Dezembros, Medos e Portas de Hospitais

0

Deveria existir uma lei cósmica proibindo as pessoas de ficarem doentes no mês de dezembro. Já fica tudo tão estremecido no final de ano, ainda vem médico, hospital, remédios a cada seis horas. Por que a vida não dar uma trégua de vez em quando? Tem coisa mais triste que ficar na porta de um hospital aguardando notícias de alguém que está internado? Uma angústia toma conta de cada nervo do corpo, fazendo a pessoa extrapolar sentimentos que nem sabia existir dentro de si. Tudo fica urgente e qualquer coisa causa uma dor profunda. Um verdadeiro baque na alma.

Acho que perder um parente em qualquer outro mês (com exceção de fevereiro, por motivo óbvio) pode ser menos doloroso do que em dezembro. Imagine só fazer a lista de presentes, arrumar a casa com enfeites natalinos, pesquisar preço de panetone, planejar viagem de fim de ano e ao mesmo tempo aguardar na recepção de um hospital que seu parente (internado) receba alta ou pior, que fique internado até só Deus sabe quando. Deve ser uma dor muito grande, sem compreensão escrita.

Esses dias, na porta de um hospital, eu estava aguardando uma carona quando presenciei uma verdadeira crise familiar. Eram todas mulheres cansadas de esperar por notícias, provavelmente com suas vidas construídas, morando em estados diferentes, mas, interligadas por alguém em comum que estava (naquele momento) em estado crítico de saúde. Elas tentavam interação entre si, mas nada funcionava. Tentavam sorrir e demonstrar esperança, mas não conseguiam segurar toda a onda de tristeza. Era preciso apenas um especialista para dar a notícia (boa ou ruim que fosse).

Todo mundo sabe que parente doente serve também pra colocarmos, em palavras, as rixas de meses anteriores. Tudo é motivo para brigar. Qualquer palavra vira grito. Qualquer olhar vira ira. Por mais que exista amor ali (pois toda família ama se odiar), sabemos que porta de hospital serve para passar o risco da “prova dos nove” colocando no resultado final as desavenças do passado. Claro, o doente não poderá nem sonhar com a confusão generalizada causada por sua doença. Tudo fica complexo demais pra uma pessoa normal aguentar.

O pior é que porta de hospital contagia. Em poucos minutos ali parado eu fui também fazendo parte daquela família tão família, em sua relação, que ficou inevitável não ouvir trechos de conversas. Um clima tenso no ar, uma espera infinita em seus minutos. A sensação de que o tempo parado, ali, era percebido apenas pelo ar pesado respirado por todos nós. Como se num filme alguém tentasse se salvar da morte levando consigo todo o público junto. Me senti uma boia naquele rio de ansiedade feminina. Me senti parente próximo também.

Em segundos, notei uma movimentação daquelas mulheres entrando para a recepção do hospital. Notei também que elas estavam ao redor de uma médica (ou enfermeira) que provavelmente trazia notícias da pessoa doente. Foi mágico como cada rosto foi se iluminando, como se elas (mesmo ouvindo o que era dito), não tivessem acreditando que tudo tinha ocorrido bem. Não que elas não tivessem fé, isso eu sabia que elas tinham, mas é que às vezes estamos tão cansados de buscar algo que a nossa fé fica tão pequena, mas tão pequena, que caberia dentro de uma caixa de fósforos. Porém, nada melhor que uma ótima notícia para que possamos voltar a ter nossa fé brilhando grande outra vez. E foi isso que presenciei ali: um foco de luz em cada rosto, sorrindo agora, livres do medo de perder algo importante. A morte só machuca a quem fica.

Ali mesmo eu tinha começado a escrever esta crônica levado pela sensação do desespero que uma porta de hospital causa em todos nós, ainda mais em dezembro. Não desconfiava jamais que iria presenciar um verdadeiro espetáculo de amor construído por cada mulher daquela família. Ouvi por elas que o procedimento feito no doente tinha o tirado da possibilidade de morte. Vi, naquele momento, que sete vidas foram resgatadas também. Elas estavam felizes e outras pessoas que presenciaram aquilo tudo também estavam felizes. Todos nós choramos. Eu disfarcei um pouco, mas sei que notaram minha alegria também por aquilo tudo.

Neste dezembro que estamos começando, depois de tantos riscos, operações, medicamentos e medos, só me resta desejar ultrapassar 2014 de forma digna e honesta, comigo principalmente. Neste dezembro que estamos agora, sete mulheres respirarão aliviadas, farão suas listas de compras, terão o prazer de comer panetones de chocolate e frutas secas. O melhor de tudo foi que no medo de perder alguém amado, elas encontraram umas às outras.

Comentários