Enfim, a verdade do 28 BC

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O governador Jackson Barreto enviou ofício ao ministro da Defesa, Celso Amorim, na sexta-feira, solicitando incluir o 28º Batalhão de Caçadores entre as unidades militares a serem investigadas por mortes e torturas durante a ditadura (1964 – 1985). O conhecido 28 BC foi palco, em 1976, da famigerada Operação Cajueiro, que resultou na prisão e tortura de duas dezenas de sergipanos.

Estimulou o pedido do governador o fato de Celso Amorim ter comunicado na terça-feira, 1º de abril, à Comissão Nacional da Verdade que as Forças Armadas aceitaram abrir sindicância para apurar abusos ocorridos em dependências militares no tempo da ditadura.

As sindicâncias abertas agora pelas Forças Armadas se limitam aos crimes ocorridos em sete dessas dependências no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais.

Desde que foi criada em maio de 2012, a comissão tenta ter acesso aos documentos oficiais sobre os mortos pela ditadura, especialmente os assassinados nas prisões do regime. No último dia 18 de fevereiro, a comissão decidiu mudar a estratégia e repartir com as Forças Armadas a responsabilidade por uma investigação fragilizada pela falta de documentos.

O grupo, então, enviou pedido ao ministro Celso Amorim para que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica abrissem por conta própria sindicâncias para apurar o que ocorreu em suas unidades. Jackson Barreto quer estender essa aceitação ao quartel do Exército em Sergipe.

No ofício ao ministro da Defesa, Jackson cita a Operação Cajueiro como motivo para se investigar o 28 BC, onde se desenrolou "uma das páginas mais dramáticas da história política de Sergipe, escrita com a prisão, tortura, estupro e cegueira de militantes de esquerda do nosso Estado".

Fala com propriedade sobre o assunto, pois o hoje governador era deputado estadual pelo MDB e foi detido e processado naquele dia 20 de fevereiro de 1976, véspera de Carnaval.

"Na época, a 6ª Região Militar, que incluía Sergipe, era comandada pelo general Fiúza de Castro, um defensor declarado da tortura. Graças ao seu empenho, e ao afastamento do comandante do 28º Batalhão de Caçadores, Osman de Melo e Silva, o que se seguiu sob sua orientação foi não apenas o último suspiro de violência da ditadura, mas um atentado gravíssimo à liberdade dos sergipanos e dos brasileiros", diz o governador no ofício.

"Dezenas de democratas sergipanos foram vitimados pela perseguição da ditadura naquela operação. Levados ao quartel, líderes políticos e combatentes da liberdade, como Wellington Mangueira e sua esposa Laura Marques, Antônio Góis, Rosalvo Alexandre, Marcélio Bonfim, Carlos Alberto Menezes e Elias Pinho foram presos e cruelmente torturados", fez questão de citar, não sem descuidar do caso "tristemente emblemático do militante Milton Coelho, que chegou a ficar cego em decorrência das torturas recebidas nas dependências daquele quartel".

Jackson encerra afirmando que é por solidariedade e dever de democrata que insiste na inclusão do 28 BC dentre as unidades a serem investigadas e que aquele momento obscuro da história nacional e das forças armadas precisa ser trazido à luz do dia, para que a sociedade conheça a verdade. "Sergipe, assim como o Brasil, precisa passar a limpo a sua história e conhecer a verdade".

Pena que o governo de Sergipe, certamente movido por algum constrangimento, não tenha tido a coragem de implantar a comissão estadual da verdade. Diz-se a boca miúda que Marcelo Déda e o próprio Jackson não quiseram revolver o passado de algumas figuras proeminentes que ainda estão vivas. Aliás, bem vivas.

Queremos saber mais. Afinal, a verdade do que aconteceu durante a ditadura em Sergipe não se restringe à Operação Cajueiro.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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