Estamos todos perdidos.

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Ganhei de meu filho Machado, um aparelho de GPS, a grande novidade em termos de navegação e orientação, via satélite, em todo quadrante do planeta.

GPS, a sigla de Global Positioning System, ou sistema de posicionamento global, ou ainda geo-posicionamento por satélite, é um sistema de navegação, cuja facilidade de uso e obtenção, vem se tornando um utensílio indispensável ao transporte, ao movimento ao longo dos intrincados caminhos das nossas vias de comunicação.

 

Pelo GPS é possível estabelecer o melhor roteiro entre dois pontos, escolher as vias menos congestionadas, evitar as interrupções indesejáveis, solucionar problemas de desorientação, enfim todas as dificuldades inerentes à movimentação nas nossas ruas e estradas.

 

Como tudo que é novo, sempre há aqueles que desmerecem a sua utilidade. “Aracaju não precisa de GPS”, diz-me um conhecido, só porque ainda não tem o seu para utilizar.

 

Mas, perguntemos ao cidadão comum que queira ir da Rua Laura Fontes, para a Rua José Vernior no Bairro Pereira Lobo, depois para a Rua Monte Castelo no Bairro 18 do Forte, ou Carlos Gomes no Ponto Novo, ou ainda Jorge Ricardo da Rocha no Beira Mar II, Josadack Albuquerque no Santa Lúcia, Rua Fortaleza no Conjunto Miramar, ou algo parecido, próximo do Cemitério Colina da Saudade.

 

Um roteiro deste tipo estará necessitando de um taxista bastante experiente.

 

E mesmo assim, irá fundir a cabeça para arrumar o caminho sem se perder.

 

Com o GPS qualquer um consegue encontrar a melhor rota. É só programar o aparelhinho com os endereços certos de rua e número, que o satélite, usando uma voz deliciosamente feminina os localizará, e dirá todo o caminho a seguir sem a possibilidade de perder-se.

 

E mais: Se você se perder, dobrar indevidamente numa rua, bobear num cruzamento, numa alça de viaduto, o aparelho recalcula o seu roteiro, determinando imediatamente a sua localização e oferecendo a correção.

 

Navegação sem GPS é coisa do passado, igual à máquina de datilografia frente ao teclado do notebook ou o ifone, para atualizar notícias, responder mensagens e emails, e o ipad, mais avançado ainda, ferramentas milagrosas ao nosso dispor.

 

Mas, se na teoria é assim, na prática Sergipe como um todo, e Aracaju no particular, parecem ser o rabo teimando balançar o cachorro.

 

Quem quiser usar um aparelho destes para se orientar, irá cometer os maiores desatinos, porque as ruas existem, os mapas também, mas as vias aracajuanas, desatualizadas ao extremo, não determinam o sentido e a direção.

 

Ou seja, o GPS e a informática da modernidade se aplicados em Aracaju podem nos conduzir a dezenas de multas no trânsito.

 

E ainda dizem que estamos vivendo um tempo revolucionário! Em sorrisos de TV, talvez, em aplausos e bajulações, com certeza. Mas o GPS não diz assim. Senão vejamos:

 

Experimentando o novo aparelho, marquei uma viagem à Barra dos Coqueiros, partindo da Praia Formosa, onde resido.

Estou na ponte Construtor João Alves, mas o GPS só visualiza o Rio Sergipe.

 

Uma vez digitado o objetivo da viagem e o logradouro a atingir, o aparelho me localizou e estabeleceu o roteiro.

 

Imediatamente apareceu no visor a minha posição na Avenida Beira Mar, a mais oriental da cidade, no sentido Sul-Norte, tendo à direita o majestoso Rio Sergipe em azul puríssimo.

 

Uma voz feminina me ditou: “Prossiga na Avenida Beira Mar, por 800 metros, até a Avenida Augusto Maynard. Dobre à esquerda na Avenida Augusto Maynard”.

 

Por não entender o desvio sugerido, não segui a seta à esquerda recomendada no visor, continuei seguindo reto, agora pela Ivo do Prado em demanda à Ponte Construtor João Alves.

