É tempo de mudanças

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Lisboa, 13 de julho de 2008


Caros amigos de Sergipe:


Sou um homem moderno, mas não posso admitir certas aberrações dentro  da minha própria casa. Imaginem os senhores que depois de anos e anos de dedicação, descubro que Sulamita tem um caso com Zenóbia, minha patroa sexagenária. Pôxa, Sulamita; logo com a Zenóbia?! Não dava pra 
ser com uma dessas estudantes de jornalismo?!

Ainda assim, generoso que sou, perdoei a minha secretária bilíngüe e boazuda. Zenóbia, sabe-se lá porque, ficou indignada e resolveu sair de casa. Vai morar com a irmã Zorilda em Cascais.

Mas o que parecia um alívio, tornou-se um verdadeiro pesadelo, pois para economizar uns trocados, achei de contratar uma dessas caminhonetes de aluguel, ao invés de uma firma especializada em mudanças. Uma sandice!

Zenóbia arrumou suas roupas em uma caixa de papelão, mas não reforçou a base, de modo que logo ao colocá-la no carro, o fundo se abriu deixando escapar calçolas e calofons de todos as cores e modelos. Uma festa para os meninos da rua.

Solidário, resolvi acompanhar a minha patroa sexagenária até a casa da minha cunhada à guisa de instalá-la em sua nova moradia. Outra sandice, meus amigos!

Como a caminhonete sacolejava muito, Zenóbia sentiu-se mal e somatizando a situação, acabou por proporcionar um verdadeiro festival de flatulências na boléia. Era petardo pra tudo o que lado. Eu me meto em cada uma!

Depois de gaseificar todo o Bacalhau à Gomes de Sá que havia ingerido no almoço, Zenóbia começou a sentir uma ânsia de vômito que culminou com uma explosão de batatas no banco do motorista. A viagem teve que ser interrompida, pois o odor era insuportável. Os rapazes ameaçaram entrar em greve, nos deixar ali na beira da estrada e ainda por cima, levar a bagagem zenobiana a título de indenização.

Usando de muita diplomacia, contornei a situação prometendo um bom dinheiro extra depois da volta a Lisboa. Por sorte encontramos um posto com lava a jato e prosseguimos com a aventura, digo, a mudança. Chegando a Cascais, quase fui trucidado por Zorilda que, de posse de um portentoso rolo de macarrão, me perseguiu pelas ruas centrais da cidade.

Refeito do susto e com Zenóbia instalada em suas novas acomodações, voltei com os carregadores para a minha humilde morada lisboeta. Lá chegando, os rapazes cobraram o tal dinheiro extra que eu havia prometido para sair da enrascada. Convidei-os a entrar e abri o jogo. Disse que estava duro e que o máximo que podia fazer era emprestar a Sulamita para que eles dessem uma voltinha. Não houve acordo, só mesmo com dinheiro vivo. Ó gente insensível!

Não vendo outra alternativa então, tomei uma atitude ecologicamente correta. Fui até os fundos da casa e, discretamente, soltei Flodualdo, o leopardo de estimação que crio em meu quintal com a autorização do Ibama português. Santo remédio, a correria foi tanta que os dois nunca mais apareceram por essas bandas. É por essas e outras que eu sou um amante da natureza.

Até semana que vem.

Um abraço do

Apolônio Lisboa.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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