Faroeste Caboclo

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Andreza Santos Cruz Maynard
Doutoranda em História UNESP
Grupo de Estudos do Tempo Presente –  GET/CNPq

No último dia 30 de maio de 2013 foi lançado nos cinemas de todo o país o filme “Faroeste Cabloco”. Não apenas os entusiastas do cinema nacional esperavam a exibição desta produção, mas também os fãs da banda brasileira de rock, Legião Urbana. Ocorre que o drama, com 1h40min de duração, foi inspirado na música de mesmo nome composta por Renato Russo. Dirigido por René Sampaio, o filme conta com um elenco conhecido pelo público (de televisão), a exemplo de Fabrício Boliveira (João do Santo Cristo), Ísis Valverde (Maria Lúcia), Felipe Abib (Jeremias), e outros nem tão conhecidos como César Trancoso (Pablo).

Seguindo a narrativa da música, o filme conta a história de João, um rapaz negro e pobre que deixa o interior da Bahia e segue para Brasília, esperando encontrar alguma oportunidade de trabalho. Conhecido como “João do Santo Cristo”, uma menção ao lugar de onde veio, ele conta com a ajuda de seu primo Pablo, um traficante. João se divide entre o trabalho numa carpintaria e o envolvimento com o tráfico de drogas. Ao conhecer a bela, branca e rica, Maria Lúcia, João se apaixona.

Os dois vivem um romance conturbado. As razões para mantê-los distanciados são muitas, a começar pela cor e condição social dos dois. Além disso, Maria Lúcia é contra o envolvimento de João com o tráfico, muito embora não dispensasse qualquer cigarro de maconha. O playboy e traficante Jeremias, também se tornou uma pedra no sapato de João. Os dois entram numa guerra pelo tráfico de drogas e pelo amor de Maria Lúcia.

As opções estéticas de filmagem lembram tomadas clássicas dos filmes hollywoodianos de faroeste. O posicionamento da câmera evidencia detalhes como os rostos dos protagonistas durante os enfrentamentos. Isso deixa o público no mesmo campo de visão que os atores, revelando detalhes de expressão facial como o franzir da testa e a respiração ofegante dos mesmos. Já a câmera baixa evidencia a bota e o rifle, mas também mostra o deslocamento lento, destemido e confiante do personagem.

Há muitos cenários externos, locações em planícies e até mesmo florestas remetem aos exemplos das produções norte-americanas. Os confrontos entre os personagens geralmente ocorrem em ambientes abertos. As roupas como o jeans apertado, jaqueta de couro e bota que o (anti) herói João do Santo Cristo trajava, receberam um destaque especial nas tomadas. A arma “Winchester”, que João ganhou de Pablo é um item imperativo aos filmes de faroeste. Faltaram os cavalos, meio de transporte indispensável para os cowboys, mas sobraram carros. Como a história do filme se passava na Brasília dos anos 1980, foi mais conveniente adotar automóveis característicos do período.

Essas convenções visuais ofereceram a moldura dentro da qual a história de “Faroeste Cabloco” foi contada. Evidentemente a equipe que produziu o filme quis remeter aos clássicos hollywoodianos. No entanto o “mocinho” da produção brasileira não tem sido uma unanimidade. Mesmo diante do curto período em que o filme está em exibição, os críticos apontam que o público tem se identificado mais com o personagem Jeremias do que com João.

A justificativa mais imediata poderia ser o pouco carisma apresentado por João na tela. Diante de todas as desgraças que a vida havia lhe colocado, ele não tinha muitas razões para rir, consequentemente não conquistou a simpatia da audiência. Contudo é preciso destacar que nos clássicos hollywoodianos, o cowboy é branco. Nesse sentido, a adaptação experimentada em “Faroeste Cabloco”, pode ter gerado algum incômodo de ordem, digamos, “estética”, junto ao público.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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