 

Não tive tempo nem de me questionar quanto a rota sugerida; virar para o poente, se desejo o nascente, por que?

 

Imediatamente a moça impoluta ditou: “Recalculando!”, firmando a nova ordem: “Continue pela Avenida Ivo do Prado por 500m e depois vire a esquerda na Avenida Barão do Maroim”

 

Aí a coisa ficou ruim, porque se eu dobrasse assim, à esquerda, em direção ao ocidente, eu iria infringir uma recomendação de trafego, determinação de algumas décadas já, cometendo a imprudência de tomar uma multa.

 

E eu não gosto de ser multado, daí muito aplaudir os nossos radares e lombadas eletrônicas, desejando que se reproduzam como coelhos, flagrando a cacete, quem só se educa no porrete.

 

Mas deixemos os radares, enquanto educativos cassetetes eletrônicos, e seus contumazes fregueses. Voltemos à nossa viagem.

 

“Recalculando!”, continua a moça biônica. “Continue pela Avenida Ivo do Prado por mil e tantos metros depois dobre à esquerda na Avenida ‘Coelhos’ e Campos”

 

Não dá, digo eu, mesmo com o coelho no plural: O mercado e o terminal rodoviário não deixam!

 

Sigo em frente e dobro a esquerda, quando a rua acaba na curva do mercado com o Bairro Industrial. Vejo agora o azul do Rio Sergipe ficar para trás no espelho e no monitor.

 

“Recalculando!”, diz a voz sem raiva, nem impaciente. “Siga em frente e dobre a esquerda na Avenida Antônio Cabral.”

 

Oh, que beleza! – digo eu. Estou aprendendo os nomes das Ruas de Aracaju. Porque os logradouros citados são vistos na tela, com seus limites e contornos.

 

Mas, volta a moça: “Continue na Avenida Antônio Cabral até a Avenida ‘Coelhos’ e Campos. Dobre à esquerda na Avenida ‘Coelhos’ e Campos!”. Haja coelhos!

 

Foi aí que eu vi o GPS desorientado. Se eu desejava atingir a Ponte João Alves eu teria que dobrar à direita na velha Avenida Simeão Sobral como o fiz, forçando a moça a recalcular tudo, agora me enviando para a João Ribeiro, bem adiante.

 

Ora, eu quero chegar à ponte e o GPS não quer deixar, igual àquele saudosista de tototó.

 

Mas o satélite orientador está bem mais saudoso, afinal o seu roteiro me remete para a saída da cidade, para a BR101, em visita a Maroim e Santo Amaro, pela estrada do Porto em busca da Ilha de Santa Luzia, o que não deixa de ser um longo caminho para a Barra dos Coqueiros.

 

Assim já é demais! Teria eu errado tudo!? – prossegui intrigado pela Rua Carlos Silveira, depois Conrado Araujo.

 

Eu não errara nada! Estava desvendado tudo!  Porque a rua acabou no monitor, sem que surgisse a Ponte João Alves.

Trafegando pela ponte João Alves que o GPS não a vê, estou  em plenas águas do Rio Sergipe como se pilotasse um carro anfíbio. No outro lado do rio vê-se a terra firme da Barra dos Coqueiros.

 

Pela telinha e sem qualquer alerta da moça, a ponte diante de mim era só miragem e eu iria fatalmente mergulhar no rio.

 

Mas,… Eureka! Eis a grande descoberta! Por obra e graça do geo-posicionamento por satélite, estou no meio do azul do rio, pilotando talvez um carro anfíbio, um avião, atravessando-o a pé enxuto, enquanto a moça perdida repetia: “Recalculando,… recalculando,… recalculando!”

 

Será por conta de sua modernidade e beleza que a ponte João Alves não cabe nos nossos mapas? Ou tudo é fruto obscuro de atraso e ignorância?

 

E aí eu me volto para a pergunta do invejoso conhecido que ainda não tem um GPS e desfaz do seu uso: “E em Aracaju alguém precisa de GPS?”

 

Pelo sim ou pelo não, é bom dizer que por aqui, e por causa dos homens daqui, orientados por um GPS, estamos todos perdidos.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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