Em prosa, rima e verso.

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Leio na Folha de São Paulo, edição de sexta-feira, 30 de julho de 2004, em manchete destacada: “Milionário exclui 6 filhos de testamento.” A notícia da mesquinharia documentada ocupou a maior parte da página C5 do jornal, suplantando não só o destaque do Crime do Parque, aquele da morte dos 73 animais do Zôo de São Paulo, como a matéria sobre o fim da greve dos professores das Universidades públicas paulistas, a notícia de financiamento do MEC às Universidades, e até o espaço destinado a um classificado importante.

 

Um assunto, tão miserável quanto desprezível, sobretudo nos tempos atuais, demonstra que no aspecto da sucessão, a lei brasileira é sábia e prudente; os filhos, como herdeiros necessários, independentes dos gostos, amores e horrores de seus pais, têm direito em conjunto, a 50 % dos bens paternos. Mesmo aqueles filhos indesejáveis e só reconhecidos na paulada, mediante um teste de DNA.

 

Trata-se de uma lei previdente, porque na vida prática não vale o dito no Evangelho; há muito pai que se pudesse daria uma víbora de presente a seu filho. E Quintino seria um deles, porque se a lei o permitisse, afirma o único filho herdeiro, seu pai lhe destinaria a totalidade dos bens.

 

Bem melhor do que fizera a atriz Joan Crawford que expressamente mandou constar no próprio testamento a sua determinação de não permitir que o casal de filhos que tivera, recebesse qualquer coisa de seus bens. “Se querem dinheiro, disse a mãe em vitupério testamentário; trabalhem!” E assim surgiu o livro de memórias de Christina Crawford, filha de Joan, narrando todo um relacionamento conflituoso entre sua mãe e os filhos. Este livro, “Mommie Dearest”, ou “Mamãezinha Querida”, transformado em bestseller, gerou um filme de mesmo título em 1981, no qual se pode ver Faye Dunaway cometer as mais chocantes barbaridades que uma mãe possa fazer com os seus filhos.

 

Na verdade, o relacionamento pai-filho não é tão fácil como se enseja nos dias dos pais, ou das mães, ditados pelo comércio a cada maio e agosto. Em exemplo, cite-se o fundador da nação portuguesa Afonso Henriques e a mãe, Alexandre Dumas, pai e filho, Johan Strauss pai e filho, Balsac filho e mãe, Kafka pai e filho, Davi e Absalão, e até o pai Abraão tratando diferentemente seus dois filhos Ismael e a Israel.

 

Ismael fora o primeiro filho de Abraão. Ele o tivera engravidando Agar e não Sara, sua esposa verdadeira. Sara era estéril e, como já estava idosa, pedira ao marido que conhecesse biblicamente sua escrava Agar, para que esta concebesse em seu lugar, o filho a lhe herdar.

 

Naquele tempo, era comum o aliciamento dos maridos pelas esposas pouco prolíferas, para que estes cobrissem suas escravas de confiança, na busca de filhos. Algo parecido como uma espécie de inseminação artificial, ao natural. E tudo se resolvia com a cumplicidade e a praticidade das parteiras, encenando-se um ritual de passagem, de um uro a outro igual, de um útero a um outro genital, de idêntica natureza vaginal, na certeza que tal excursão inicial, enfeixava um ritual inacreditável, mas memorável, na qual a mãe verdadeira perdia a maternidade, enquanto a patroa virava mãe.

 

Um ritual memorável que não enganava a criança, nem a mãe, nem a ninguém. E assim aconteceu com Agar parindo a Ismael.

 

Mal cessadas as dores do parto, a criança já chorava entre as pernas de Sara, que a recebia no regaço vulvovaginal. De um uro a outro uro, em viagem de insondável conjuro, o impuro ficava puro, e a escrava flor-de-monturo, contraía um resseguro, firmando um contra-seguro, em que Ismael deixava de ser seu, para ser só da outra, daquela que num esconjuro obscuro, possuía até o direito de gritar as dores do parto e desfrutar o sagrado descanso do resguardo. Tudo isso nas terras do hoje Israel.

