleitoral, maximiza escândalos e críticas dos candidatos que lhe não são do afeto, ou por ideologia, ou por venalidade.

Ora, ser venal, ser pistoleiro intelectual não é crime! Tanto assim não é, que até a fonte merece o sigilo em todos seus crimes e faltas.

Uma venalidade que é negócio apenas, como prostituição ou proxenetismo para sobreviver. A diferença é a respeitabilidade de cada um, afinal a liberdade faz do indivíduo consequência e referência conforme as próprias escolhas.

O que é deletério é tentar escoimar-se em jurada isenção absoluta. E como há leitores não burros, sobram tragédias como a de João Pessoa da Paraíba em 1930, e a de Roberto, o irmão “bonito” de Nelson Rodrigues em 1929. Um desfecho do jogo mal terminado. Igual àquele grande causídico, aquele luminar advogado, que não se pejando em defender bandido, um dia virou sua vítima.

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Parêntese necessário sobre João Pessoa e Roberto Rodrigues.

Anayde Beiriz e o filme que contou seu martirio.

João Pessoa, governador da Paraíba divulgou cartas amorosas entre João Dantas e uma professora chamada Anayde Beiriz. Dantas era um desafeto de Pessoa e as cartas eram íntimas e pessoais. Por possuírem um conteúdo erótico, reprovável aos espíritos retrógrados, Pessoa achou que valia como escândalo. O tiro assestado em Pessoa fora apenas a vingança de um Dantas ofendido, lavando a honra de sua amada. O feito foi transformado em assassinato político, deflagrador da Revolução de 1930, e com ela quinze anos da Ditadura de Getúlio Vargas, com Anayde e João Dantas assassinados, sob custódia e vigilância da polícia paraibana.

O jornalista Mário Rodrigues, pai de Nelson, permitiu que divulgassem no seu jornal “Crítica”, vasta matéria sobre um desquite amigável de uma senhora chamada Sylvia Seraphim Thibau, que era “escritora e reivindicadora das mulheres no século presente”. O jornal descobrira que a separação do casal Thibau fora resultante do adultério cometido por Sylvia, e que fora descoberto pelo marido, por uma inusitada e infeliz “depilação cauterizante”, realizada a Raios X pelo seu amante médico, Manoel Abreu, o inventor da Abreugrafia, e que lhe resultara ampla queimadura pubiana. 

Última e fatídica gravura de Roberto Rodrigues

Ora, o jornal fizera do assunto um prato delicioso para os seus leitores, e, na ânsia de divulgação dos detalhes, chegou até a entrevistar a moça, que a desmentiu e lhe solicitou a não publicação da matéria. “Crítica”, no entanto, noticiou tudo em farto estardalhaço, com desenhos de Roberto Rodrigues de uma moça tendo as pernas acariciadas por um homem.

No dia subsequente à publicação, Sylvia, elegantíssima, vai armada com um revólver na bolsa, à redação do jornal. Procura Mário Rodrigues e, na sua ausência, passa a bala em Roberto, fulminando o filho que estava disponível para a vingança. Dois meses e pouco após a morte do filho, Mário morreria de desgosto. E após muita comoção, defendida pelos jornais de Assis Chateaubriand e pelas sufragistas lideradas pela bióloga Berta Lutz, Sylvia Seraphim foi absolvida por “privação momentânea dos sentidos”.

Fechando o parêntese

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Utilizar sua cultura, inteligência e saber, e não restar insone por postular o indefensável, só porque maior é a premissa do direito de defesa? Direito legítimo, sobremodo, se vingar um troco, tudo sem quebra de ética?

Mas, o que é a ética, pergunta o malfeitor e até o rufião? Ela não é tênue como o seu oposto, a aética? Por acaso somos santos no agir e pensar? “Que tenho eu com meu irmão?” questionava Caim ao Criador de todos.

