Fascismo e fanatismo

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Que diferença tem uma mulher ser condenada à morte por defender maior participação do Estado na resolução de problemas públicos e outra que foi condenada por expressar sua insatisfação de minoria religiosa? Ambas são vítimas de sociedades hipocritamente conservadoras, embora a maioria nesses lugares não admita isso – e não admitir pode ser levar a discordância, em nome de suas verdades, às últimas consequências.  A primeira quase morreu com um tiro na cabeça, a segunda pode morrer a qualquer momento na forca.

Uma mulher é a deputada democrata moderada Gabrielle Giffords, do conservador estado do Arizona, sul dos Estados Unidos, que ousou ser favorável à reforma da Saúde do governo do presidente negro Barack Obama. Sofreu um atentado, no qual morreram seis pessoas, inclusive um juiz e uma menina, perpetrado por um fanático simpático à reação nacional ultra-direitista que tem como referência o Tea Party, movimento de nome singelo encabeçado pela presidenciável fascista Sarah Palin. Esses radicais seguidores do Deus Mercado acham que até o governo é uma instituição dispensável, quanto mais o Estado.

A outra mulher chama-se Aasia Bibi, uma cristã em meio à maioria muçulmana do Punjab, norte do Paquistão. Ela foi condenada à forca porque discutiu com seguidoras de Maomé que não aceitaram um copo d’água por ela lhes oferecido. Seria impuro. A condenação ganhou projeção internacional quando o governador daquele estado, Salmaan Taseer, ao defendê-la, acabou sendo assassinado. E a maioria do miserável lugar acha que assim está sendo feita a justiça, porque ela e ele blasfemaram contra o profeta. Embute-se nessa questão um problema de casta, já que a minoria cristã é considerada raça inferior no Paquistão – como em quase todas as nações islâmicas.

Nos Estados Unidos, um país belicista, imperialista e intolerante com os mais fracos e oprimidos, os ânimos reacionários estão mais exaltados desde que o negro chegou à presidência. E o vacilante Obama tem sofrido o diabo, inclusive ameaças públicas de morte disseminadas até por uma rede de televisão, a Fox News. Um parêntese: engraçado como eles toleram essa “liberdade de expressão”, no entanto, não engolem as revelações feitas pelo WikiLeaks. Mas essa é outra história…

No mundo muçulmano, recrudesceu a reação a tudo o que cheire a cultura ocidental, inclusive à fé professada por Jesus Cristo, desde que os heróis americanos decidiram que o islamismo é um mal que precisa ser, se não extirpado, pelo menos subjugado no Oriente Médio e adjacências. Em nome do Deus que alimenta a sua máquina de guerra. E em nome de outros interesses econômicos inconfessáveis, notadamente aquele subsolo rico em ouro negro.

Em ambos os lados há uma dose forte e amarga de fanatismo, todos se julgando soldados servindo à luta pelo Bem: no movimento da Jihad islâmica versus os “infiéis do ocidente”, na “guerra aos terroristas” do ocidente cristão ou no ataque covarde àqueles que ousem ameaçar o american way of life. Puro maniqueísmo.

O fanático não assume responsabilidade, age movido por algo realmente grande, um Senhor, em nome do qual ele pode tudo. E se há um culpado, que seja sua vítima: a culpa pelo genocídio nazista era dos próprios judeus gananciosos por dinheiro; os judeus também não se responsabilizam pelos atos criminosos de Israel contra os palestinos ditos terroristas; assim como os americanos torturam em Guantánamo em nome de uma causa maior, a defesa da humanidade. Mas o fascista não é necessariamente nazista. Umberto Eco esclarece que, enquanto o nazista é obcecado pela raça pura, o fascista é pelo comando total das pessoas, que perdem suas liberdades.

O mundo fanático foi dividido entre “os eleitos” e os que continuam nas trevas e que precisam ser salvos ou serem combatidos por todos os meios, pois “são forças do mal”, como observa o professor Raymundo de Lima, doutor em Educação pela USP, no artigo “O fanatismo religioso entre outros”. “O fanatismo é sustentado por sistema de crença delirante, psicótico, dominado por uma autoridade absoluta e invisível (Deus ou a causa da ‘supremacia da raça ariana’, ou a ‘missão do povo judeu’, ou ‘a Jihad islâmica’, ‘ou salvar o mundo do diabo’, enfim, um significante posto no lugar ‘absoluto’ que comanda a ação do grupo fanático etc.”

O fanatismo é a intolerância extrema para com os diferentes, prossegue ele. “Um evangélico fanático é incapaz de diálogo e respeito para com um católico ou um budista. Um fanático de direita não quer diálogo com os de esquerda. Organizações como a Ku Klux Klan são intolerantes igualmente com negros adultos, mulheres e crianças”. E conclui: “Por isso se diz que há em cada fanático um fascista camuflado, pronto para emergir em atos de exclusão e eliminação”.

Mas enquanto o fascista “quer o poder pelo poder”, há o fanático “autêntico” que anseia dominar o mundo com sua crença, e o “fanático terrorista” que deseja “apenas” destruir a estrutura de sustentação do inimigo. E ambos, o fascismo e o fanatismo, não são compatíveis com a democracia. Pregam a intolerância multirreligiosa, o preconceito cultural e racial, o incitamento ao ódio, e usam o direito de se expressar e se mover, o espaço de liberdade democrática para espalhar sua crença e sua antipatia e seu rancor ao considerado dessemelhante.

Tão fanáticos são os terroristas suicidas muçulmanos, ou os que perseguem os que não rezam pelo Alcorão, como o são os fundamentalistas cristãos norte-americanos, que atacam clínicas de abortos, perseguem homossexuais, proíbem o ensino da teoria evolucionista de Darwin, obrigando aos professores ministrarem a doutrina criacionista tal como está na Bíblia. E cada um se sente o escolhido para cumprir uma missão especial, normalmente designada pelo seu Deus.

E aqui, aproveitando Eco, vale citar Roosevelt (4 de novembro de 1938): “Arrisco-me a afirmar que, se a democracia americana deixar de existir como uma força viva, procurando dia e noite melhorar a sorte de seus cidadãos por meios pacíficos, o fascismo ganhará força em nosso país.” Sábias palavras.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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