Dr. Antônio Cabral Machado

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Recebo de Itabuna-Bahia a triste notícia: morreu aos 90 anos de idade o meu único tio por parte de pai, o médico Dr. Antônio Cabral Machado, que clinicara por longo tempo naquela região cacaueira.

 

Filho do também médico Dr. Odilon Ferreira Machado e da Professora Maria Evangelina Cabral Machado, Dona Nina, fundadora do Asilo São José na cidade de Capela. Antônio era o segundo e último filho do casal.

 

Procurando alguns dados para falar deste tio, não encontrei quase nada, sobretudo nos livros de meu pai, Manoel Cabral Machado, muito farto em discorrer sobre pessoas e fatos. O problema é que Cabral preferia discorrer sobre os mortos, sobressaindo-lhes o rastro sobre a terra, e assim escrevia pouco sobre os vivos.

 

Quanto às minhas recordações, só tenho excelentes lembranças deste tio que era também um bom padrinho. Um padrinho bem diferente daqueles dos meus irmãos, que me invejavam também por isso, porquanto nunca me faltava o afago e o carinho no aniversário e nos festejos de natal, com o presente jamais esquecido.

 

Ora, toda criança gosta de receber presentes, e eu não era diferente, sobretudo porque lá em casa fôramos criados sem muitos brinquedos.

Antônio Cabral Machado, médico sergipano radicado em Itabuna-BA, faleceu quart-feira 22 de julho aos 90 anos de idade. 

 

Antônio Cabral Machado, recém formado médico, foi trabalhar em Itabuna, acompanhando o colega Lessa, onde passou a clinicar na especialidade de ginecologia e obstetrícia, angariando grande clientela e excelente conceito na região cacaueira baiana.

 

Como os seus circunstantes itabunenses, Antônio também desenvolveu atividade na produção cacaueira e na pecuária, com atuação progressista naquela região.

 

Sergipano da Capela, desde o tempo de acadêmico em medicina na Bahia e no Rio de Janeiro, Antônio se ligou em amizades e companheirismo com a família Lessa de Itabuna, mais particularmente com a Sra. Zezé Lessa e seu esposo, ambos falecidos, e dos filhos destes, a quem adotou como um verdadeiro pai, amigo e conselheiro.

 

Na maturidade da vida, Antônio contraiu núpcias com a Sra. Ediméa Oliveira Cabral Machado que lhe alegrou e alongou os últimos anos de vida. O casal viveu mais de vinte anos de convivência harmoniosa.

 

Falando agora de mim e das minhas harmoniosas lembranças de meu tio Tonho, quero contar um fato tolo, que jamais pretenderei esquecer. É uma lembrança boba de criança. Ela diz respeito à minha primeira bicicleta.

 

Eu, desde a tenra infância, tinha loucura para ter uma bicicleta. Antes eu tivera um velocípede dado por alguém, possivelmente por minha avó Nina que era minha madrinha e tinha muita afinidade com estes desejos infantis.

 

Direi, porém, esquecendo e adiando um pouco a história da primeira bicicleta, que é necessário e importante neste tema, falar antes de minha avó Nina, a mãe de Antônio, falecida em 1957, quando eu era garoto com nove anos de idade.

 

Vovó Nina vive em mim como a minha terna contadora de histórias, de todos nós lá de casa. Histórias de príncipes e princesas, de fadas madrinhas e viagens, presepadas de sacis e de Pedro Malazarte, sustos de boitatá, do curupira e da mula sem cabeça, contadas e conhecidas pelo imaginário popular.

 

Histórias outras não tanto conhecidas como a de João e Maria, o rabo de lagartixa e a velha comedora de menino, cujo término é abominado pelo atual modismo do politicamente correto, porque o conto terminava com a bruxa ardendo na fogueira, gritando: –“Água, meu netinho!”, enquanto João e Maria aumentavam a chama do fogo, jogando mais combustível: -“Azeite, senhora velha!”

 

E outras histórias, desconhecidas e mais corretas, como a das cabacinhas mágicas a cantarem em dueto entre graves e falsetes. Canto que ressoa em mim longínquo, ouvindo a voz fraquinha de minha avó, horas em trinados de soprano: – “Pega minam! Pega minam! Pega minam! Uh! Ah!”, e horas em tom mais grave por mais baixo e gutural: – “Pega mim! Pega mim! Pega mim!”, e que nós meninos, seus ouvintes, repetíamos em sorrisos assustados.

