Diálogo Madrugador II

0

Como toda madrugada, por contingência de aperturas prostáticas, encontram-se três avós andarilhos a debater o nada ou a realidade da inação.

Possidônio Couto, o mais reclamador, relembra seus idos de professor, tão revoltado quão estéril pesquisador, mas que nunca se fizera esquecido, mesmo já aposentado, por presença significativa nas assembleias de “trabalhadores da educação”, em sendo seu melhor macaco de auditório, por ruidoso aplauso, sobretudo nos indicativos de paralização e piquete.

Piqueteiro vivaz e assaz estatista, o Couto Possidônio confessa-se hoje um decepcionado ex-petista por lutas perdidas e compromissos a si negados. Afinal o PT subiu, e o viu como um semidouto apenas.

Resistiu então na velha esquerda empedernida, seja no PSOL, no PSTU ou no Partido Rede de Marina Silva, por feroz revoltado contra os algozes do poder federal, estadual e municipal, desde o tempo dos militares, de quem não mereceu cocorote, mas de cujas dores sonhadas e imaginadas, sofre um pranto de rebeldia e lamúria, acendido e sempre reacendido, a cada revolta acontecida Brasil afora, como se fora um indormido cara-pintada.

O nosso segundo herói, Excelsino Paquequer, é um militar reformado, cuja carreira foi arrefecida pelos governos da nova República, de Tancredo Neves para frente. Homem da direita estatista e nacionalista, Paquequer abespinha-se quando o assunto tangencia a ‘Comissão de Verdade’, e a busca revanchista de torturadores no seio da caserna.

Quanto a Balaústre Cupertino, um moderado pensador ideológico, importado de longínquas plagas, mas aqui radicado, sempre soubera bem se colocar em cargos e posições do Estado.

Cupertino despertara atenção por sobrevivência política diante da sua ampla serventia e suserania, colaborando com tantos, e servindo a quantos, em fidelidade e prestabilidade, girassol cortejador do poder, secundando a qualquer vizir ou grão-vizir, de amplo e ambidestro viger, do destro ao sinistro, como soto-ministro adestro, em ambidéster reger, até surgir no estado o governo do PT, quando lhe cortaram as asas de assessor imprescindível.

Porque Balaústre, por sua serventia a todos os partidos políticos, grupos e ideologias, já era considerado um verdadeiro contraexemplo daquela máxima atribuída a Abraham Lincoln: “Pode-se enganar todas as pessoas por algum tempo e algumas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo por tanto tempo”.

Não sendo fieis nem revéis, quando surgiu o PT, Balaústre e tantos outros da esquerda escocesa perderam as viagens, comissões e mordomias, sendo afastados e esquecidos da nova nomenklatura palaciana, olvido que restou bem sentido, por não lembrados até pelos Democratas, agora de volta à prefeitura.

E ele Balaústre, que cedera ao próprio deslustre da promessa antanha e fugidia, de jamais aplaudir o DEM de novo, posicionou-se na nova posse do amigo prefeito em mais vistosa posição do auditório, com redobrado vigor de palma e animação. Uma lembrança que restou terrível, pois cessada a festa, de concreto não vingou nenhum decreto… Só recebera um sorriso, o velho sorriso lauto, um abraço e nada mais…

Assim, eis de novo os três andarilhos matutinos no seu encontro madrugador para destilação das próprias tristezas, confirmando diferenças, reafirmando descrenças e infirmando desavenças; tudo que bem os une e reúne.

Possidônio Couto, levantando primeira questão de ordem, repeliu a desordem no Congresso Nacional: – “Como pode ser escolhido um cara homofóbico e racista como esse Deputado Marco Feliciano, do PSC de São Paulo, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias? É o fim da picada!”.

Excelsino Paquequer, sentindo-se inserido em própria minoria, enquanto dissidente das ternas relações homoafetivas, viu no Feliciano um início de simpatia: – “Que fez esse homem para merecer suas babas de hidrofobia?”.

– “Ele disse que ‘a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição’. Disse também que no continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, AIDS, fome…, e até os negros foram amaldiçoados por Noé”. – Respondeu quase louco Possidônio Couto.

“Ah entendi” – Sorriu Paquequer, como descrente e pouco crente de qualquer fé. “Isso é coisa de religião, de gente que lê a Bíblia e não tem imaginação crítica. Não foi Noé, cheio de cana, que amaldiçoou um dos filhos, o Cam, e rogou praga ao seu neto, filho de Cam e de sua descendência?”

– “E por acaso os africanos são descendentes de Cam e de Noé?” – Blefou Balaústre Cupertino – “É por isso e outras que eu não acredito nesta arca para caber tanto bicho! Nem também a humanidade descender dos três filhos de Noé! Quanto a pai amaldiçoar um filho e privilegiar outro, isso existe, e a Bíblia é cheia desses exemplos. Que falem por si o banimento de Ismael, as brigas de Esaú e Jacó, e a parábola do filho pródigo, só para citar três exemplos. Mais sábia foi a lei dos homens em não distinguir filiação. Pela lei brasileira, não há filho natural, legítimo, ilegítimo ou adulterino. Todos herdam igualmente, diz a lei, que vale até para aquele filho descoberto via DNA”.