 

Pois bem! Tudo isso aconteceu com Agar, e tudo terminaria bem, não fosse a visita de três anjos a Sara e Abraão. Porque desta visita um milagre aconteceu, e o velho conseguiu engravidar a velha, surgindo Isaac, que depois se chamaria Israel.

 

E a vida de se complicou tanto naquele lar, que o pai Abraão, demonstrando seu amor só e exclusivo a Isaac, baniu Ismael e Agar para que morressem no deserto. Deus, porém não permitiu que morressem, e Ismael virou o pai do grande povo palestino.

 

Quanto a Isaac ou Israel, este também se tornaria o pai de um outro grande povo, o judeu. E os descendentes de Israel e Ismael se odeiam milenarmente, tudo porque Abraão, o avô comum dos dois povos, deserdou um filho em benefício do outro.

 

Igual, ou parecido com o ditado pelo fazendeiro Quintino de Ribeirão Preto. Um prenúncio de uma tragédia previsível, mas injustificável.

 

Se há muita coisa entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia não imagina, e o incompreensível justifica as tragédias de Shakespeare, a do louco Rei Lear se insere por excelência no tema. É um conflito de herança também.

 

Neste conflito de sucessão, o Rei Lear estranhamente deserda a filha Cordélia, justamente a que lhe amava sem restrições, mas que não era lisonjeira, servil, nem falsa, nas falas, nos elogios, nem nas lágrimas. E assim eis que a rapacidade das outras filhas engana o rei louco abocanhando-lhe o reino e banindo-o à mendicância. Então eis Lear mendigo empobrecendo-se sobremodo, com a família se destruindo, uns aos outros. Tudo porque uma partilha de bens fora conduzida no egoísmo e na usura.

 

Mas, se existem os Quintinos e os Lears, existem também os que o vil metal não envilece.

 

Não tão recentemente, em 16 de dezembro de 2003, Sergipe perdeu um grande empresário. Um homem que soubera fazer fortuna e muito enriquecer. Foi talvez tudo o que um homem normal almejaria ser; muito rico e poderoso grande capitão de indústria, vitorioso no campo público e privado.

 

Em sua morte, todos lhe enalteceram seus feitos materiais. O que não é tão comovente, afinal saber ganhar dinheiro é um dom. Algo parecido com um Pelé no futebol, um poeta fingidor como Pessoa, um Newton na gravitação, um Lavoisier na mensuração, uma surdez fecunda de um Bethoven, ou um trinado de uma Maria Callas.

 

Emocionou a muitos despercebidamente, saber que o grande empresário, repartira seus bens em vida, permitindo que sua prole deles pudesse auferir e fazer crescer, segundo o gosto e o desejo de cada um. E assim sua família prossegue levando de geração em geração a lembrança amorável, de um exemplo para toda a vida.

 

Não é o caso do Lear Quintino de Ribeirão Preto. Era muito louvado por ser rico e virou notícia no final da vida, com direito a retrato e tudo, até do enterro melancólico, para um homem de tantas fortunas e a família imersa em discórdia. “São coisas da vida, – diz o filho que herdara quase tudo – meu pai estava com raiva dos outros seis filhos e queria me dar tudo. Não deu mais porque a lei só permite dar a metade, estimada em R$ 100 milhões”, (uma fazenda de 2 mil hectares e 15 milhões de m2  em terrenos em Ribeirão Preto) ”.

 

Este Lear Quintino estava com raiva dos filhos e os deserdou por vingança. Há outros, porém, que os deserdam, cantando-lhes odes de amores eternos, irrepetíveis.

 

Impossível! Não! Bem possível! E de quem ninguém esperaria; em prosa, rima e verso.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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