Ensaio sobre a lembrança

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As imagens vêm do cheiro da chuva que sempre encontro quando chego ao Rio. O que antes era triste, com o tempo, ganha outro tom, dom, outro significado. As lembranças do Rio, que tenho em mim, se parecem com àquelas da década de 70, mais amena, quando o Rio era mais inocente. Via o Rio com um olhar apaixonado, tudo era canção. Mas lembrança precisa de vida vivida e não de supostas sensações nunca sentidas. Não existe um recordar ficcional. Tudo precisa vir do que a experiência dar em sua divindade.

 

Hoje é 11 de setembro de 2009, data dolorosa para o mundo. Marcou e faz lembrar o quanto somos insignificantes, às vezes. No Rio em que estou agora, às 6h30 pontualmente (parece brincadeira), não existe ninguém a me esperar no aeroporto, apenas as lembranças que ficaram guardadas aqui neste lugar. Estou sentando aguardando uma conexão. É tão engraçado lembrar de momentos sorridentes, jóias ganhadas. Se a H.Stern falasse, ao invés de mostrar seu novo catálogo, certamente ela diria: “Na vida só restarão as lembranças e as jóias. Ambos são eternos”.

 

Novembro, dezembro, fevereiro e abril, em apenas quatro meses o Rio ultrapassou a tela que eu via na TV e ganhou significado real. Ô Rio por que não mostrou logo de cara sua cara, quem sabe uma bala perdida, como era esperado não tivesse resolvido e evitado a tristeza? Não, muito pelo contrário, o Rio dá esperanças, faz crescer sentimentos e se depender dele tudo vira um lindo passei em Copa. Só que cartão postal acaba, envelhece e se não cultivar com carinho, não sobra nada!

 

Os medos atrapalham e assim descontrolam casamentos. Fui casado durante quatro meses e o Rio foi centro disso. Nosso divórcio envolveu um Cristo Redentor, um Pão de Açúcar, teve Ipanema e sua Farme de Amoedo imunda durante o Carnaval como testemunhas. Todas as lembranças ficaram órfãs, mas ainda persiste de longe na cabeça porque teve importância. No início fez amor apesar de sangrar no final. Do mar do Rio, nada! Nenhum banho. Evito praias. Até mesmo as do Rio. Lembro apenas da areia quente (num dos poucos dias que fez sol), porém delicioso pela companhia… Quer lembranças? Então constrói as suas, pois são individuais apesar do conjunto de informações. 

 

Já disse que sempre chove quando estou no Rio, mesmo quando é uma passagem rápida? O Rio é tão bom comigo que não faz seus famosos 40 graus, sabe que eu não aguentaria. Ele é oferecido, me dá chuva e vento de sobra. Gosto assim, pois me permite ficar tranquilo! Rio de lembranças que cortam o muro do que não queria lembrar, porque esquecer é sempre mais fácil e também dói menos. “Não há meada, é só o fio. Será que pra meu próprio Rio, este Rio é mais mar que o mar?”, já escreveu Caetano.

 

Eu conheço esta Cidade por minhas recordações: meias grossas, drogas demais, árvores em outono, sonhos engraçados, cortes de cabelo e principalmente o Natal (quando casei). Poucas pessoas, vários presentes e muito carinho. Ah, a comida estava boa, lembro disso pelo cheiro que meu cérebro recompõe inteiro agora. Hoje, enquanto penso sobre isso, sinto tudo de novo.

 

A lembrança proporciona esse estalo em nossa cabeça e volta tudo de forma organizada. O Rio tem esse poder de trazer pro presente todo o auê de antes e mostra que independente de minha força para esquecê-lo, ele está aqui em concreto e loucura. Eu poderia agora, no aeroporto, sair correndo e me jogar na Rodrigo de Freitas. Mas o que eu seria? Apenas engolido. Assim, senhor Rio preferi ficar quieto, aguardando meu voo para Porto Alegre. É preciso ter calma pra que você não saiba que estou em seu território. Saí fugido. Sou um sobrevivente. Aí aí aí Rio, sei que não existem freios para as lembranças. Já te amei, odiei e hoje são apenas imagens que tenho em mim.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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