Diálogo madrugador.

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Três amigos se encontraram no Calçadão da Beira-Mar às 4 horas da matina, para o exercício diário, antes do nascer do sol.

Nossos três heróis se rivalizam na pontualidade do encontro, retirados do leito pela emergência física ditada por toda próstata distendida e pouco eficiente, que desperta e insonia, senão os velhos, pelo menos os aposentados e pouco úteis, com certeza.

Balaústre Cupertino, Excelsino Paquequer e Possidônio Couto, os três andarilhos da madrugada, são sergipanos por adoção.

Aqui chegaram, um por compadrio político, outro como professor colaborador da Universidade Federal, e o terceiro por transferência funcional de terras longínquas, todos numa perspectiva provisória.

Cupertino ficaria enquanto seu Deputado padrinho se mantivesse no cargo e

Balaústre, Excelsino e Possidônio em inspiração de velho filme, por muar vagar.

posição, Paquequer, no exercício de seu estágio funcional e Possidônio, viera apenas como professor horista, em contrato provisório e emergencial, da nossa Universidade federal.

Ocorre que aquilo que seria transitório adquiriu permanência.

Aracaju tem esta capacidade de enamorar quem nos visita e por aqui fica por algum tempo.

Há uma espécie de acolhimento amoroso, uma receptividade risonha, um afago ditoso que felicita tanto o visitante, que num piscar d’olhos, ei-lo integrado à terra, como se fora um nativo, ou um seu ser votivo em profundo amor telúrico.

Assim aconteceu com Balaústre Cupertino, um alourado ítalo-andino, que aqui chegou com fama de especialista em folclore e miscigenação cultural, para repensar as políticas públicas, no tocante às ações afirmativas dos segmentos mais frágeis da sociedade, em particular as minorias indígenas, quilombolas e afrodescendentes.  Repensar que jamais restou concluso, mas que se fez adimplemento, ora como especialista em turismo, em educação, em esporte e lazer, e até em saúde, afinal como espécie de mobiliário palaciano se fez serventia a todos os órgãos estatais, sempre requisitado e jamais esquecido por vasta ligação de amizades, e, sobretudo, por sempre exibir real serventia, moderação e prestabilidade.

Já Possidônio Couto, atraiu-o a reforma curricular da Universidade Federal feita às pressas, criando o ócio em algumas áreas, por redução de turmas e disciplinas, e grande falta de mestres, com necessidade de contratação urgente, sem prova, exame ou qualquer avaliação, valendo uma entrevista ou indicação, onde mais valia a militância de oposição ao regime militar vigente, já exausto e em decomposição, o que lhe foi de grande valor, afinal virou docente, sem concorrer nem disputar, nem se exaurir de tanto estudar.

Exaurimento que pegou Excelsino Paquequer, servindo na guarnição federal, como instrutor de ordem unida, especialista em logística e comunicações, indivíduo zeloso de sua formação disciplinar, rigoroso cumpridor do regimento e da ordem, que se apaixonara por uma das nossas banhistas da Praia da Costa, e por aqui ficara depois da reforma com brio e louvor.

Três figuras distintas, três formações diferentes, três pensamentos divergentes, todos torcedores do flamengo, eis aí o cerne de admiração e mútua atração, afinal as cores e a camisa exibidos na véspera da partida ou por subsequência de sua vitória, irmana tanto os doutos, quanto os loucos e moucos. E assim ei-los amigos e andarilhos caminheiros da madrugada.

Mas, se os três heróis são demasiado loucos pelo mengão, divergem no mais, às vezes até se ofendendo, sobretudo no comentário político.

O assunto daquele dia fora levantado pelo adufiano Possidônio Couto, enojado com a eleição de Renan Calheiros, e inserido num movimento para reunir um abaixo assinado que juntasse um mínimo de 1,36 milhão de assinaturas pedindo o seu afastamento da Presidência do Senado, mediante repulsa geral e irrestrita, via internet.

“Vocês viram o movimento contra Renan?” – Bradou Posidônio em misto de furor e alegria. – “Bastou um dia na internet e o número de post já atingiu bem acima de 1,6 milhão de assinaturas para botar o Calheiros para fora! Logo-logo o povo irá às ruas para derrubá-lo!”

Balaústre Cupertino, que sempre primara pelas boas relações políticas, glosou uma explicação conciliatória e menos repulsiva: – “Mas o Senador Renan Calheiros foi eleito Presidente do Senado da República, democraticamente e por expressiva maioria, 56 votos, contra 18 do Sr. Pedro Taques, três ausências, dois votos nulos, dados a quem ninguém o sabe, e dois votos em branco. Como agora querer dizer que isso não tem valor, 69,1 % dos votos, se é a regra que está sendo bem cumprida?”

“Não! Não é bem assim! Se houver um amplo movimento via imprensa e em protesto da Internet ele vai ser derrubado! Ele é um ‘ficha suja’, todo mundo o sabe! Um réu confesso, inclusive, porque já renunciou para não perder o mandato! Não pode sentar ali! Já estamos com 1,7 milhão de posts. E cada hora chega mais.” – Grita Possidônio Couto, semilouco.

“1, 8 milhão de votos não elege ninguém!” – Despreza Excelsino Paquequer. – “Só mais de oito milhões foram os votos nulos, e outro tanto de brancos, sem falar a abstenção que foi maior, e nem por isso alguém deixou de ser eleito. Todo mundo sabe que o brasileiro não sabe votar! Não era essa a democracia que vocês queriam? Aguentem!”

