Além do Cordão Umbilical

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Os prospectos que insistem em transmitir para as novas gerações as características de nossos antepassados estão mais vivos do que nunca, quando pontuamos a insistente necessidade  de os pais traçarem , em linhas sempre retas e de acordo com o ponto-de- vista deles, o que será melhor para os filhos.

Nestas relações cotidianas, perguntam-nos o porquê de pais e filhos estarem sempre em tamanho desentendimento. Engraçado, acompanhem o raciocínio, como duas pessoas que possuem traços físicos semelhantes, com algumas peculiaridades psíquicas, posicionam-se de maneiras tão contrapostas ao longo dos desenvolvimentos. Vemos que a juventude, dita contemporânea, termo utilizado no contexto presente, que eu considero o máximo, tem pensado de maneira individual e, cada dia mais precocemente, faz eclodir as modificações físicas  e psicológicas para entender o mundo no qual está inserta. Primeiro, parece nascer “ plugada” às novas formas de tecnologia, de informação, abstrai uma visão de mundo, moderno, cujos pensamentos “ quadrados” são postos de lado. Maravilha! Em contrapartida,  não detém experiência para interpretar e tomar decisões urgentes que pairam  sobre si: sexo,  camisinha, pílula, ficar, beijar, já transar, amassar, engravidar,  abortar, contar , assumir???

Portanto, algumas das dúvidas que se alicerçam no mundo jovem, que ao mesmo tempo que cavouca pelo avanço no comportamento sonha em encontrar a pessoa encantada: príncipe, berinjela, a outra banda da maçã, como quiser…… demonstra o choque, ou , talvez, o consenso entre estas duas formas de comportamento. Choque , pois quer avançar, até por uma atitude de não firmar compromisso em uma sociedade que só se baseia no contrato; consenso, pois de tanto liberar geral, busca encontrar a tranquilidade em outras pessoas não só para ficar,  beijar, mas conversar também. Já em meio a estes entraves, os pais corroboram para que as dúvidas aumentem, impondo aos filhos os reflexos que nem eles conseguiram construir de si próprios. Muitos dos pais, com um posicionamento absolutamente correto , delineiam para os “bebeins” os aspectos que lhes asseguram, aos filhos,  uma possível seguridade social. O problema é que muitos não percebem que  os tendo gerado e parido não se constituem donos da propriedade que diz respeito à consciência e vontade humanas. Exatamente. É mais ou menos o ocorrido com as meninas, que desde cedo são condicionadas a serem mães e genitoras sem possibilidades outras, de forma semelhante a que o menino deve formatar-se como reprodutor, responsável e protetor de forma incontestável. Compreendamos ambos os lados. De um, os genitores que desejam distanciar dos filhos qualquer possibilidade de decepção e maldade; contrapostamente, os filhos querendo retirar as vendas dos olhos e enxergar o mundo com as cores que melhor lhes convier.

Como conseqüência, deixamos de viver a conversação , democrática em família, baseada no ouvir e escutar, nas opções , para entrar em ação o discurso impositivo do “ eu não quero”, “eu não deixo”, você não vai”, sem analisar as reais necessidades dos rebentos em viver experiências: a primeira dormida na casa do amigo, a primeira noitada com os colegas, a primeira conversa sobre sexo, sem que seja necessário levá-lo ao bordel para a prática e outros absurdos mais que transitam entre a ausência e a liberdade desenfreada: comprar o cigarro de maconha e fumar com o filho, menor, dividir a mesma mulher, numa visão distorcida de pai e filhos para sempre, que horror, ou liberar o consumo extravasado de álcool, interpretando o ato como sinal de efetivação de masculinidade…. tudo errado.

Dentro deste momento de grandes mudanças,  boas por sinal, os resquícios dos velhos pensamentos, que não se comparam aos do Velho Mundo, possuidor de questionamentos modernos, paradoxo, não é difícil, nos debates em sala de aula, ouvirmos alguns alunos declararem que “ quando pais, os filhos devem usar:  rosa, as mulheres, e os homens , azul!!!!!!”; para não perturbar a ordem natural dos fatos, os brinquedos são assim respectivos: bonecas e carrinhos, sem atinar que o garoto, ainda pequeno , que não possui sexualidade, nós sim,  pomo-la, de forma doentia no contexto, muitas vezes, brinca com boneca porque será um grande estilista ou cabeleireiro, independentemente da sexualidade. Ou, então,  a garota, que dando os primeiros passos com a bola, será uma grande jogadora ou excelente árbitra.

Certo, inteligente, está o pai que deixa os filhos, de maneira equilibrada, ouvindo a justificativa,  impulsionar a criatividade e o encontro deles consigo próprios, expandindo o universo e a diversidade de personalidade. Moderno, contemporâneo, é o pai que liberta o filho  para perpassar as fases: engenheiro, bijuteiro, mágico, bailarino, capoeirista, desenhista, futurolista , dentre outros tantos cosmos que habitam o imaginário, o lúdico infantil, quando nós, sem percepção, castrados por outrem, fazemo-lo naqueles que nos representam. Certo é o pai que compra o brinquedo para o filho, deixa-o voar como Ícaro, mas de maneira sutil pule as asas do infante, dando-lhe a liberdade de ser que o é; contemporânea é a mãe, que tendo parido um príncipe, menino bonito,  perspicaz, que poderia, por uma imposição, fazer línguas: inglês, espanhol, paquistanês, intergalactixês, deixa-o livre, buscando a satisfação que está em si, para vê-lo, naquela fase, ser dançarino do “Ninjas do Arrocha” , para que mais adiante ele não se sinta frustrado e nesta abertura possa encontrar os limites estabelecidos em família. Óbvio que dentro do projeto de mundo globalizado existem muitas profissões do futuro, que propiciam dinheiro , reconhecimento, em uma sociedade na qual as pessoas são reconhecidas pelo que somatizam: 1+ 1+ 1  = infinitos bem materiais e insatisfações com o próprio espelho, a partir do momento que se olham e não se enxergam. “É como querer que o filho tire dez em matemática e zero em relacionamentos humanos. Frase de um grande físico-filósofo. Assim, que pais e filhos se interajam mais, e fundam , por mais complexos que sejam , os universos e maneiras de enxergar o que vem por aí….. e para não mudar a direção e o hábito de protesto : “ ei mãe, não sou mais menino, não é justo que você queira parir meu destino… você já fez a sua parte , me pondo no mundo………”…. até a próxima.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.