ESTELIONATO CONTRA A SOCIEDADE

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Dr.Antonio Celso Nunes Nassif
A coluna recebeu uma visita ilustre: a do Dr.Antonio Celso Nunes Nassif, que presidiu a Associação Médica Brasileira – AMB, por 4 vezes. Líder inconteste de uma categoria cada vez mais vilipendiada em seus direitos, tive a honra de acompanhar os seus passos e ser seu auxiliar na diretoria da AMB como Diretor Cultural. Dele guardo, com muito carinho e respeito, a mais absoluta reverência.

Pois bem. Nassif é um incansável, que se enquadra perfeitamente no aforismo de Bertolt Brecht, a dos “imprescindíveis”. Paladino na defesa das grandes teses que interessam não só a categoria médica mas toda a população brasileira, está mantendo na internet (não é fácil!) um site intitulado ESCOLAS MÉDICAS DO BRASIL, instrumento concreto que mostra o nível de irresponsabilidade que chegou o país no que tange a abertura indiscriminada de escolas médicas. Vale a pena conferir: www.escolasmedicas.com.br.

Nesse sentido, abro o espaço para publicar um artigo de sua autoria sobre o tema.

 

Antes, porém, alguns registros de interesse da categoria médica:

 

NOVOS IMORTAIS NA ACADEMIA SERGIPANA DE MEDICINA – Plenária da entidade reunida nesta quarta-feira, dia 21 de março, elegeu 4 novos membros imortais: os doutores Fedro Portugal, na cadeira 22 ( patrono: Dr.Aloysio Andrade); Jefferson Sampaio D’Avila, na cadeira 7 ( patrono: Carlos Firpo);José Geraldo Bezerra, na cadeira 10 ( patrono: Edézio Vieira de Melo) e Marcos Almeida, na cadeira 21 ( patrono: Abreu Fialho).

 

COOPERADOS UNIMED COM CRM MAIS REMOTO – Dentro da programação do 79º Cantinho da Arte da Unimed Sergipe, que acontece dia 2 de abril próximo, comemorando o Dia Mundial da Saúde, os 10 médicos cooperados da Unimed em atividade, com CRM mais “antigos”, receberão homenagens: são eles: Wellington Ribeiro Chaves, Sinval Andrade Santos, José Abud, Josefa Souza, José Augusto Bezerra, José Olino, Marquise Silveira, Adelino Carvalho, Antonio Leite Cruz e Agnaldo Fonseca.

 

MEDALHA DA ORDEM DO MÉRITO SERIGY – o médico e imortal da Academia Sergipana de Medicina Marcos Ramos Carvalho está sendo agraciado com a mais alta condecoração do poder público municipal: a Medalha da Ordem do Mérito Serigy, outorgada pelo Grão Mestre Prefeito Edvaldo Nogueira, em solenidade que acontece nesta sexta-feira, dia 23 de março. Curiosamente, o criador da honraria foi o também médico e acadêmico Cleovansóstenes Aguiar, na década de 1970, sob inspiração do seu Secretário de Governo à época, Luiz Pereira de Melo.

 

Mas vamos ao artigo do Dr.Nassif.

ESTELIONATO CONTRA A SOCIEDADE

Preocupa-me, sobremaneira, assistir o ensino médico ser transformado num verdadeiro negócio mercantilista sem que se vislumbre, por parte das entidades envolvidas no assunto, um horizonte menos sombrio.

 Como entender, por exemplo, que trinta dias atrás, o MEC, de uma só vez  autorizou por Portarias a criação de cinco novas escolas médicas – uma em Maringá/PR (sub judice), outra em Belo Horizonte e três em São Paulo. Como aceitar que, somente neste começo de século, o mesmo MEC autorizou a criação de 66 novos cursos, totalizando em todo o país 167 escolas médicas. Com isto, o Brasil está ostentando o título de “vice-campeão mundial de escolas médicas”, perdendo apenas para a Índia, mas colocando-se à frente da China com 150 e dos EUA que têm 125 inalteradas há alguns anos. Como imaginar ser possível á esses novos cursos garantir a qualidade do ensino, a maioria, sem professores habilitados, sem hospitais.

 Nosso país caminha para o que os EUA passaram em 1906 com 160 escolas de medicina, sem currículo regulamentado, sem corpo docente qualificado, mercantilizando o ensino médico. Algumas até vendiam diplomas. Diante desse quadro dantesco, as autoridades daquele país tomaram uma posição. A Fundação Carnegie para o Avanço do Ensino foi buscar em Abraham Flexner, não médico, professor de grego a  pessoa indicada para a missão de resolver esse grave problema. Flexner, de 1906 a 1910 visitou,  uma a uma das 160 escolas médicas e, ao final, elaborou um extenso relatório, que se consagrou como o famoso Relatório Flexner. Suas proposições foram seguidas à risca durante 23 anos e em 1933 já tinham sido fechadas 94 escolas, reduzindo drasticamente esse número para 66.  Durante esse período, Flexner chegou até ser ameaçado de morte por setores afetados pelo seu trabalho. A repercussão foi tamanha que o ano de 1933, quando a última escola foi fechada, tornou-se um marco no país. As escolas, então, passaram a ser confiáveis, oferecendo as inafastáveis garantias de qualidade de ensino da medicina. Foi estabelecido, também, que a licença para a prática da medicina na América do Norte somente seria concedida após um processo de aferição da capacitação e a aprovação do médico no State Board.

 Desta forma, é urgente uma tomada de posição das entidades de classe e do Congresso Nacional. A única saída, do momento, é exigir a suspensão da criação de novos cursos de medicina pelo menos por cinco anos, enquanto se organiza e legaliza critérios mínimos para abertura de escolas e com eles proporcionar a avaliação das já existentes e funcionando com o propósito de recuperar as escolas deficientes. Ao mesmo tempo, os vestibulares e novas matriculas naquelas que não atendam aos requisitos mínimos ou que sejam comprovadamente irrecuperáveis seriam suspensos.

 Saulo Ramos, quando Consultor Geral da República em 1988 já dizia em um de seus pareceres: “Não se pode permitir, isto sim, o desabamento da estrutura do ensino brasileiro, com a instalação de cursos de medicina sem mínimos recursos, sem hospital na região, sem corpo docente, sem bisturi. O dever do estado é ministrar a educação e, no curso superior, assegurar o conhecimento cientifico que irá, efetivamente, beneficiar a comunidade. O simples diploma não cumpre esta finalidade, antes, seria um estelionato contra a sociedade e uma grave lesão à teologia constitucional.”.

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Dr. Antonio Celso Nunes Nassif, 72, médico, professor adjunto e livre docente da UFPR. Foi presidente da Associação Médica Brasileira

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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