“Não! ‘O povo unido jamais será vencido!’” – Grita o possesso Possidônio, recitando o velho mantra quelônio. – “Quando a massa sair às ruas, vamos fazer um novo impeachment!”

“Grande tolice, golpear a democracia!” – Rebate Cupertino com riso preciso, mas ladino. – “A democracia é assim. Não é um regime de puros e santos. É o regime possível. É a escolha do povo. É preciso respeitar a decisão eleitoral. Se os eleitos não nos satisfazem, é preciso que seja respeitado o resultado das urnas. Renan, o Calheiros, gostemos ou não, foi eleito com expressiva maioria desde o seu rincão, ao senado cidadão”.

Se o debate já prenunciava um perfume perigoso, o mau cheiro do cenário em lembranças de Pré-Caju na Avenida Beira-Mar despertara o cheiro de povo, tanto no olfato Excelsino, como em Cupertino e Possidônio. E o povo, por antigo e definido tanino, exala ruim em descarga de amônio.

Porque o mal, como a ideologia e outros desatinos, por desague natural, tem os seus gostos e desvios.

Paquequer viu logo na fedentina haurida, o cheiro do povo, enquanto multidão desembestada, de iletrados e mal educados, cujo voto nulifica qualquer decisão.

“Este manifesto quer derrubar o Calheiros numa digitada via internet, com alguma razão e pouca racionalidade, entendendo que nossa legislação e vontade devem ser gestadas na irresponsável manifestação, via post, esta modernidade que desperta e faz brotar, quão vazia é a humanidade em maioria. E a humanidade fede. E como fede! Fede tanto que não consegue conviver com os seus excrementos, sendo preciso organizar cloacas e depuradores, para não empestear os mananciais hídricos que a natureza coloca para fruição de todos, inclusive, ou sobretudo, do homem, este animal, imagem de Deus, que deveria bem saber discernir e conduzir o seu caminhar”.

O envelhecido belicoso Paquequer via o manifesto via internet, sem lei e sem regra, como um velho apelo golpista, mas estava azedo com o Pré-caju e seu rescaldo entranhado nas calçadas da Avenida Beira Mar, que à falta de chuva para a ablução das vias, exibia o negror desgracioso da popular alegria não recolhida a contento nos sanitários químicos.

E continuava Paquequer tão bilioso quão canino ofendido. – “O homem, sem ordem e sem regra, quando não defeca na praça, faz xixi na rua, como os habitantes da Beira Mar bem o sabem, após os festejos do Pré-Caju. Por acaso é diferente este amplo opinar, via post? Não há neste 1,7 milhão de protesto o rastro deletério e a pegada do mesmo perfume? Não seria uma melhor enquete, retirar deste cenário esta festa suja e mal cheirosa”.

“Que nada! Isso é um pensamento elitista! O Pré-Caju tem que ficar nesta área nobre. Precisa ficar aqui, pois o morador daqui, mesmo pagando um elevado IPTU, não é dono da rua e precisa se humanizar sentindo o cheiro do povo sofrido, por verdadeiro. O povão é o verdadeiro dono da avenida. ‘A praça é do povo, como o céu é do condor’, já dizia Alves, o Castro!” – Era o Posidônio em crise de pandemônio contra qualquer posse ou patrimônio.

“Não é assim!” – Contemporizava Cupertino. –“Rastro de urina não humaniza ninguém! Se a rua restou fedida, é porque a humanidade sem educação e ordem empesteia o seu próprio viver. Daí os rios virando esgotos e a contaminação dos recursos da natureza. O homem descontrolado destrói o seu ambiente. E o Pré-Caju mostra isso por ausência de regra e de respeito ao outro. E a culpa não é dos políticos, como pensa Possidônio, nem do povo deseducado como acusa Paquequer. A humanidade, aí incluído todos nós, bons madrugadores e dedicados pensadores comportamentais, a humanidade fede. Fede tanto que não assume o seu cheiro”.

“Quanto à Democracia, ela é assim, mesmo comparada com o odor urinário por rastro de Pré-Caju. É um notável exemplo da realidade humana, pouco humanizada ainda. Neste Particular, Renan, o Calheiros, pode ser este rastro decisório a que temos de nos submeter, como fieis defensores da regra de escolha eleitoral, que está carecendo de aperfeiçoamento”.

E entre amuos de Possidônio e Excelsino, prossegue Cupertino com o seu pensar em moderado tino: -“Terrível, é pensar diferente! Querer golpear a maioria, pensando-a menor que os post colhidos na internet, ou da massa que urinou na Avenida sem se envergonhar, ou para escandalizar somente! – E conclui decidido. – “Eu não pretendo assinar o protesto!”

– “Eu também não!” – Endossou Excelsino Paquequer.

– “Eu já assinei!” – Exultou o professor Posidônio Couto.

E a caminhada acabara porque o sol nascente já fustigava os três andarilhos, diletantes e errantes.

A luz solar bania aquelas figuras passadas, como se fossem vampiros ou almas penadas, fruto da aposentação e da falta de serventia.

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Observação: A matéria acima é puramente ficcional. Uma tentativa de sorrir com o besteirol local e nacional. Não me inspirei em ninguém. Não conheço personagens assim na vida real, muito menos que passeiem zumbis na madrugada escura, em papo tão estimulante.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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