E sem máscara!

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O ano era 1970.

Eu era concludente do Curso de Química Industrial da antiga Escola Superior de Química de Sergipe, aquele tempo pertencente a Universidade Federal de Sergipe.

Da Universidade, conheço muitas histórias, hoje convenientemente esquecidas, sobretudo os descaminhos de 1968, quando os de meu tempo se enojavam com o “famigerado acordo MEC-USAID”, e, sobretudo, com as Universidades, tipo “Fundação”, que haviam adotado o “abominável” Sistema de Créditos, inspirado na Universidade Americana, que chegava entre nós, “acrítica” e “bitolada”, garganta a força, pela Ditadura Militar.

Da Ditadura, sabe-se que em terras Serigy não vingou um cadáver para chamar de nosso.

Sobraram alguns cocorotes, é o que se fala em muitos choros hauridos em comissões e gratificações recebidas à custa da mãe pátria infeliz.

Infelicidades à parte, direi que àquele tempo, a Ditadura, por querer pensar um Brasil grande e viril, criara uma disciplina obrigatória, ó que terrível! de Estudo de Problemas Brasileiros.

Desnecessário dizer que a molecada em geral, detestava a matéria, muitos entendendo-a como uma “lavagem cerebral” imposta pelos “milicos”, espécie de Educação Moral e Cívica, de tempos outros, em que o civismo e a moralidade nunca foram necessários.

Em semelhantes desapreços, “Milico” era uma palavra aplicada aos militares do Exército, assim como “Samango” o era para os componentes da Polícia Militar de Sergipe àquele tempo.

Naquele tempo, bem mais, e hoje um pouco ainda, o modismo bem falante nosso, enquanto universitários, era “não ser alienado”, afinal por detrás do muro de Berlin, e nos canaviais da ilha de Fidel Castro vigia o verdadeiro paraíso popular e democrático que o Brasil precisava ser.

E ai de quem pensasse divergente!

Ainda hoje os que sobraram, repetem sua cantilena, enaltecendo aqueles caídos pecos sem madurar, nem fértil restar.

Ó, mas isso ninguém pode dizer! É preciso ter parcimônia com o erro, afinal todos erramos mais do que acertamos!

Fosse diferente, a Matemática seria a matéria dos formosos; e dos preguiçosos também!

Isso num tempo em que se dizia, em poucas academias fisiculturistas; “Só com Educação Física: não se aprende Física nem Educação!”

Mas, assim estou a dizer bobagem.

Cada um estuda o que quer, mesmo porque deve valer o teorema: “a cada um de acordo com a sua capacidade”, contanto que eu não tenha de entregar minha próstata, em nome da igualdade de oportunidades, ao bisturi do carniceiro.

Falo de igualdade de oportunidades, porque este era o discurso da minha juventude. Um sonho pueril, quando a micção era fácil, a próstata nada impedia e muitos só queriam vencer na vida sem esforço, nem capacitação, como acontece ainda, sem provas, e por disputa de melhor “peixada”.

Não sei o porque deste nome “peixada”.

Podia ser uma buchada ou maxixada, mas aí sobraria dúvida, se com xis ou ch, em confronto de ocasião…

Mas, o que é que há? Estarei querendo esculhambar? Dizendo que todos eram assim? Não! Só a grande e infinita maioria!

Para ver a exceção, é só perquirir os Diários Oficiais e os demais anais, estaduais e municipais, e sobretudo o Federal, a partir da Constituição Cidadã, que numa penada só, tornou estáveis, alforriando-os todos os que nunca fizeram um certame público na vida. Aqueles que ingressaram no serviço público; “na peixada”; no compadrio, não interessa de quem.

Mas, por que falar nisso, se o povo gosta assim?

Só para consignar!

Dito isso, volto à Disciplina “Estudo dos Problemas Brasileiros”, que nos idos de 1970 foi ministrada por um mestre que me ficou na memória em doçura, excelente cultura e paciente compreensão: Professor Antônio Xavier de Assis, então Desembargador Estadual.

