“Eppur, si muove!”

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Quando o poeta sevilhano, António Machado, leu nos idos de 1914 as “Meditações do Quixote”, uma das primeiras obras de Dom José de Ortega y Gasset (1883-1955), empolgou-se tanto com tal refletir, que lhe enviou um poema estimulando-o a não “se desviar de seu salutar comportamento independente”, nem “se deixar guiar pelo conservadorismo católico tão presente na Espanha de então”.

O tema ressurge a partir de um texto sobre a atualidade de Ortega y Gasset de autoria do Professor Adelito Gonçalves, em que há a citação do ensaio, “O murro de António Machado ao mérito do pensador José Ortega y Gasset”, de Joaquim Montezuma de Carvalho, colaborador especial do suplemento Das Artes das Letras do extinto jornal, O Primeiro de Janeiro, da cidade do Porto, em Portugal.

Segundo Montezuma, o poeta António Machado, quinze anos após o seu poema de ajuizador incentivo, ter-se-ia decepcionado com Ortega y Gasset, ao confessar numa carta à poeta Pilar de Valderrama, datada de 30 de janeiro de 1929, quando a Espanha vivia no governo autoritário de Primo de Rivera e prévias da Guerra Civil Falangista.

Na carta, Machado verberava duro: “Ortega tiene indudable talento, pero es, decididamente, un pedante y un cursi (grifo meu); las dos cosas se dan en él en dósis iguales”.

Se o desapontamento é discutível, já que existem dúvidas quanto à real autoria de António Machado às “Cartas a Pilar”, e à integralidade das mesmas, Gasset lhe era agora “um pedante, alguém que fazia ostentação desnecessária de seu saber, e um cafona”, em doses iguais, daquilo que, “à maneira portuguesa, Montezuma traduzira “cursi” por piroso”.

Aproveitando o tema e a cena de minha própria circunstância, e sem possuir o brilho de Ortega, muitos acham os meus escritos como cafonas, pedantes ou “pirosos”, se assim me fosse cuspido o “cursi” lusitano.

Mas, se o “mestre das claridades” fora julgado piroso, mesmo em seu ardor ibérico gritando “temos que chegar na claridade até o frenesi, até o frenesi da claridade”, que dirão de mim se o roto e o absorto são denunciáveis a direito e a torto?

Eis então a reprimenda de um leitor que se faz porta-voz da intolerância e da velada ameaça, e que me faz refletir; ‘Que desejo eu quando exerço o sagrado direito de divergir, de tentar pensar como António Machado recomendara ao jovem Ortega e Gasset de não “se desviar de seu salutar comportamento independente”, nem se deixar guiar pelo conservadorismo atual?’

A pergunta chega num contexto insinuador de possíveis represálias, por admoestação: ‘Lembre-se que você não tem costa quente!’

E aí eu me recolhi e conjecturei: Por acaso em minha vida alguém me serviu de “costa-quente”? Logo eu que construí o meu existir por luta e esforços próprios, sem padrinhos ou busca de atalhos, muito menos furar filas ou solapar a igualdade da livre disputa dos encargos da vida?

Logo eu ainda, cujo nome e ascendência, longe de me trazerem facilidades, cunharam-me uma exigência, por inevitável comparação de uma incabível obrigação?

É verdade! Todos nos querem pasteurizados no pensamento e na opinião!

Ousar pensar diferente é um perigo. E “viver é perigoso”, não só nos grandes Sertões de Guimarães Rosa, como nos rincões de Machado e de Gasset, tendo que emigrar por perseguições políticas, sem nunca terem sido políticos. Eles na Espanha falangista e eu ameaçado, em pleno estado de livre expressão, mas sentindo as cadenas dos velados entraves autoritários.

“É perigoso ter razão quando o governo está equivocado”, denunciava Voltaire. “É perigoso ter razão contra os poderosos”, dirá Brecht por um Galileu Galilei convidado a se desdizer.

Algo parecido agora com a roqueira Rita Lee, forçada a pedir perdão pelo seu desabafo viril contra a intolerância do poder armado, na circunstância e circundância do além-palco, em rotineira evidência de todos os palcos da vida.

