Éramos Seis, uma abordagem da ficção sobre transtornos psiquiátricos

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Renata Mascarenhas Freitas de Aragão

Especialista em Direito e Processo do Trabalho/UFBA

Servidora do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe/TJSE

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS)

E-mail: renatamascarenhas404@gmail.com

 

A obra da literatura brasileira “Éramos Seis”, inspirada no livro do mesmo título, de Maria José Dupré (1898-1984), ganhou uma quinta versão no “horário das 6” da TV Globo, predileto da emissora para a exibição de novelas de época. Essas produções, permitidas a todos os tipos de público, apresentam tramas leves e roteiros que reproduzem episódios importantes para o conhecimento da história da nossa sociedade.

O folhetim é ambientado em São Paulo, capital, nas décadas de 20, 30 e 40 do Século XX, e tem, como linhas condutoras, a trajetória, os conflitos e as alegrias da família Lemos. Um enredo paralelo dentro da narrativa principal reflete os conceitos, os preconceitos e as interpretações sociais correntes, inclusive no que se relaciona as questões das doenças mentais.

A sociedade primava por um modelo burguês, tradicional e elitista. As atitudes machistas cerceavam a fala e o direito de a mulher se manifestar, mas, ainda assim já se faziam sentir os primeiros passos em busca da libertação e afirmação da personalidade feminina. Nesse enredo secundário estão envolvidos os personagens Emília, viúva rica, de personalidade amarga e conservadora, que apesar de amar sua primogênita Justina, se recusava a investir em novas terapêuticas recomendadas para o tratamento de problemas relacionados à psiquê humana como os que afligiam a moça; e sua filha Adelaide, a caçula que Emília mandara estudar na Europa na expectativa de que a jovem recebesse uma educação esmerada.

No campo científico, as décadas 30 e 40 do século passado foram marcadas por um interesse da Medicina pela área da Psiquiatria. A loucura passava a ser compreendida do ponto de vista patológico e não mais como manifestação dos desvios morais e religiosos dos seres humanos.  Nesse aspecto, o Estado de Sergipe comprovou interesse pelas novidades científicas e sediou, no ano de 1940, o II Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, coordenado pelo médico humanista sergipano João Batista Peres Garcia Moreno.

Considerado pelos pesquisadores em história da saúde como o primeiro evento médico científico ocorrido no estado, o evento caracterizou-se pelo seu caráter multidisciplinar, contando com a presença de personalidades nacionalmente reconhecidas da área médica, como também de juristas, pedagogos e sociólogos, além de vários representantes oficiais dos estados do Nordeste. Tudo isso rendeu notoriedade ao evento científico a ponto de os jornais locais já divulgarem o evento com meses de antecedência e sua repercussão ser citada na impressa do Rio de Janeiro, capital da República à época.

Assim como na novela, na vida real nos idos dos anos 40 a psiquiatria ainda era uma especialização médica com métodos questionados pelos intelectuais das ciências e também pela população em geral. Desse modo, o congresso em Sergipe, por ter envolvido vários setores da sociedade, serviu para fomentar a necessidade da cientifização das práticas médicas voltadas ao reconhecimento e procedimentos terapêuticos indispensáveis aos pacientes com transtornos mentais. Para além do círculo científico, serviu também como primeiro passo para a desestigmatização do tratamento psiquiátrico no estado.

Na construção de um paralelo entre a telenovela e o congresso científico ocorrido no Estado de Sergipe, identificamos duas ferramentas importantes para divulgação e conscientização da realidade social que circunda a enfermidade mental até a atualidade. São os seus diagnósticos e os seus tratamentos ao longo do percurso histórico relacionados ao trato da saúde mental dos indivíduos em nosso país. Acreditamos, portanto, que a divulgação de avanços nesse campo, seja através de veículos midiáticos sobre uma obra ficcional (telenovelas), como no exemplo de Éramos Seis, seja pela realização de eventos técnicos (congressos científicos), é um excelente fio condutor para a percepção da evolução histórica de um fenômeno social e dos preconceitos e tabus que o envolvem.

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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