Por acaso também não se sente assim, em ação correta, ditada por seu pessoal imperativo categórico, o explorador do ilícito, só porque ele, o ilícito, é apenas uma definição por uma vontade passageira e transitória? Algo que numa penada de vontade motivada por mil discursos e justificativas, tudo pode mudar, até o lustre que enverniza a barata?

Eu não me empolgo com tais cassações midiáticas. Não sinto ternura pelos que são mestres em condenar, em acender fogueiras de ódios incontidos. Fogaréus sim, sempre presentes na história do homem.

Triste de quem cair-lhes em desgraça! Servir de bode expiatório em cujo sangue todos se lavam e se acham devidamente purificados, até que se renove o novo festim de ressentimento e insatisfação interior. Ou será esta a derradeira bola a lançar na cloaca das nossas misérias?

Mas, dizendo assim, o apressado leitor está imaginando que eu estou com pena do Senador Demóstenes, ou, por pior, que estou a ressoar o grito de sua defesa, clamando a insuficiência do livre exame contraditório.

Ora, como invocar insuficiente defensoria nos julgamentos políticos? Como reclamar de bruxas, em decisões deferidas no voto, puro e simples de um conciliábulo, com ou sem justificativa formal, sem qualquer ônus por juízes de fato?

Não foi bom assim, não tão rápido como certeiro na derrubada do Presidente Paraguaio? E agora, colega julgando colega? Podendo absolver o aliado querido ou arrancar a cabeça do inimigo, aquele que o incomoda, e ameaça, impunemente?

Não! O senador Demóstenes foi punido porque falou demais! Mereceu! Falou o que não devia e com quem não se devia atrever a papear, e foi grampeado, provado e documentado, passível em audição, aqui e alhures.

E o diálogo era estranho, dizem; em mono, blue touffe ou estereofonia. Mas, quem daqueles julgadores passaria incólume perante uma quebra de sigilo como a de Demóstenes?

Se não lhes fosse encontrado pleno noticiário de vantagens financeiras recebidas, encontrar-se-ia outro feito, repasto excelente de conteúdo escandaloso para jornalistas como João Pessoa da Paraíba e Mário Rodrigues do Recife, o pai de Nelson.

Aliás, nesta seara repete-se tolamente à exaustão; não basta que seja séria a mulher de César. É preciso que ela pareça seria. Quanto a César, a gente o apunhala!

Ou seja; Poucos têm a sorte de Danton, gritando da carreta dos condenados a morrer sob a República Revolucionária, grito destinado ao seu algoz, que distante observava. “Tu me seguirás, Robespierre!” Porque a canalha que vaia os decaídos tem o mesmo alarido, a mesma monotonia, dos sujos e infelizes.

Dos que vivem do favor do público, triste de quem lhes cai no desapreço.

No mais, por busca sôfrega desta aprovação pública, os julgamentos políticos revelam esta intolerância do humano. Uma intransigência necessária, afinal se há algum erro é porque a condenação se dá intramuros, com uma encenação de imparcialidade, cada um travestindo mais pureza e a sofrer terríveis angústias.

Como disse uma vez o ex-ministro Nelson Jobim. “Nelson Rodrigues dizia que, no seu tempo, ‘os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos’. O que se percebe hoje, é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento”.

Em meio a tantos discursos que mereciam o silêncio, eu não consigo me empolgar com tais cassações. Não antevejo, no horizonte próximo, um Congresso purificado como muita gente quer que pareça assim.

Ao repetir descrença, não estou a dizer que foi errada a cassação. Foi certíssima! Não me interessa se a escuta foi ou não realizada sem previsão de lei. Se a lei preceitua tal encobrimento do ilícito, pior para a lei, que é burra e desonesta.

Mesmo porque, logo, logo os pensamentos serão captados já na prévia intenção. E a julgar pelo que se depreende no noticiário do agir público, o mandatário de cargo e do poder deveria estar permanentemente submetido à ausência total de sigilo. Como o Presidente Nixon que gravava todas as conversas de seu gabinete e um simples “fade” acidental, testemunhou o “made”, do feito que dizia desconhecer, mas…, conhecia!

