Ensaio sobre a amizade

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Terminamos relacionamentos, brigamos com familiares, mas uma amizade verdadeira acaba realmente ou se transforma em outro sentimento? São questionamentos como este que me tiram o sono e fazem pensar sobre três grandes amizades que perdi nos últimos meses.

 

Foram substancialmente essenciais em algum momento de minha vida. Mas, hoje, ‘talvez’ (pois a dúvida faz parte da amizade), não as observo mais pela ótica extremista e desesperadora de quem não tem algo valioso em mãos. Sempre me considerei muito amigo dos meus amigos, e hoje consigo ponderar que o maior erro dentro de um círculo de amizade é querer que nossos amigos sejam as imagem e semelhança de nós mesmos. Pecamos pela grande quantidade de perspectivas que colocamos em cima dos outros, é fato! Sempre foi assim, a humanidade é focada demais nas perspectivas de que o outro será nosso porto seguro eterno. Nada realmente é eterno. Só nos resta então, quando falamos dignamente de amizade, acabar a coisa de uma forma legal, muito embora triste.

 

Fico pensando e concluo que a relação de amizade requer um tempo específico, sem prazo definido, para que as se construam dentro de um único mundo, vários outros mundos. É como se um indivíduo pegasse a ponta de uma corda e unisse em elo, com a outra ponta que está na mão de seu futuro grande amigo. Então, surgem os laços mais fortes, os medianos e os fracos que se quebram em pouco tempo. Os três amigos que perdi ainda continuam sendo elos, mas não pertencem mais ao meu presente. Infelizmente, hoje (talvez isso mude algum dia), só os consigo enxergar num recente passado, guardado em meu computador através de fotos, vídeos e também em minhas memórias. Mas, não existe desejo de aproximação, reciprocidade. Por enquanto é melhor assim.

 

Poderia você, caro leitor, imaginar milhões de alternativas que embasariam o não desejado final de uma amizade. Só que para que uma amizade permaneça forte, serena e capaz de superar as tormentas sentimentais é preciso muito mais que amor. Amor, nestes casos, inclusive, não passa de um ingrediente de algo saboroso, mas que pode facilmente ser substituído por consideração, interesse financeiro, etc. Se você pensou que o amor, como nas relações sexuais é a força motriz de uma amizade, infelizmente terei que atestar que não é bem assim. Na verdade, a paciência é que faz tudo progredir, além de contribuir para não se esgotar as novas chances. A paciência será a base de toda amizade.

 

Repensando bem, na verdade quando eu escrevi acima que tinha perdido três amigos, se eu tivesse tempo para voltar atrás, reformularia a frase para simplesmente atestar que nós perdemos mutuamente. E assim, perdeu-se também a paciência para aturar os erros alheios. Quando o assunto é o fim de uma amizade, todos os lados saem perdendo. Quando cito aqui a palavra perda, me refiro àquela perspectiva de se driblar, com segurança, mais uma barreira, perdoando os enganos e as faltas cometidas. Cartões vermelhos fazem parte das amizades.

 

Meus três amigos faltaram comigo, num momento em que eu não precisava que os mesmos faltassem ou sobrassem em nada. Estávamos estáveis e sem grandes dilemas existenciais. Vivíamos as nossas vidas, saíamos sempre, falávamos diariamente e mesmo assim, no meio da normalidade, não consigo mais uma vez perdoá-los. Apenas aceitei cada situação e segui em frente. Simplesmente baixei minha guarda, calei meus pensamentos e cansei de tentar, de perdoar, numa espécie de cansaço mental e físico, porque sei que “ser amigo de verdade” é um desgaste sobrenatural. Não tive força para mais uma vez fazer o ritual da boa convivência: conversar-e-se-entender, perdoar-e-esquecer e o mais importante: continuar-juntos… Together. Seria preciso tirar cada pedra e varrer as mágoas para debaixo do tapete.

 

Numa escala sem medidas, considero a amizade algo muito mais superior que o casamento em si. Quando casamos dividimos contas, secreções, atos e filhos. Quando somos amigos só precisamos dividir o tempo entre uma risada e um choro, seguindo feliz pelo fato de termos inclusive um apoio crítico, se preciso for. O problema é que chega uma hora em que a sujeira não tem mais espaço para ficar armazenada e acaba manchando a tinta fresca que poderia ser usada para uma nova chance, uma nova cor. Poderia chamar este texto de “Pequeno ensaio sobre o fim de algo importante”, mas ficaria meio triste e conclusivo demais.

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O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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