A política sergipana viveu um daqueles fins de semana que fariam qualquer roteirista de comédia política pedir direitos autorais. De repente surgem fotos, conversas, jantares e reencontros entre o governador Fábio Mitidieri e André Moura. Os bastidores ficaram em polvorosa e a pergunta correu solta nos cafés políticos de Aracaju e do interior. Por que só agora essa reaproximação virou prioridade absoluta? A resposta mais repetida nos corredores do poder é simples e até um pouco constrangedora para o Palácio. O governador finalmente percebeu que o tabuleiro de 2026 não é aquele passeio de domingo que alguns imaginavam. E pior. Descobriu que sem André Moura o caminho pode ficar bem mais acidentado.
André Moura nunca foi apenas um coadjuvante na história da eleição de 2022. Foi um dos principais engenheiros da vitória. Prefeitos foram mobilizados, lideranças foram alinhadas e o interior foi costurado com uma habilidade política que poucos possuem. O próprio Fábio Mitidieri já reconheceu publicamente que chegou ao governo com ajuda decisiva dessa engrenagem articulada por André Moura. Em política isso tem um nome clássico. Estrutura. Aquela coisa que não aparece em propaganda eleitoral mas que faz eleição acontecer. O problema é que depois da posse essa engrenagem começou a ser tratada como se fosse peça decorativa. E foi aí que a matemática política resolveu andar sozinha, como costuma acontecer quando a política começa a escapar do roteiro oficial. Prefeitos que orbitam o campo governista passaram a demonstrar simpatia cada vez menos discreta pelo senador Alessandro Vieira na disputa pelo Senado. Em várias cidades importantes do estado esse movimento já deixou de ser sussurro de bastidor e virou conversa pública. O prefeito continua tirando foto com o governador, corta fita, sorri para a câmera, mas quando o assunto é Senado o tom da conversa muda completamente. Em política isso lembra muito casamento em crise. O sorriso na foto continua, mas o relacionamento já está em observação.
Há um detalhe curioso que não passou despercebido nos bastidores e que alimenta boa parte das conversas políticas do momento. Até agora a primeira-dama Érica Mitidieri, a irmã do governador Maísa Mitidieri, o pai Luiz Mitidieri e o primo Cláudio Mitidieri ainda não declararam publicamente apoio à candidatura de André Moura ao Senado. Esse silêncio chama atenção porque historicamente o grupo familiar sempre manteve proximidade política com Alessandro Vieira. Em política silêncio também comunica, e muitas vezes diz mais do que um discurso inteiro. Enquanto isso Alessandro segue fiel ao seu estilo. Caminha sozinho, decide sozinho e não demonstra grande preocupação em pedir autorização política para ninguém. Nos bastidores a leitura é direta. Quando a família ainda não falou, o recado ainda não está completamente dado.
Do outro lado do tabuleiro surge um elemento que começa a provocar suor frio em algumas salas climatizadas do poder. O crescimento político de Valmir de Francisquinho. E agora aparece uma variável nova nessa equação. A possibilidade de Priscila Felizola compor como vice em uma eventual chapa liderada por Valmir. Isso muda bastante o cenário. Priscila traz identidade, força feminina, presença institucional e ainda quebra a narrativa de que o campo oposicionista seria dominado apenas por lideranças tradicionais masculinas. Uma chapa com Valmir e Priscila mexe com a política sergipana porque mistura popularidade com representatividade.
Enquanto isso André Moura segue fazendo o que sempre soube fazer bem. Articulação. Conversa com prefeitos, mantém pontes com lideranças regionais e demonstra uma capacidade política rara. Moura conhece o mapa eleitoral do estado como poucos. Sabe onde estão os votos, sabe onde estão as lideranças e sabe também onde estão os silêncios estratégicos. Não é por acaso que quando seu nome aparece em uma conversa política muita gente presta atenção. Alguns por respeito e outros por prudência.
É justamente por isso que agora cresce a pressão para que o governador faça um movimento claro de compensação política. Se André Moura é peça fundamental nesse tabuleiro, então precisa ser tratado como tal. E isso significa exigir que prefeitos importantes da base que já demonstraram simpatia por Alessandro Vieira ou até por Rogério Carvalho revejam suas posições e incluam Moura no jogo de apoios. Porque se cada aliado começar a escolher seu próprio candidato ao Senado o governo corre o risco de parecer uma federação de vontades individuais.
E aí entra mais uma ironia dessa novela política. O senador Rogério Carvalho não parece muito interessado em discutir alinhamento com o governo estadual. Em suas declarações públicas ele repete quase como um mantra. Eu estou com Lula e sigo o que Lula decidir. Traduzindo para o português político. A prioridade de Rogério é a própria campanha e o projeto nacional. Diante disso o governador começa a perceber algo que talvez devesse ter percebido antes. Em política alianças precisam ser cultivadas antes que a eleição comece. Porque quando a campanha chega, o tempo de corrigir rota costuma ser bem mais curto do que o necessário.