Em todos os tempos. Sob Hitler, Stalin, Pol Pot, Amim Dada, ou nas democracias mais liberais. O espancador é sempre o mesmo e há sempre uma veste que lhe assegure e sustente o relho e o mangual.

“Eppur, si muove”, cedeu Galileu sabendo que “fraquezas humanas não tem nada a ver com ciência”.

Assim eis a roqueira trazida a Sergipe como Galileu no seu tempo para enfrentar acusações tão tolas quanto odientas ao seu agir incomodativo, por libertário e resistente ao ordinário.

“Ah, mas ela insinuou o uso de drogas! Galileu não foi assim!”

Foi pior! Digo eu. Galileu disse coisas terríveis! No seu tempo e agora também, porque continua sendo perigoso divergir dos poderosos.

A verdade ainda não se entronizou como filha do tempo. Ela é tida ainda por incubação promíscua da autoridade. Afinal, se a batina e a cúria perderam o seu poder de execrar e maldizer, muitos ainda creem que “a soma dos ângulos de um triângulo varia com o pensar” de uma beca.

E assim eis Rita Lee incomodando como Galileu a suscitar senão a fogueira dos hereges, que caiu de moda, mas algo parecido que lhe doa e queime até os ossos.

Ora, como diria de novo Brecht por Galileu: “Aquele cujo espírito cede apodrecerá até os ossos”.

Mas, o que vale a confissão do erro quando o equívoco não existe? Adianta desdizer a mobilidade da Terra se ela não para?! “Eppur, si muove”!

A roqueira Rita Lee parece repetir Galileu ao reconsiderar exagerada a sua reprimenda viril.

E bote viril nisso! Porque se houve uma coisa não viril, esta se encontrava do outro lado, com capacete, borduna, e forte instrumental ameaçador por letal. Nada que a roqueira possuía; só sua inteligência, autoridade moral e rebeldia. A rebeldia dos santos e dos mártires, por sinal.

Infelizmente, coisa da insignificância sergipana, alguns não tiveram o bom senso do Governo de Sergipe que evitou enveredar neste festival de besteira que, posto no cenário e no noticiário, retorna para desancar a nossa sergipanidade, apresentando-a tão medieval, quão intolerante, tão mesquinha, enquanto tola. E haja tolos, a não merecer uma canção.

Assim a história se repete. Os filhos de algo ou de ninguém sempre cobrando um enquadramento, uma reparação. Uma submissão inclusive. Igual aos hereges sendo queimados na fogueira e forçados a beijar o crucifixo de não seu desejo, com direito a aspersão de óleo bento para afagar a chama, e ampliar seu sofrimento e a queimadura.

Quanto a mim e a minha circunstância, prefiro divergir, tomar o caminho da roqueira de produção musical tão doce, construtiva e enternecedora. Achá-lo consistente ao seu verberar revoltoso, tido por calamitoso e rancoroso, quando penso tão vigoroso, quão necessário, e que se fez profilático para evitar um nascente terror atrabiliário.

Neste particular, “quando se dá mel aos ursos, perde-se o braço se o bicho estiver com fome”!

É preciso dizer que a tortura e a violência do Estado não podem ser estimuladas como os ursos cevados a mel.

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”, eis uma frase ditada em outro contexto que bem poderia se aplicar aqui, quando nos impedem de denunciar e lançar os impropérios necessários para clamar a razão ameaçada e escoimada pela insensatez.

“Eppur, si muove.” Repete, talvez a roqueira, como Galileu em lição apreendida: “É perigoso atravessar fronteiras com a verdade debaixo do braço”.

Contudo, e ao fim de tudo, recolho o conselho de António Machado a Ortega y Gasset, que bem poderia se aplicar à minha circunstância, àquela de Galileu Galilei, e também a da cantora Rita Lee, de “jamais se desviar do salutar comportamento independente, nem se deixar guiar pelo conservadorismo das massas retrógradas”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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