Enquanto há vida…

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O biólogo Marcelo Cardoso de Sousa remete uma carta alentadora sobre como a fauna e a flora em Sergipe têm resistido e, mais do que isso, se recuperado de séculos de exploração e descaso. Um abnegado na luta pela causa da preservação ambiental, Marcelo escreveu para comentar o artigo da semana passada, sobre o tráfico de animais silvestres, que se constitui um dos crimes internacionais mais lucrativos, quase concorrendo com o tráfico de drogas e armas. Eis a missiva:

“Acredito nos números divulgados acerca do tráfico de animais silvestres, especialmente nos dados fornecidos sobre apreensões de animais ilegalmente capturados, na estimativa de animais contrabandeados e no montante que essa atividade ilícita movimenta no mercado negro.

Entretanto, faço uma análise otimista quando transporto o problema do tráfico de animais para a realidade do nosso Estado. É visível a diminuição do comércio de animais silvestres em Sergipe, graças, inicialmente, a ação das equipes de fiscalização do Ibama e, posteriormente, da Polícia Ambiental e até da Polícia Federal.

Assistimos hoje a mídia enfatizando temas ambientais, destacando e denunciando as
contravenções ainda praticadas em nosso Estado. Também vemos uma sociedade mais
sensibilizada, consciente e participativa.

Há muitos anos eu percorro as áreas naturais do Estado e ouso afirmar que a perseguição, captura e a caça aos pássaros e outros animais diminuíram consideravelmente em Sergipe. É lógico que o comércio ilegal ainda existe, mas em proporções bem menores que há alguns anos.

Na minha infância não era raro nas brincadeiras de rua a confecção e o uso de
‘baleadeiras’, que serviam para guerras de mamona ou para matar passarinho. Comia-se até o coração de beija-flor para apurar a pontaria. Também era comum entre os garotos ‘armar alçapão’, pegar ‘caboquinho’ e criar passarinho. Melhor ainda se fossem ‘pelocos’, especialmente de periquitos e papagaios.

Comprar animais era fácil: em qualquer feira, em qualquer estrada e até como petiscos e tira-gosto em bares e restaurantes. Os tempos mudaram. Houve uma grande mudança de mentalidade e, nos dias de hoje, tais práticas são raras.

Melhor evidência de que a caça, captura e perseguições gratuitas diminuíram é a presença de aves, antes muito ariscas, que hoje circulam tranquilas nos campos e cidades. Tenho inúmeros exemplos disso: marrecos, paturis, garças, socós que por sentirem-se menos ameaçados diminuíram a sua distância de fuga, ou quase não fogem. Sem falar nos biguás e cabeças secas que podem ser avistados mais facilmente nas várzeas do São Francisco.
Também tenho percebido o aumento das populações de periquitos, jandaias e até papagaios, os do mangue, que passaram a ser perseguidos quando os “verdadeiros” papagaios escassearam.

Uma amostra de que o movimento ‘tortura nunca mais’ se estabeleceu por aqui é a presença das aves em nossa cidade. Muitas delas, especialmente os canários, devem ser frutos das inúmeras solturas realizadas por um antigo morador do conjunto Inácio Barbosa. Outras perderam espaço nos antigos sítios da cidade, mas encontraram refúgio nas áreas verdes da capital, incluindo os parques e manguezais.

Para finalizar, destaco que as espécies florestais passam por problemas maiores. Não pelo tráfico, mas pela perda de hábitat.

Entretanto, ao que parece, os desmatamentos em Sergipe também vem diminuindo, graças a fiscalização, a conscientização e mobilização em prol da Mata Atlântica. Atribuo isso ao movimento iniciado através da divulgação da presença de espécies bandeiras ameaçadas de extinção, antes desconhecidas pela população.”

A propósito

Veja esse artigo de 5 de abril de 2009, intitulado “Asas de Aracaju”:
Um aprendiz de ornitólogo observou dezenas de espécies de aves e pássaros no Parque da Sementeira. Dos mais comuns bem-te-vi, sebinho e garrincha, aos mais exóticos martim-pescador, joão-de-barro e carcará. Viu e ouviu o canário-da-terra, o cabeça, o sanhaço, o periquito-velande. Notou que naquele nicho de ambiente que se renova, a garça posa mais graciosa, a lavandeira saltita mais alegre e até o feioso socó parece mais simpático.

Há os que gostam de ficar só, como um falcãozinho vulgarmente chamado de quiri-quiri, o beija-flor e o pica-pau. Há os que invariavelmente estão bem acompanhados, como o gavião-peneira e as corujas-buraqueiras, que moram num buraco cavado no chão, daí o nome popular. E os que vivem em bando, como os anus-brancos, os anus-pretos e os quero-queros, que também gostam de andar sobre a terra como o sabiá-de-campo e a rolinha-caldo-de-feijão.

Se aquele espaço nobre da cidade já atrai tantos e tão coloridos bichos emplumados, se o canto das aves e pássaros já é fundo musical para os adeptos das caminhadas matinais, imagine-se o que existirá quando o Parque da Sementeira transformar-se num bosque de Mata Atlântica. Se há alguma coisa que a prefeitura tem feito ali é o florestamento do lugar, isso ninguém pode negar. Mas é preciso mais. E esse algo mais não pode depender do poder público, afinal todos somos donos daquele patrimônio.

O biólogo Marcelo Cardoso, por exemplo, faz — e muito bem — a parte dele. Já reconhecido pelo trabalho que desenvolve em defesa permanente da Mata Atlântica e da fauna que nela habita, como o macaco guigó, ele agora lança o projeto Aves da Cidade (vá ao site www.aimurande.org.br). Contando com a ajuda de três alunos da Unit, Victor Soares, Randolfo Fiqueiredo e Thiago Santana, ele já conseguiu catalogar 53 espécies de aves residentes ou que comumente estão de passagem pelo município de Aracaju, fazendo o registro fotográfico das espécies e entendendo como os processos de ocupação urbana geraram esse padrão de presença ou ausência da avifauna atual. No seu catálogo consta até o falcão-de-coleira!

É um trabalho que certamente vai acrescentar à consciência ecológica do aracajuano, que tem garantido a coexistência pacífica com esses antigos moradores, permitindo, inclusive, a sua livre procriação.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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