– “É verdade! Eu mesmo tenho um amigo que paga pensão a um filho que lhe chegou, via DNA, e ele nem se lembra dessa mãe, nem como isso aconteceu!” – Gritou Paquequer conclusivo.

– “O problema é o DNA, desse sujeito, o Deputado Feliciano! Um homem desse deveria ser cassado como Deputado” – Gritava Couto, já quase rouco.

– “Não pode! Isso é golpismo, Possidônio!” – Protestava Excelsino Paquequer. “Você que fala tanto em liberdade, e culpa o regime militar por grande arbítrio, é mais arbitrário que a linha dura daquele tempo. Se você pudesse reprimir quem lhe desagrada, sua intolerância daria inveja a Hitler e Stalin! Nada melhor para reconhecer o violento enrustido, do que um comportamento intolerante como o seu! Você tem que respeitar a democracia!”

– “É, Possidônio!” – Confirmou moderadamente Balaústre Cupertino. – “A democracia consiste no melhor regime para convivência dos diferentes. Este Deputado Feliciano não está ali por acaso. Ele foi eleito e está representando o seu eleitorado, gostemos ou não! Você acha que um protesto organizado por descontentes deve ser capaz de mudar a regra? Onde está a coerência para assegurar a voz e a vontade de todos, inclusive da minoria?”.

– “Não! Não é assim! Este homem é homofóbico, é racista! A constituição não permite que ninguém seja racista nem tenha rejeição às relações homoafetivas! Precisamos alargar o protesto, até para submeter o Congresso ao decidido pelo judiciário!” – Gritava Possidônio quase um demônio possesso de tanta raiva.

– “É por isso que eu não creio na sua democracia! Vocês não querem democracia” – Voltava Paquequer, saudoso do regime militar, que amainava tais discussões com um pito silenciador. – “Vocês só conseguem produzir debaixo de vara, e ainda vêm falar de ‘Comissão de Verdade’. Que verdade, a verdade verdadeira, ou a sua? Aquele que não respeita o pensamento divergente do outro pode falar em verdade? Vocês fariam pior em maldade e perseguição se lhes fosse dado tal poder”.

– “É verdade!” – Contemporizou Cupertino. – “Eu tenho este mesmo pensamento quando se pensa em ‘Comissão de Verdade’, querendo passar a limpo o que se passou e o que não se passou. Daquele tempo eu lembro que muita burrice aconteceu. Eu mesmo fui acusado de ser comunista só porque me alinhava na esquerda. Mas, se isso me deu algum aperreio, logo, logo a burrice foi desfeita, tanto que nunca tive dificuldade nos cargos que exerci. E olhe que foram muitos, praticamente em todos os governos dos milicos, mesmo conservando meu pensamento democrático e social de esquerdista. Cheguei até a bater papo sobre isso com um general presidente. Com bons modos, é claro! De forma que não sofri qualquer perseguição. Mas houve gente que sofreu. Isso todo mundo sabe. Só não vou dizer que mereceu. Mas que fez por onde, alguma coisa fez. Cutucou o cão com vara curta, estava na hora errada, no lugar errado, quis bancar o valentão, foi mui romântico e pouco realista, ou foi perseguido mesmo, porque o homem mesquinho sabe usar estes momentos em que o medo estimula a covardia,… e assim, melhor talvez seja não lembrar!”.

– “Não lembrar o que, Cupertino! Esse povo estava lutando pela democracia”! – Gritava apoplético e já rouco Possidônio Couto.

– “E há muita gente que só tomou uns ‘puxavantes de orelha’ e hoje recebe uma boa grana, melhor do que o soldo que suei para conseguir, trabalhando para manter a ordem, combatendo o terrorismo subversivo e depurando a democracia”. – Rebatia Paquequer.

– “Aquilo que você chama de subversivo era gente, e gente patriota! E mais; ‘puxavante de orelha’ é tortura! E,… ‘tortura nunca mais’! Daí o porquê de precisarmos descobrir quem torturou. E um deputado como esse Marco Feliciano, na presidência da Comissão de Direitos Humanos irá torpedear qualquer avanço neste campo!”.

Neste momento, os dois velhinhos, Excelsino Paquequer e Possidônio Couto, se fuzilavam mutuamente, um querendo esmurrar o outro, enquanto sociedade dividida pelas rusgas que já deviam estar saneadas.

– “Eu acho graça da revolta de vocês, sem querer sepultar o passado!” – Disse Cupertino sorridente e contundente, mas ferino: -“Tanta briga por uma comissão tola e sem importância, como essa de Direitos Humanos. Eu me incomodo pouco com a nomeação desse infeliz Feliciano. Por acaso não é bem pior a indicação de José Genoino e João Paulo Cunha, dois mensaleiros condenados, justamente para a CCJ, a Comissão de Constituição Justiça e Cidadania, a mais importante da Câmara de Deputados?”.

E como cobras e lagartos saltavam da boca dos já quase contendores, sem que houvesse um arremate convincente, Balaústre Cupertino finalizou: – “Vamos pra casa, meus amigos! O sol já vem raiando”.

E os nossos heróis se recolheram de volta ao próprio reino, onde iriam brigar com suas mulheres, encrencar com os filhos, e sorrir para os netos e bisnetos.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários