EM DEFESA DA VIDA

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Torcia no fundo para que ele não aceitasse a convocação. Achava, entretanto, muito difícil que

ANTONIO SAMARONE DE SANTANA
isso acontecesse. Primeiro, porque ele não é de se intimidar e fugir da boa luta. Segundo, não poderia deixar de atender ao pedido do amigo, que lhe confiou a tarefa. Por isso, fiquei muito aliviado quando soube que ele não sairia de onde estava, por um simples motivo: poderia dar seqüência as suas arrojadas ações. Por outro lado, quem de fato vai assumir a pasta da saúde também é uma pessoa correta e respeitada pela categoria, que pode muito bem fazer melhorar essa nossa combalida saúde pública.

Para acabar logo o mistério, a solução encontrada, que considerei a melhor, foi ver Samarone mantido à frente da SMTT e Marcos Ramos ser anunciado futuro secretário municipal de Saúde, a ser empossado na próxima terça, 19.

Achava que a saída de Samarone, nesse momento, poria tudo a perder. A “Calçada Livre”, o limite dos 60 km, ambos projetos de cidadania, de respeito à vida, de amor à cidade e a seus habitantes, estaria com os dias contados. Recebendo uma enxurrada de críticas, nem todas bem intencionadas, os dois projetos, principalmente o que limita a velocidade máxima nas ruas e avenidas de Aracaju, sem a presença de Samarone, estariam fadados ao insucesso.

O limite dos 60 km, pelo fato de possuir base legal, o que por si só, em países desenvolvidos ( e sérios) seria o suficiente, tem um argumento sólido e definitivo, a meu ver: a preservação da vida. Os números comprovam que a redução da velocidade dos veículos nas ruas e avenidas é diretamente proporcional à diminuição do número de acidentes e vitimados. Existem exemplos de sobra, mas só para citar um, que é lembrado por todos: quando não havia controle de velocidade na Av.Beira Mar,  os acidentes aconteciam com muita freqüência, não só na perigosa curva como nas imediações do Iate Clube, com atropelamentos e mortes. Depois do controle da velocidade, os acidentes rarearam.

Infelizmente, Aracaju não possui artérias para velocidades acima de 60 km, em função de várias circunstâncias: pistas estreitas, cruzamentos constantes, estacionamentos em todo lugar, tráfico de carroças, calçadas sem padronização e muitas delas obstruídas por material de construção, veículos, orelhões, piquetes de aço, correntes e outros obstáculos, que fazem com que os pobres pedestres tenham que usar as ruas e avenidas.

         Os argumentos dos críticos de plantão, que os famosos “pardais” são fonte inesgotável de receita para a SMTT, só se aplicam para os transgressores das normas que, segundo estatísticas do órgão oficial, são contumazes. Quando foi implantado o uso obrigatório do cinto de segurança, a chiadeira foi geral. Hoje, ninguém mais questiona a importância dele. Há uma tendência muito grande da sociedade e das mentes mais retrógradas  de resistir a qualquer mudança que desafie os preceitos e as práticas já enraizadas, mesmo que elas sejam nocivas ou equivocadas, como se pode constatar.

As políticas de trânsito sempre privilegiaram uma minoria, a que  possui transporte próprio e para a qual tudo é possível: estacionar onde quiser, ocupar calçadas, desenvolver velocidades elevadas. Percebem que quando surge um buraco na rua, a gritaria é geral? Mas quando se ocupam calçadas, ninguém se incomoda. Mudar esses conceitos não é fácil e desperta logo a ira e a reação dos poderosos.

         Dessa forma, entender e apoiar incondicionalmente o limite dos 60 km é defender a vida. E para meu alívio, o médico Antonio Samarone não poderia estar em lugar mais apropriado.  

 

 

MORTES PREMATURAS

 

 

Dois médicos, duas trajetórias distintas. Somente uma coisa em comum: duas vidas ceifadas prematuramente. Refiro-me a Augusto César Macieira e a Geraldo Mota, ambos falecidos na semana passada, ambos com 53 anos. Geraldo na segunda e César na quarta. Geraldo de câncer de pulmão e César de cirrose hepática.

César apenas formou-se médico em 1980, mas não seguiu a profissão. Foi artista, poeta, cineasta, entusiasta das artes, amigo, cuidava da alma das pessoas com alegria e irreverência. Poderia ter sido um bom parteiro, mas preferiu outras paragens. Sabedor do mal que lhe acometera, não ousou mudar os hábitos.

Geraldo Mota foi meu companheiro de estudos para o vestibular de Medicina. Éramos três: eu, ele e Carlos Vahle. Toda noite, na garagem de sua casa na rua Arauá, varávamos a madrugada. Os dois não lograram êxito no vestibular. Segui em frente. Depois eles entraram na faculdade e em 1981, Geraldo formou-se, foi clinicar em Capela e por lá ficou. Nunca mais tivemos a fraterna convivência. Coisas da vida.

Partiram muito cedo para as alturas e eu fiquei aqui, na planície, mais pobre, triste e vazio.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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