Este dia de dor – Araripe Coutinho

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Araripe Coutinho

 

 

ESTE DIA DE DOR….

 

 

Que sábado é este de dor, esperança perdida, quando acreditávamos no Lennon – no sonho, na vida.

Que esperanças mortas… algumas vozes atrás da porta anunciando a morte. Mais um baleado, a moça do piercing parou o ônibus e disse: “pro fundo”. O imundo porco que se tornou o homem. O poço. A desesperança. E quantas vezes disse: “cuidado, frágil!”. “Esta parte pra cima”. Setas dizendo que posição deve viajar a  caixa. E o que adiantou? Algumas caras na tv falando de déficit, superávit – rascunhos da fome, insegurança povoada de soldados. Ninguém merece ganhar 300 reais – diz o meu vizinho com olhos grandes, já sem sonhos. Os jornais anunciam a morte do preto, pobre, desempregado como se fosse um anúncio de extrato de tomate. A passagem para dentro é sempre cara. Passaporte para a loucura. Passaporte para Rimbaud, Verlaine – para Frida Kahlo. Ninguém me disse que havia portas de emergência. Que a saída era pela escada. Agora é tarde. Vivo a enterrar todos meus mortos. Eu mesmo. E quando penso ser delicado, vem o riso de treva. A hora de pagar pelo corpo dormido. Indormido. E pode mesmo falar em justiça social, inclusão, direitos,  cidadania – tudo que essas palavras mortas queiram dizer. Deveria ser crime citá-las. Temos que reinventá-las. Substituí-las por pistolagem, injustiça, lata d´água na cabeça e vender a Escrava Isaura para a Europa para verem que o Brasil é campeão em desigualdade social – olha eu aí de novo! – falando a mesma coisa, a mesma palavra que deveria ser crime pronunciar. Gangrenados pedem esmola em frente à catedral. Deputado finge que vai dar um real a uma criança e brinca: você merece, leve aí o seu tusta. Tustão. Deveriam ser expulsas do dicionário todas as palavras amenas. Deveria só constar porrada, atropelo, inverdade, calúnia e a mais forte: piscinão de Ramos, orla de atalaia, ponte do imperador com uma placa: fechada. Hospitais deveriam fechar até substituir os médicos por cavalos. Postos do INSS deveriam receber o nome de Carandiru. Casa própria da Caixa Econômica deveria dizer porque se investiu tanto em casas para ricos. O papa deveria passar um fim-de-semana na zona leste de São Paulo, na Terra Dura em Aracaju. É mesmo natal. “Mas felicidade é brinquedo que não tem.” A delicadeza mata. Precisamos perdê-la. Definitivamente.               

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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