Entendendo a evolução das campanhas políticas

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Excepcionalmente neste final de semana ao invés de uma entrevista política esta coluna publica uma crônica enviada pelo leitor, Marcélio Couto, que é jornalista e publicitário nascido em Governador Valadares (MG) e que está radicado em Sergipe há alguns anos. A crônica relata a evolução das campanhas eleitorais e o relacionamento entre o candidato e o eleitor. Vale a pena conferir.

 Em um passado distante, até a década de 80, os candidatos ofereciam brindes lícitos como bonés, camisetas, muros, bandeiras etc., outros nada lícitos como latinhas de óleo, padrões de luz, óculos, tratamentos médicos diversos dentre outros. Havia o comício sem show algum, as pessoas iam por ideologia utópica ou falta mesmo do que fazer. Fala (gritos), de candidatos era uma atração à parte. Essa foi à última era das campanhas românticas, por assim dizer, era o famoso Tête-à-tête, isto é, corpo-a-corpo. Os candidatos gastavam a sola do sapato e a garganta. Muitas vezes saíam em passeata, iam de porta-em-porta e havia uma aproximação maior com o público. Valia muito naquela época a imagem dos cabos eleitorais, pessoas influentes em determinada comunidade que direcionavam seu gado eleitoral a votar em determinado candidato, gado mesmo, não é a toa que esses núcleos eram denominados currais eleitorais (eu poderia comparar aos eqüinos, mas por educação optei pelo que brami). Conta-se que antigamente, nos currais eleitorais, o coronel entregava o voto fechado num envelope ao eleitor desinformado para que o depositasse na urna. Quando algum deles pedia para saber qual era o conteúdo do voto, o coronel dizia: “Você está querendo me comprometer? Não sabe que o voto é secreto?” Nem pense que isso é piada.

  Aí, surgiu a era da democracia, acabou o regime militar, veio à liberdade de os partidos se multiplicarem e manifestarem livremente, a tecnologia avançou, o marketing especializado se valorizou e assim criaram os mega-eventos e o comício se transformou em showmício. Gastava-se uma fortuna incalculável com renomes da música nacional. O engraçado é que até a década de 80, alguns artistas subiam ao palanque não para cantar, mas para apoiar algum candidato, partido ou ideologia própria e pasmem, grande parte não cobrava (isso era ideologia). Mas, voltando à era dos mega-shows, nesse momento valia tudo também, brindes lícitos e os não lícitos, todo o tipo de publicidade e propaganda. Rios de dinheiro jorravam pela mídia usual e pelas alternativas. Mas, os candidatos insistiam que só gastavam o exigido pela Justiça Eleitoral. Na verdade todos sabiam que não eram mil e sim milhões, mas o caixa 2 foi criado justamente para não demonstrar números justos. Assim, as cidades se transformavam da noite para o dia. Era imagem de candidatos para tudo quanto é lado, uma extrema exposição de imagens, números, sons de jingles (muitos plágios), alto-falantes, propaganda obrigatória em rádios e TVs (obrigatório em democracia?). Resumindo: poluição sonora e visual.

Entramos agora numa nova fase da propaganda política. Detonaram os mega-shows, então as bandas e músicos ficarão menos ricos por isso. Restringiram o trabalho dos publicitários, pelo menos o dos picaretas, pois o dos profissionais aumentou-lhes a oportunidade de mostrar seu talento criativo. Agora vale mais a estratégia que a divulgação exacerbada. Em comício seco duvido muito que as pessoas irão (a bel prazer). No mundo capitalista as pessoas não se movimentam por ideologia, apenas por vantagens, nem que seja um mega-show 0800. Eis que as carreatas são valorizadas, a comunicação nas TVs e rádios tem que ser mais criativa e versátil, os apelos mais contundentes, as propostas dos candidatos mais leais e verdadeiras, as mensagens mais rápidas e de melhor entendimento para todas as camadas. Acabaram também com os brindes lícitos. Muita empresa de fundo de quintal, continuará no fundo, sequer fará para o café nesse novo formato de campanha. Então, é aí que eu me perguntei: para onde vai o rio de dinheiro dos showmícios e dos brindes? Como fui educado ainda na fase romântica da política, cheguei a pensar que o rio secaria, que o romantismo voltaria, que as solas de sapatos desgastariam e as gargantas doeriam. Seria então uma mesclagem do passado com o contemporâneo. Algo até mais ético que poético. Mas, não sei porque tem uma pulguinha detrás das orelhas me assoprando que do romântico mesmo daquela época só voltará os brindes ilícitos, isto é, os coronéis, na pele de carneiro dos cabos eleitorais receberão seu riachozinho de dinheiro para embalar o gado, este por sua vez não obedecerá mais “a pulso”, mas sim às gotas de dinheiro e às promessas jamais realizadas.

  Após essa revisão parcial da história política no Brasil, cheguei à conclusão de que, assim como Hegel, “a história sempre se repete”, mudam os personagens, a roupagem, mas é sempre a mesma história. Então abandono aqui o meu legado, exterminando de vez a ideologia, a utopia e o romantismo que se dane. Estou vendendo meu voto, não apenas um candidato, mas a todos, quero meu riachozinho de dinheiro correndo em águas torrentes pela minha lagoa seca, isto é, conta bancária. Aceito qualquer quantia em papel moeda, cheque ou em barras de ouro, dispenso cartões e muito menos promissórias. Haja vista, definitivamente, prostituição não é privilégio de meretrizes. Estou me vendendo barato, já não me importo mais com Brasil, muito menos com os brasileiros nem meus avós idosos nem meus pais nem o futuro dos meus filhos e meus netos que nem nasçam nesse cabaré verde-amarelo. Mas, senhores políticos que comprarem meu voto, tenha a certeza de que eu votarei sim, dou minha palavra. E, querem saber de quem é meu voto? Perdão, não posso revelar, afinal, voto é secreto, não é, coroné?

 

Vai aí a minha campanha de venda de votos: Vendo meu voto, mas voto em quem eu quiser. Voto é secreto.

 

 Moral da crônica: eleitor esperto passa a perna em candidato que compra votos. Então, pegue o seu dinheiro e vote noutro candidato adversário nem que seja para tirar um sarro com o otário que te pagou. Esta será a nova e próxima fase da política. (Marcélio Couto – Publicitário, jornalista e leitor diário desta coluna).

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