Efeitos da Segunda Guerra Mundial na capital paraibana

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Daviana Granjeiro da Silva

Mestra em História/UFPB

Professora da SEE/PB

Comício no Palácio da Redenção em protesto contra os torpedeamentos ao litoral brasileiro. Retirada do Jornal A União, em coluna do dia 20 de ago. de 1942.

 

Os estudos sobre os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial no cotidiano do Brasil têm avançado bastante nos últimos anos, especialmente no que concerne ao Nordeste do país. Como é sabido, a localização geográfica dessa região era bastante estratégica e durante a efervescência do conflito muitos foram os ataques ao litoral pelas forças do Eixo, a exemplo dos navios Itagiba, Arara e Jacira, afundados no litoral baiano entre os dias 17 e 19 de agosto de 1942 pelo submarino alemão U-507.

Para além dos torpedeamentos aos navios brasileiros, os estudos apontam que ocorreram desdobramentos em virtude da guerra em todos os estados, seja em maior ou menor escala: racionamento de alimentos, alterações no campo da moda e do cinema, censura, espionagem, educação patriótica, impactos na economia e nas festividades culturais (como os enredos carnavalescos que aderiram ao tema da guerra), dentre outros, são exemplos dos efeitos causados pelo conflito bélico. Para João Pessoa, capital do estado da Paraíba, não foi diferente. Os anos de guerra geraram fortes impactos para a cidade, especialmente o ano de 1942, período em que o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com o Eixo, entrou oficialmente na guerra ao lado dos Aliados e fomentou forte campanha mobilizatória.

O artigo “Paraibanidade em favor da guerra no cotidiano de João Pessoa”, integrante da coletânea Nordeste do Brasil na II Guerra Mundial, aborda os desdobramentos causados à capital da Paraíba e discute como se deu a construção de um sentimento de paraibanidade, que foi essencial para o esforço de guerra e ocorreu através da imprensa oficial do estado, o jornal A União. Deste modo, o governo paraibano noticiou diversas matérias patrióticas e discursos oficiais que tinham a intenção de valorizar a identidade do povo paraibano, com adjetivos como “forte”, “guerreiro” e “preocupado (com os destinos do país)”, a fim de atrair o apoio da população.

Um exemplo dessa construção patriótica que passava pelo apelo à identidade local foram as notícias sobre três paraibanos que estavam a bordo dos navios torpedeados no litoral baiano, em agosto de 1942. O desfecho desses ataques culminou na declaração oficial de entrada do Brasil na guerra, em 22 de agosto, e no dia seguinte à entrada do país no confronto, o discurso proferido pelo A União era em tom de pesar, suscitando a comoção popular, em face da desumanidade com que os alemães atingiram os navios brasileiros. O jornal deu destaque às fotografias das três vítimas, aos nomes dos seus familiares, bem como suas atividades profissionais e breve descrição sobre suas trajetórias de vida, o que transparecia uma apelação na tentativa de sensibilizar a população. Com isso, a ideia do luto pela perda dos paraibanos foi uma estratégia utilizada pelo governo na tentativa de induzir o povo ao patriotismo e a apoiar a entrada do país na guerra.

Neste sentido, é possível perceber que o jornal oficial do estado foi um dos principais propagadores da campanha patriótica desenvolvida pelo governo Vargas. Através desse periódico, eram divulgadas notícias sobre a guerra, manifestações cívicas, discursos de intelectuais favoráveis à entrada do Brasil no confronto e pronunciamentos em tom patriótico de Ruy Carneiro, o interventor do estado da Paraíba no período, que atuava como um porta-voz do governo ditatorial varguista.

Pode-se concluir que mais do que informar, o jornal A União educava sobre e para a guerra. Servindo como um espaço não formal de educação, coube ao periódico a função de propagar um ideal patriótico comum ao povo paraibano. Passando primeiro pelo sentimento de paraibanidade, o governo conseguiu ir ao encontro do projeto nacional de brasilidade, mobilizou a população para a causa nacional e, por conseguinte, aderiu efetivamente ao estado de beligerância.

 

Para saber mais:

SILVA, Daviana Granjeiro da. Paraibanidade em favor da guerra no cotidiano de João Pessoa In: PEDREIRA, Flávia Sá. Nordeste do Brasil na II Guerra Mundial. São Paulo: LCTE, 2019.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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