A política sergipana tem personagens que parecem saídos de um roteiro que mistura novela rural com comédia de bastidor. Anderson de Zé das Canas é um desses. Figura exótica no melhor sentido da sobrevivência eleitoral, dono de um estilo que desafia a consultoria de imagem e abraça a autenticidade sem pedir desculpa. Chapéu feio, paletó por cima de camisa polo fechada até o gargalo e uma confiança que não cabe na estética. Em um mundo de políticos padronizados, ele é praticamente uma afronta visual com CPF eleitoral.
Mas não se engane pelo figurino. Anderson não é só personagem, é problema político real. Está no jogo para deputado federal e, gostem ou não, tem o que mais pesa nesse tipo de disputa. Voto, dinheiro e disposição. Dizem nos bastidores que vendeu fazenda, que está capitalizado e que vem para a eleição com aquela combinação que deixa qualquer dirigente partidário com insônia. Quando aparece alguém assim, não é mais questão de simpatia. É questão de onde encaixar antes que vire dor de cabeça.
E é exatamente aí que entra o governador Fábio Mitidieri, naquele modo clássico de quem está tentando montar um quebra cabeça com peças que não param quietas. Conversa com Anderson, conversa com André Moura, conversa com todo mundo e, no fim, a impressão que fica é simples. Está mais reagindo do que liderando. Não sabe se abraça Anderson, se acomoda, se empurra para outro partido ou se finge que não é com ele. Política sem decisão vira dança de cadeira. E cadeira vazia alguém ocupa.
Enquanto isso, aparece Marcos Franco querendo impor condição, como se estivesse escolhendo elenco de filme. A pergunta que ecoa nos bastidores é direta e sem maquiagem. Marcos Franco tem voto para barrar alguém? Porque na prática, não tem. É muito mais discurso do que densidade eleitoral. E política proporcional não se resolve com opinião. Se resolve com número. Quem não soma, assiste. E tentar barrar quem soma muito é quase um ato de coragem ou de desespero.
Em Laranjeiras, o cenário ajuda a desmontar ainda mais essa tese. O prefeito Juca de Bala até pode dizer que apoia Marcos Franco, mas aquele apoio tem prazo, limite e pouca empolgação. Na prática, o grupo já está espalhado. Vereadores com Fábio Reis, outros nomes buscando caminhos mais seguros e o próprio prefeito olhando para o projeto familiar. O foco é o filho, é Antônio de Juca de Bala, é o controle local. Marcos Franco entra nessa equação como figurante de luxo, não como protagonista.
E falando em Petinho, prefeito de Riachuelo, esse não está nem aí para esse debate de quem entra ou quem sai. Está jogando o jogo dele, olhando para frente e deixando claro que não vai segurar ninguém dentro de partido para fazer média. Quem quiser sair, sai. Quem quiser ficar, que entregue. É a política prática, sem romantismo. Enquanto uns discutem composição, outros já estão pensando em resultado.
Voltando a Anderson, o fato é que ele virou a peça que mexe o tabuleiro. Fica, não entra gente. Sai, abre espaço. Vai para o PSD, muda a conta. Permanece onde está, trava articulação. É aquele tipo de candidato que não precisa ser o mais votado para ser decisivo. Basta estar no lugar certo para bagunçar a matemática. E isso, em eleição proporcional, vale tanto quanto voto direto.
No fim, Sergipe assiste a mais um daqueles momentos em que o personagem mais improvável vira o centro da estratégia. Anderson, o exótico, com seu chapéu e seu estilo inconfundível, virou variável de cálculo político. O governador ainda tenta entender como resolver. Marcos Franco tenta parecer relevante. E o resto observa. Porque na política, meu amigo, não vence o mais bonito, nem o mais elegante. Vence quem entra no jogo com voto, estrutura e coragem para bancar a própria candidatura. E nisso, goste ou não, Anderson está jogando para valer.