 

Histórias hilariantes como a do castigo do macaco comedor de bolo, fisgado por um boneco de cera de abelha. Histórias outras mais picantes, como a da cidade Lolaia, se rivalizando em preferência pela vista da cidade Lolaia. Histórias que repeti para meus filhos e que pretendo passá-las para os meus netos.

 

Como eu disse, minha avó Nina permanece em mim como a minha suave contadora de histórias.

Pegando agora o mote da contadora de histórias, estou a lembrar de Isak Dinesen (1885-1963), pseudônimo da Baronesa Karen Blixen-Finecke, escritora norueguesa que assim se definiu, segundo Hannah Arendt, em “Homens em tempos sombrios”:“Moi, je suis une conteuse, et rien qu’une conteuse.”, (Eu, eu sou uma contadora de histórias, e nada mais). Igual a minha avó Nina para mim. E como eu desejaria ser assim; um contador de histórias!

O filme “Entre dois amores” trata de um drama real vivido na África pela Baronesa Karen Blixen, que merece ser visto, mesmo porque muito comum nos desencontros da vida.

 

Mas o mote de Isak Dinesen e o parêntese aberto por necessário, aqui não está colocado por divagação ou acaso, só por ser ela “une conteuse”. O assunto também se deve ao fato de Karen Blixen-Finecke ter vivido um triângulo amoroso, descrito no seu romance autobiográfico “Ma ferme africaine” (Minha fazenda africana), ou “Out of África” (Fora da África), que se encaixa também neste artigo e na vida de meu tio.

 

Para quem não lembra, a história de “Out of África” resultou no filme homônimo, que no Brasil foi traduzido por “Entre dois amores” (1985), dirigido por Sydney Pollack, e tem música belíssima de John Barry; filme que recomendo e pode ser encontrado na Super Vídeo Locadora de Aninha Valença, na Rua Guilhermino Resende, que tem todo filme que se possa imaginar.

 

No filme, Karen Blixen é vivida por Meryl Streep, lindíssima, Klaus Maria Brandauer é o Barão Bror Von Blixen-Finecke ,o marido de quem se divorciaria, e o branquelo Robert Redford é Dennis Finch-Hatton, o amor acontecido sem traumas. Algo que em ficção ou realidade comentava-se também sobre o meu tio agora falecido, que amara em terras grapiúnas uma mulher como Finch-Hatton.

 

Verdade ou conjectura, isso é coisa de quarenta ou cinqüenta anos passados. Hoje todos estão mortos e devemos parar por aqui, mesmo porque este assunto nunca foi bem contado, nem confirmado, e estou a afastar-me da minha primeira bicicleta, urgindo fechar o parêntese por necessário.

 

Quando minha avó Nina faleceu, deixou depositada numa conta em prazo fixo no Banco Mercantil Sergipense, uma quantia para que eu comprasse a minha bicicleta. Chegado o momento em que a idade e o tamanho das pernas permitiram, eu quis resgatar o montante do dinheiro para comprá-la.

Naquele tempo, uma bicicleta Monark custava sete contos de réis, ou sete mil cruzeiros, e eu só tinha três contos, carcomidos pela inflação.

 

Ninguém na minha casa quis completar o dinheiro da compra da bicicleta. Se a renda lá de casa nunca fora pequena, pensar em gastar qualquer tostão era monumental heresia.

Foi aí que alguém insinuou: – “Por que não pede ao seu tio Tonho!”

 

Como achei uma boa idéia, logo escrevi para este tio e padrinho, só para lhe dar esta “facada”.

E a resposta veio sem demora; tio Tonho me enviou o restante do dinheiro, os quatro mil reis que faltavam para a compra da minha bicicleta, que escolhi vermelha e foi adquirida na loja “A Social”, na Rua São Cristóvão, aqui em Aracaju.

 

Fui comprá-la com o dinheiro enfiado no bolso, acompanhado do primo Luís Tarcísio Fontes Ferreira, que entendia mais de bicicleta do que nós todos lá em casa.

 

Esta bicicleta dada por meu tio Tonho fora o grande sonho da minha meninice. E hoje, relembrando esta tola lembrança, sinto o sorriso de meu tio me acompanhando, com sua sensibilidade e ternura, imorredouras em minha vida.

 

Muitas coisas eu teria a lembrar da alma benfazeja de meu tio Tonho, de encontros vários, embora morássemos distantes.

 

Finalizo, dedicando estas palavras à tia Ediméa Oliveira Cabral Machado, a mulher que foi o derradeiro sorriso na vida de meu falecido tio, Antônio Cabral Machado, a quem abraço tentando confortá-la neste momento de grande tristeza.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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