Não, não havia outra solução para Demóstenes! Até porque enquanto acusado contribuíra para a sua própria condenação, afinal ninguém fora tão contundente como denunciante dos desfeitos de seus colegas, ninguém cortejara tanto a mídia fustigando quantos “infiéis”.

Só que os tempos foram outros (“O Tempora, O Moris!”), e aqueles “infiéis” obtiveram o quórum para inocentá-los. Morrendo tudo, apagado o erro, mas sobrando o troco por promessa, e um acepipe por vingança em jantar tardio, mantido lá no freezer, sem degrado.

Demóstenes Torres sentiu na pele o que sentira Fouquier-Tinville, o implacável acusador público do Tribunal Revolucionário francês de 1793.

Fouquier-Tinville e algumas cabeças que cortou como acusadaor público imoderado

Para todo acusado do grande terror revolucionário, uma palavra virulenta de Fouquier açulava a plateia; a rainha Maria Antonieta, por exemplo, passara a ser uma dissoluta que invadia sexualmente até seu filho menor, os girondinos, falsificadores e maus gestores da coisa pública, os hebertistas, raivosos e perigosos agitadores, o químico Lavoisier, um sábio desnecessário para a revolução, Danton e Desmoulins, demasiadamente condescendentes com o erro, Babeuf, um radical comunista inconsequente. Enfim, sempre uma acusação implacável a requerer a degola, por saneamento.

Cabeça caindo para um lado, caindo pro outro. Chegou um dia em que quiseram ver a cabeça de Fouquier rolar.

Não acontecera nada de novo; “O Tempora, O Mores”! O tempo mudara e o costume permanecia. E eis Fouquier-Tinville caído em desgraça e processado por seus inimigos.

Defendeu-se bem, é o que falam os relatos. Ele era um bom advogado, excelente, como o Senador Demóstenes. E mais! O seu julgamento não foi sumário como requeria nos seus libelos afiançando a necessidade da rapidez requerida pela nação.

Não! O seu julgamento durou alguns meses, defendendo-se por sua fiel atuação no cumprimento de uma lei, aquela editada em 22 de Prairial do ano II revolucionário, a famosa lei que entronizara o terror na ordem do dia.

Ora, aquela lei de suspeição já não valia mais. Fora derrubada. Os homens que lhe haviam dado valia, pelo menos o que sobrou e conseguiu vingar, a derrogaram. E Fouquier-Tinville teve sua cabeça arrancada pela mesma lâmina, tendo o dissabor de ouvir muitos discursos da pior qualidade.

A comparação pode ser pobre, mas diante de tantos libelos acusatórios ditados pelo Senador Demóstenes Torres, poder-se-ia esperar que seus acusados em toga de jurado lhe dessem o perdão? Não! Deviam sim, calar-se no anonimato do voto constitucional. Explicitá-lo jamais, sobretudo sem valia no discursar.

Eis então uma página virada. Arruinou-se; perdeu a utilidade. O que não foi dito abafou qualquer razão de ser, até o meu dissertar, enquanto cronista em dissenso. Não vai render nenhuma matéria jornalística. No máximo poderá sobrar um protesto de alguém que se chateia em me ler, mas que me segue como chicletes agarrado ao pé.

Vamos para outro escândalo, senhores!

Bom seria que o mandato dos senadores não fosse tão longevo. Que a mediocridade não se perpetuasse tanto. Ou não seria bom assim?

Eu não me empolgo com este noticiário, porque o Brasil continua no mesmo; sem admirar seus homens públicos.

Louvação mesmo está a merecer o Deputado Maurício Rands do Recife, que num escaninho perdido do noticiário, largou a política, devolveu o mandato e qualquer honraria, rejeitando o PT, e tudo que o enojava em patifaria.

Como nunca existe o vácuo no poder; saem alguns e ficam outros. Sejam-lhes concedidos os nossos aplausos; de unha, no lugar das batatas machadianas!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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