Eles também podem

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Foi numa dessas tardes sem grandes desdobramentos que um colega me apareceu carregando uma bolsa muito simpática. Era um objeto meio híbrido, que pairava entre ser um baú e uma bolsa carteiro. Noutra ocasião, perguntei só para confirmar se a bolsa era mesmo dele e creio não ter sido a única a levantar a questão. Mas por que haveria de não ser dele? Só porque parecia “de mulher”?

Sejamos sinceros. Quando uma mocinha aparece com uma bolsa nova pendurada no ombro, pergunta-se de tudo. Quanto foi, onde foi comprada e agora, em tempos de consciência ambiental, pergunta-se até qual é matéria-prima. Só não se questiona se a bolsa é mesmo dela. Já quando um cara carrega peças que evidenciam um senso estético apurado e espírito mais livre, as questões são outras.

Parece-me que os homens não gozam da mesma liberdade que nós, mulheres, exploramos descaradamente e diariamente na hora de vestir.  Se o decote for um pouco mais amplo, se a calça for mais justa e a camisa tiver aquela estampa “cheguei” os olhares hostis podem fazer o cara tropeçar. Nas festas as mulheres desfilam fendas, rendas, brilhos e tecidos esvoaçantes enquanto seus pares dificilmente fogem do terno preto ou camisa social. Quando um homem se apropria de peças convencionalmente femininas, então, tem grande potencial de virar notícia. O exemplo mais recente é o de um pai alemão que começou a usar saia para apoiar o seu garotinho que gosta de usar vestidos.

Mulheres usando roupas “de homem” não é notícia desde a década de 30 quando estrelas do cinema como Katharine Hepburn e Marlene Dietrich eram fotografadas em calças. Apropriamos-nos de roupas concebidas para eles com o apoio dos amigos e da mídia especializada. Ousamos e ainda nos anos 60, aderimos à minissaia. É certo que um comprimento mais curto no corpo de uma mulher também tem potencial para levantar toda uma polêmica de proporções nacionais, mas, aí, a conversa é outra.

Apoio homens de espírito mais livre. Homens que experimentam. Homens como Laerte que, há alguns anos resolveu agregar peças do vestuário feminino nas suas composições. Na verdade, ele foi além. Laerte usa maquiagem, marca horários no salão de beleza para fazer as unhas e colocar em dia a depilação e não exclui as possibilidades do salto alto. Em entrevista a revista Bravo, o cartunista por trás de quadrinhos como “Piratas do Tietê”, disse ter procurado um clube de crossdressers – pessoas que usam roupas associadas ao sexo oposto – num período de “neuras existenciais” em 2009. De lá pra cá, ele se rendeu aos encantos das peças femininas e afirmou, em entrevista ao portal iG e com a propriedade que só um homem que usa um vestido pode ter, que ser mulher é caro, mas que a roupa feminina desperta a vontade de avaliar cores, tecidos e estampas. Diz ele que “é muito irresistível”. Tenho dito: moda é experimentar. E não me refiro somente a experimentar peças associadas ao sexo oposto.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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