Espionagem, inteligência e resistência

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Raquel Anne Lima de Assis
Mestranda em História Comparada pela UFRJ (PPGHC)
Bolsista Capes
Integrante do Grupo de Estudo do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Email: raquel@getempo.org
Orientador: Dr. Dilton Cândido S. Maynard (PPGHC/UFRJ-UFS/DHI)

Trabalho apoiado pelo projeto "Quando a Guerra chegou ao Brasil: Ataques submarinos e memórias nos mares de Sergipe e Bahia (1942-1945)", Edital Universal CNPq 2014

Quando falamos de agentes secretos saltando de paraquedas atrás das linhas inimigas, ou infiltrados através de disfarces, ou ainda utilizando dispositivos aparentemente inofensivos, mas que possuem poder de fogo, nos vem à mente filmes do tipo 007. Porém, eles existiram na vida real durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de agências de espionagem e inteligência que desenvolveram estas atividades durante o conflito. Tais serviços foram empreendidos por duas instituições (não somente elas): o “Special Operations Executive” (SOE), da Inglaterra, nascido em 1940, e o norte-americano o “Office Of Strategic Services” (OSS), surgido em 1941.

Ambas as agências empreendiam serviços de espionagem e inteligência para dificultar a ocupação do território pelo inimigo. Essas agências procuravam incentivar a resistência pela própria população local nos países dominados pelo Eixo, instigando ações de sabotagens e propaganda. Os britânicos e os americanos já possuíam, antes da II Guerra Mundial, uma variedade de órgãos de inteligência. Na Inglaterra havia o Secret Intelligence Service (SIS) (Serviço Secreto de Inteligência), desde 1909, liderado por um oficial com codinome “C”, desenvolvendo trabalhos clandestinos. Estes eram o MI5, para a contra inteligência e segurança, e o MI6 para coletar inteligência, além de setores militares responsáveis também por estes tipos de trabalho e propaganda.

Mas foi somente diante das derrotas contra os alemães na guerra que políticos, burocratas e espiões britânicos perceberam a necessidade de organizar os diversos mecanismos de sabotagem, propaganda e resistência em um único corpo para trabalhar no exterior de forma reconhecida. Surgiu assim o SOE, criado por Neville Chamberlain e liderado pelo diretor executivo Colin Gubbins, cujo codinome era “M”.

Já nos EUA, um órgão com tais funções de inteligência criado pela Casa Branca surgiu em 1941, chamado Co-ordinator of Information (Coordenação de Informação ou COI). Contudo, assim como na Grã-Bretanha, já havia outros órgãos de inteligência, como o Office of Naval Intelligence e o War Departament, que tinha o Military Intelligence Division, também conhecido como G2; e o FBI, encarregado de agir na América Latina a partir de 1940. Todavia, não havia análises de inteligência centralizadas ou coordenadas. Liderado pelo milionário William Joseph Donavan, a COI tinha o objetivo de coletar e analisar informações pertencentes à segurança nacional e foi o predecessor do OSS.

Da mesma forma que o SOE, esta agência surgiu em meio  a crises. Antes dos Estados Unidos entrarem na guerra em 1941, o presidente Franklin Roosevelt tentou se preparar para um possível conflito, pois, a ameaça do Eixo era iminente. Foi nesta ocasião que ele percebeu que seu sistema de inteligência era ineficiente. Os estadunidenses não possuíam informações para montar uma estratégia adequada na preparação para a guerra. Com a mudança de nome para Office of Strategic Services ou OSS, após a entrada do país no conflito, essa agência passou a agir na guerra clandestina; nos setores de pesquisas e análises; em ações de espionagem; em operações especiais; em inteligência secreta e em Grupos Operacionais, portanto, empreendimentos semelhantes ao SOE.

A informação de que na Noruega estava sendo produzida água pesada para a produção de uma possível bomba atômica alemã e os planos para evitar que isto ocorresse, bem como o isolamento da Bretanha em pleno desembarque da Normandia (Dia D), evitando a chegada de reforços alemães, mostram o papel desempenhado pelo OSS e pelo SOE. A utilização de suas ações em atividades de inteligência e de sabotagem foi estratégica e pensada como parte fundamental da vitória final dos Aliados.

Portanto, o “Special Operations Executive” e o “Office Of Strategic Services” empreenderam serviços de inteligência, sabotagem e propaganda através de espiões ou agentes secretos, como preferiam ser chamados. Eles eram treinados para criar e preparar movimentos de resistência em países ocupados pelo Eixo para dificultar o cotidiano das tropas e coletar informações para que pudessem ser utilizadas na montagem de estratégias militares. Como por exemplo, ensinava a colocar grãos duros, como arroz ou trigo em tanques de gasolina; como melhor posicionar atiradores em emboscadas; como danificar sistemas de comunicações, ferrovias ou estradas; como criar disfarces, manusear armas e aplicar técnicas de autodefesa; ou ainda como poderiam coletar informações das conversas dos oficiais em bares e café, entre outras ações.

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