É difícil!

0

Tenho visto muita opinião falando do excesso de candidatos utilizando nomes e gestos bizarros para conquistar o voto do eleitor. Há realmente um excedente de candidaturas inexpressivas à disposição do eleitor de maneira que o programa eleitoral da TV e do rádio, longe de ser esclarecedor num cenário de debate e de propostas, virou um espetáculo circense, por engraçado e não levado a sério.

 

Infelizmente, o que deveria ser encarado como lúdico, risível e até compreensível, tem suscitado esgares de desprezo sói compatíveis com um excesso de preciosismo e pudicismo, tão presente nos que se acham detentores do conhecimento do que seja bom para o ignaro, o comum, ou o povão imbecilizado, que hoje não pode ser chamado assim, por não ser politicamente correto.

 

Na verdade tal discussão retorna ao tema sempre presente da legitimidade, da democracia, da república platônica de reis filósofos, da decantada polis grega de Péricles e Aristóteles, da tirania consentida de Pisístrato, do conflito entre a liberdade e a segurança frente à autoridade, o comando e a administração, e o discurso dito no lar, no coreto ou no jardim, e no eterno desafio das relações inter-pessoais, de autoridade e de comando.

 

Vivemos ainda hoje os reflexos de um período autoritário. Regime, diga-se por necessário, que hoje é repelido por gregos, troianos, muitos pelegos de tiranos e até pelos seus antigos baba-ovos suseranos.

 

O fato é que estamos a viver um raro momento de liberdade e democracia. E o espetáculo começa a não nos agradar.

 

O que fazer? Será que em outros povos, outros países, o exercício da cidadania enseja melhor seriedade e capacidade dos políticos?

 

Estamos em pleno regime de liberdades. A constituição “cidadã” já não é mais uma mocinha, fez vinte anos e já foi violada dezenas vezes. Neste particular o instrumento de violação, a chamada PEC, não é violenta, mas é virulenta, porque insere a insegurança sucessiva e inconseqüente, além de despertar aventuras totalitárias e populistas, afinal como dizia Getúlio Vargas, o homem que mais tempo governou esta República: “a constituição como as mulheres só se fertilizam quando são violadas”, ou violentadas, só para atender os mais adeptos aos esforços não consentidos.

 

E é neste contexto de maus consentimentos e assentimentos que eu contemplo este nojo externado contra os nossos candidatos exóticos e grotescos na televisão. E eu relembro que estas aventuras ensejadas por iluminados, pudicos e detentores do saber escarrando desprezos contra o vulgo, não é compatível com a democracia. Porque o povo não lhe é diferente assim. Se o fosse, haveria a rejeição do histriônico e do demagogo no nascedouro das candidaturas e dos partidos. E não é bem assim o que queremos afinal ninguém deseja a criação de barreiras, ou de guetos ensejando limites à liberdade.

 

Se quisermos estabelecer tais limites, podemos cair reféns de um breviário de Calvino, ou de um desatino atrabiliário, de um Roberspierre ou de um Torquemada, ou de um outro sanguinário qualquer, como Stalin o comuno-igualitário ou Al Capone e seus capangas e todo o seu imenso bestiário.

 

A democracia pressupõe suplantar tal bestiário com regras permanentes e imutáveis. E o império da lei precisa coibir os excessos, sobretudo porque não estamos mais vivendo em libertária diarréia, sucedânea do regime autoritário que passou.

 

Chega de pensar em utopias irrealizáveis, de comilanças gratuitas, em sonhos de noites de verão, sem custo, sem regra e sem suor! Chega de dizer que é proibido proibir; que tudo é relativo; que o nada tem que virar o todo, sobretudo quando se troca de lado, ou de muitos lados, nivelando excessos de arestas e de vértices!

 

São imutáveis as regras da geometria da política. Elas não podem oscilar ao sabor das grandezas e miudezas dos homens, que matam e morrem pelos gozos do sexo, do ouro, e do mando; em todos os mundos e para todos os tempos.

 

E a lei tem que defender e limitar o homem em todos os tempos, sobretudo agora em que o homem sabe muito bem que Deus quer que ele resolva os seus próprios dramas, aí inseridos a política, o poder do mandar e do obedecer, sem traumas e padecimentos.

 

Mas, como fazê-lo? Eis a grande dúvida. Como fazê-lo sem pronunciar os discursos vazios e sem aparecer no desvario dos que não se contemplam em idiotia na TV?

 

Como coibir também, nesta mesma idiotia, que altos funcionários, pagos regiamente para gerir e vigiar o pleito banquem, eles também, os falastrões vazios na TV? Logo estes que deveriam somente se pronunciar no feito e no fato, sem teimar em se achar notícia? E uma noticia que só os comprova mais incompetentes e mais inoperantes, ao vivo, em som e em cores? Exibindo seus erros em meio a tantos horrores de dolo, de culpa, ou de desleixos, ou ainda, de perdas de prazos? Ou ninguém sabe o quanto os homens de baixa cota são capazes?

 

Sim. Porque em meio a tal miudez, como fruto do atraso e do tolo, muito pior do que um candidato grotesco na TV é o canhestro fiscal da lei dando uma de Narciso triórquido na telinha, assumindo agora a demagogia de Boitatá, de Rolla e de Mandraque que não se candidataram nesta eleição.

 

Mas, como conceber a lei de modo a impedir que o comediante, o piadista e o galhofeiro possam se exibir sem fantasias como o trágico ou o embusteiro?

É difícil! É muito difícil! Daí porque a democracia é ainda o melhor governo.

Deixássemos o poder na mão do iluminado, do santo, do puro, do imperecível doutor, ou do incorruptível cônsul protetor, estaríamos lascados; tragicamente sodomizados.

 

Assim, deixemos de lado os Robin, os Hulk, e outros tantos cacarecos. Eles são o reflexo do nosso povo piadista e gozador, que quer sambar, dançar, pular e torcer, e até se mascarar no carnaval da eleição.

 

E nesta festa de todos, se o cidadão responsável assim o desejar, não será tolhido em sua escolha. O problema é ter uma opção de boa escolha. Mas, isso é uma outra anedota, uma velha estória no caminho tortuoso da nossa história.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários