A coragem de Malu Gaspar diante do silêncio das instituições

Há momentos na história do jornalismo em que uma caneta pesa mais que um gabinete inteiro. E é exatamente isso que estamos vendo agora com a jornalista Malu Gaspar. Em um país onde muitas vezes o silêncio institucional vale mais do que a verdade, ela resolveu fazer o que o bom jornalismo manda: investigar, perguntar e publicar. E não estamos falando de qualquer investigação. Estamos falando de questionamentos que alcançam o topo do poder, inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal. Em tempos de cautela exagerada e medo de processos, isso exige coragem. Coragem mesmo.

O curioso é que, em vez de responder às perguntas, parte do sistema parece preferir atacar quem pergunta. Em redes sociais e bastidores políticos, já se fala até em “prisão de jornalista”. Ora, vamos com calma. O Brasil ainda é uma democracia. E democracia pressupõe algo básico: jornalista pode investigar poder. Se começarmos a discutir prisão de repórter por fazer reportagem, então não estaremos mais discutindo jornalismo, estaremos discutindo censura. E aí o problema deixa de ser Malu Gaspar e passa a ser o estado da liberdade de expressão.

Aqui vai uma confissão pessoal de editorialista: eu sou fã da Malu Gaspar. Sim, fã mesmo. Pela coragem, pela apuração e pela disposição de enfrentar o sistema. Se eu fosse mulher e jornalista, eu diria sem nenhum constrangimento: gostaria de ter a coragem profissional dela. Porque investigar poder de verdade não é escrever coluna confortável. É entrar em território minado. É enfrentar pressão, críticas, ataques e até ameaças veladas. E mesmo assim seguir publicando.

E por que o trabalho dela incomoda tanto? Porque as reportagens encostam em temas sensíveis que envolvem nomes poderosos como o ministro Alexandre de Moraes, o ministro Dias Toffoli e o ministro Flávio Dino. Quando o jornalismo começa a olhar para cima, para o topo da pirâmide institucional, o desconforto aparece. Sempre aparece. É assim em qualquer democracia do mundo. A diferença é como as instituições reagem.

Em muitos países, uma denúncia séria gera investigação imediata, esclarecimentos públicos e transparência institucional. Aqui no Brasil, frequentemente o que vemos é uma espécie de blindagem corporativa. Ninguém quer falar, ninguém quer explicar, ninguém quer abrir as portas para esclarecer os fatos. E isso não protege a Justiça. Pelo contrário: isso desgasta a imagem das instituições e joga dúvida sobre todo o sistema judicial.

E o problema não é pequeno. O Judiciário brasileiro enfrenta hoje uma crise de percepção pública que não nasceu ontem. O cidadão comum olha para decisões, privilégios e salários e simplesmente não consegue entender o que está acontecendo. Enquanto grande parte da população vive com salário mínimo, surgem notícias de magistrados recebendo valores milionários com penduricalhos e verbas extraordinárias. Isso cria um abismo entre a Justiça e a realidade da sociedade.

Falando em penduricalhos, esse é outro capítulo surreal da novela institucional brasileira. Auxílio disso, auxílio daquilo, gratificações acumuladas, pagamentos retroativos. Em alguns casos, cifras que ultrapassam centenas de milhares ou até milhões de reais. É o tipo de notícia que faz o cidadão olhar para a tela e perguntar: “Isso é sério mesmo?”. Parece uma realidade paralela, como se parte da elite institucional estivesse vivendo em outro planeta.

E aí entra a famosa fala da juíza Cláudia de Oliveira, que acabou virando símbolo dessa desconexão entre parte da magistratura e a realidade do país. Segundo ela, o juiz também precisa tomar café, precisa ter carro, precisa colocar gasolina, precisa financiar seu automóvel para ir trabalhar no fórum e, portanto, necessitaria desses chamados “penduricalhos” para sobreviver. O argumento, no entanto, causa perplexidade quando confrontado com a realidade brasileira. Afinal, o teto constitucional do magistrado gira em torno de cerca de 46 mil reais, mas os penduricalhos, gratificações, auxílios e pagamentos retroativos em alguns casos fazem a remuneração ultrapassar 100 mil ou até 150 mil reais mensais ou mais, pois vemos juízes, procuradores, desembargadores e conselheiros receberam mais de um milhão mensal. Enquanto isso, milhões de brasileiros vivem com um salário-mínimo tentando justamente pagar o café, a gasolina e o financiamento do carro. É aí que o contraste se torna gritante e o debate sobre privilégios no Judiciário volta ao centro da arena pública.

Por isso o trabalho de jornalistas que investigam o poder é tão essencial. Não importa se a investigação envolve políticos, empresários ou ministros de tribunais superiores. O princípio é o mesmo: poder precisa ser fiscalizado. Quando a imprensa deixa de investigar o topo do poder, ela deixa de cumprir sua função democrática. E quando jornalistas são atacados por fazer perguntas, algo está profundamente errado.

O caso que envolve discussões sobre o banco Master, relações institucionais e bastidores do Judiciário apenas reforça essa sensação de que há muito a ser esclarecido. Pode ser que investigações concluam que tudo estava dentro da legalidade. Pode ser. Mas isso precisa ser demonstrado com transparência, não com silêncio institucional. Democracia não funciona na base do “confie em mim”. Democracia funciona na base da prestação de contas.

E aqui está o ponto central deste editorial: críticas ao Judiciário não são ataques à democracia. Pelo contrário. Instituições fortes suportam escrutínio público. O que enfraquece as instituições é a sensação de privilégio, blindagem e distância da realidade social. Quando o cidadão começa a acreditar que existe um sistema acima da lei, a confiança na Justiça começa a ruir. E recuperar essa confiança depois é muito mais difícil.

Por isso, neste momento, é preciso reconhecer o papel de jornalistas que continuam investigando, mesmo sob pressão. A coragem profissional de Malu Gaspar representa algo maior do que uma reportagem específica. Representa a essência do jornalismo: questionar o poder. E, gostem ou não os incomodados, essa é uma função indispensável em qualquer democracia. Porque quando o poder deixa de ser questionado, a verdade costuma ser a primeira vítima.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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