Suas aulas eram um exercício lúcido do debate; um desafio aos jovens, um refrigério inteligente e arguto, num tempo de muitas insatisfações politico-ideológicas, que o mestre conseguia desviar, sem desmerecer nem partilhar, preferindo instigar a criatividade daqueles futuros Técnicos e Engenheiros, para discutir a política dos grandes desafios do Estado e da Nação, seus problemas e necessidades permanentes.

Ponte Propriá-Colégio no dia da sua inauguração em 1970 – Jornal de Alagoas.

Sergipe, naqueles anos e em outros que viriam depois, discutia a questão dos sais evaporitos em jazigo perpétuo inexplorado, o porto se estuarino ou offshore, alguns brigando para ver os navios singrando o Rio Sergipe, acenando Aracaju, a BR101 carente de asfalto, e a Ponte Propriá-Colégio, hoje, cinquenta anos passados, sendo inaugurada a duplicação após uma longa espera, em tantos Presidentes indiferentes: FHC, Lula e Dilma, et caterva.

O assunto me vem a lembrança, porque eu fizera uma tosca monografia sobre a Ponte Propriá-Colégio, sua concepção e estrutura, quase uma novidade, enquanto magnífica obra de ferro e cimento em nossa terra, tratando também daquilo que a modernidade traria: a decadência de Propriá, enquanto cidade, virando uma passagem de visita rápida, quase uma cidade fantasma, a merecer preocupações nunca previstas.

Este estudo, repito tosco e despretensioso, agradou sobremodo ao Professor Assis, que me deu uma nota excelente.

Uma lembrança que jamais esqueci, junto com o seu sorriso, compreensivo e estimulador.

Voltando ao tempo, os que se lembram ainda, sabem que o transporte rodoviário de Sergipe para o restante do nordeste se fazia preferentemente via balsa em Neópolis-Penedo.

A ponte Propriá-Colégio esvaziaria este fluxo de balsa, Penedo passando a exibir uma imponência menos festejada por passantes.

Concebida para ser rodoferroviária, em duas pistas, a ponte permitiria também a navegabilidade pelo Baixo São Francisco.

O único problema existente, e que não o era então, era a necessidade de interrupção do tráfego rodoviário quando da passagem dos trens, já que sua largura não permitiria compatibilizar uma via férrea com a rodovia em via única.

Se o módulo elevatório da ponte foi erguido alguma vez, nestes cinquenta anos de vida, não o sei.

Já as locomotivas, todos sabemos que a Rede Ferroviária Federal Leste Brasileira, em cláusulas de país capenga, rareou-nos, deixando poucas lembranças.

Agora, cinquenta anos depois, vem o Presidente “genocida, homofóbico e catastrófico” inaugurar a duplicação da Ponte Propriá-Colégio, neste nosso “fim-de-mundo” que o sul-maravilha tanto despreza.

Em seu reforço, a crônica local sente-se incomodada, sobremodo.

O Mito não lhes é do agrado.

Que fazer?

Sempre foi assim, não é mesmo?

Para estes, bom seria que o Mito lhes carregasse a ponte nas costas, enquanto “catastrófico”, deixando-os à beira do Chico chupando mico.

Em tanta estupidez, vale até imprecar como Moisés no Deuteronômio 29,1-3, reclamando da ingratidão do seu povo: “Vós vistes tudo o que a vossos olhos o Senhor fez no Egito ao Faraó, a todos os seus servidores e a todo seu país: as grandiosas provas que os vossos olhos viram, os grandes sinais e prodígios. Até hoje , porém, o Senhor não vos deu um coração que entenda, olhos que vejam e ouvidos que ouçam. Por quarenta anos, vos conduzi através do deserto,… para reconhecerdes que eu, o Senhor, sou vosso Deus”.

Se nem os judeus errantes no deserto encontraram olhos para ver e ouvidos para escutar as realizações de seu Senhor, que dizer do Mito, que nem senhor o é?

E é um presidente apenas, a ser derrubado!

Voltando agora para mim, derribado por outro excesso de vontade, eu não irei ver o Mito na Ponte como gostaria.

Melhor ficar em casa contra a vontade.

Mas,… bem que eu gostaria. E sem máscara!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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