Estrelas não brilham sozinhas…

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“No futuro, a fonte das realizações humanas não serão as pessoas extraordinárias, mas a combinação extraordinária de pessoas, seja nos negócios, seja na ciência, seja na política ou nos esportes”.

Robert Hargrove (in Colaboração Criativa, 1998)


Antes de acontecer o jogo Brasil x França perguntei a vários amigos meus “especialistas” em futebol quais seriam as nossas possibilidades. Não sou muito fã de futebol, todavia durante a Copa do Mundo não consigo ficar alheio ao que acontece com as pessoas e com o país e, certamente, sou afetado pelo sentimento de brasilidade terminando por me sentir totalmente envolvido pelo clima “prá frente Brasil!”.

 

Todavia, por conta do meu trabalho em ajudar equipes a se desenvolverem do ponto de vista atitudinal, sempre termino por ficar levantando fatos e analisando o que está acontecendo. Assim sendo, durante a partida da seleção brasileira levantei os seguintes fatos:

ü       Um time de estrelas de primeira grandeza;

ü       Atletas preparados e jovens;

ü       Profissionais muitos bem pagos;

ü       A maioria celebridades;

ü       Muitos deles ganham em um mês o que milhões de brasileiros torcedores não ganharão em toda a sua vida;

ü       Cordiais, alegres e educados;

ü       Impressionante como o seu moral transparecia baixo durante a partida;

ü       Como se deixaram dominar facilmente pela equipe de jogadores franceses;

ü       Treinar em um ambiente de conto de fadas;

ü       Um treinador “paralisado” fora do campo’;

ü       Um treinador que afirma publicamente que não estava preparado para perder;

 

Finalmente a grande pergunta: “Como poderemos garantir uma vitória se não estamos preparados para saber que poderemos perder?”.

 

Qualquer preparador de um time seja ele qual for precisa encarar essa realidade e também precisa preparar a sua equipe não apenas tecnicamente – mas, principalmente, emocionalmente[1]. Como poderemos ter a gana, a vontade imbatível de ganhar se não estamos alertados que poderemos também perder? Como pode uma equipe seja de jogadores, seja de uma empresa entrar em um desafio sem considerar uma possibilidade que uma coisa poderá dar errada?

 

Essa é uma regra básica das grandes corporações quando, por exemplo, traçam o seu planejamento estratégico: um cenário otimista (de vencedor), um cenário realista, ou seja, um futuro desejado, mas não assegurado e, finalmente, um cenário pessimista (a possibilidade, mesmo não desejada de perder). Só procedendo desta forma é que poderemos sentir aquele chamado “friozinho na barriga” que nos faz lutar até o impossível para não entregarmos os pontos.

 

Todas as pesquisas sobre potencial humano afirmam isso; todas deixam isto claro: ”É preciso preparar emocionalmente os talentos, os líderes, os executivos para que estejam prontos e possam enfrentar as diversas realidades da vida e, até mesmo para perder”.

 

Só afirmar que se trata de um jogo, que um ganha e outro perde, não é uma resposta eficaz. A vida do brasileiro normal é um jogo diário, de forma que muitos ao sair da sua casa arriscam até a sua própria vida; mesmo assim eles não deixam de trabalhar, não deixam de produzir e não deixam, principalmente de lutar.

 

Em vários momentos da partida se constatava que as “estrelas” mais pareciam que estavam com chuteiras de chumbo, que estavam dominadas pelo medo e que estavam aterrorizadas com a realidade do mundo real para a qual não estavam preparados: “a possibilidade de perder”.

 

Mas, o que quero dizer com isso não é que teríamos que ser os hexa-campeões, o que quero dizer com isso é que todo esse processo deve servir como um aprendizado, não apenas para o treinador, para os jogadores, para a equipe da seleção, mas principalmente para cada cidadão brasileiro, seja em que nível social esteja.

 

Qual é o objetivo da sua vida? Que “copa” você quer ganhar? E como você está se preparando para vencê-la? Lembro que quando dava aulas no Curso de Administração da FSL[2] sempre alertava aos meus alunos: “Só o diploma não adianta nada, se você não se preparar verdadeiramente tanto do ponto de vista técnico, como no seu atitudinal. Para vencer, só desejar não é o suficiente, é preciso lutar muito, ser muito persistente e saber – principalmente – que pode perder que irá fazer a diferença”.

 

Portanto, a competitividade do mundo real não é brincadeira. Para alguém vencer alguém tem que perder, essa é a regra da vida, não dá para pensar que basta ser brasileiro, ser uma estrela do futebol pentacampeão mundial, vestir verde e amarelo, dar feriados no Brasil, rezar para ganhar que a copa está garantida.

 

O que garante o sucesso de um time dos sonhos além da sua preparação técnica é a sua motivação interior[3], aquilo que nos faz até enfrentar uma multidão se for preciso; esse apelo emocional – infelizmente – faltou ao nosso time. Coisas da vida!

Mas, que experiências, que ganhos poderemos ter com isso para aplicarmos em nossas vidas pessoais, profissionais ou empresariais? Isso sim irá fazer a diferença. Além do mais, os erros servem para alguma coisa. E sempre precisam servir para serem utilizados como oportunidades de acerto no futuro.

 

Finalmente, mais do que o desejo de ganhar é preciso ter paixão pela causa! Mais do que ter paixão pela causa é preciso lembrar que as estrelas não brilham sozinhas. Elas precisam dos milhões de outras estrelas que compõem a beleza do universo. Esse conjunto encanta a humanidade a milhares de anos.

 

 

(*) Fernando Viana

Presidente da Fundação Brasil Criativo

fbcriativo@fbcriativo.org.br



[1] Está mais do que comprovado, hoje em dia, que dezenas de executivos de desempenho fantástico foram demitidos de suas corporação por não serem emocionalmente desenvolvidos.

[2] Cadeira Gestão da Criatividade no curso de Administração de Empresas.

[3] Resultante do seu desenvolvimento emocional.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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