Em Nossa Senhora do Socorro, o dia já não começa quando o sol nasce. Começa quando a água resolve aparecer. Há famílias que dormem com um ouvido no travesseiro e o outro na torneira, esperando o ruído tímido que anuncia alguns minutos de abastecimento. Lava se roupa à meia noite, enchem se baldes à uma da manhã, toma se banho às duas e cozinha se quando a pressão permite. O cidadão passou a organizar sua rotina não pelo relógio, mas pela misericórdia do encanamento. Isso não é normalização gradual, expressão elegante inventada para comunicar que ninguém sabe quando a água chegará. É humilhação cotidiana. Quando uma mãe precisa escolher entre dormir e abastecer a casa, não existe apenas um defeito hidráulico. Existe um governo que perdeu a noção de dignidade.
A crise desta semana não caiu do céu. Em 24 de agosto, dois rompimentos numa adutora de água bruta interromperam a produção destinada a Socorro. A Deso informou que concluiu os reparos e religou gradualmente as bombas, mas produção retomada não significa água na torneira. É preciso recompor reservatórios, recuperar a pressão e fazer o abastecimento alcançar os bairros mais distantes. Socorro já vinha sofrendo com reduções, manutenções corretivas e interrupções no Sistema Ibura. No início de agosto, uma nova adutora de 4,9 quilômetros foi interligada à rede, com a promessa de ampliar em cerca de 30% a capacidade de distribuição e beneficiar mais de 160 mil pessoas. Vinte e um dias depois, dois rompimentos no sistema produtor voltaram a comprometer o município. Não há prova de que a tubulação nova tenha rompido, e dizer isso seria irresponsável. A pergunta correta é mais grave: como um sistema que recebeu obra nova, manutenção, inspeção e anúncios milionários continua obrigando moradores a esperar a madrugada para lavar uma camisa?
O problema também não cabe apenas dentro das fronteiras de Socorro. Nos últimos dias, houve comunicado de abastecimento reduzido em 65% em Poço Verde, interrupção em Boquim, intermitência em Itaporanga D’Ajuda, manutenção atingindo Japaratuba e povoados de Pirambu, além de ocorrências em bairros de Aracaju. Em janeiro, moradores de Ilha das Flores, Estância e Cedro de São João já relatavam falta frequente e, em alguns locais, água retornando com odor e aparência inadequados. Cada ocorrência pode ter uma explicação técnica particular, falta de energia, vazamento, manutenção ou falha na produção. Mas, quando as justificativas mudam e a sede permanece, o caso isolado vira padrão. A própria agência reguladora já aplicou multa de R$ 2,3 milhões à Iguá por irregularidades relacionadas à descontinuidade do abastecimento. Não se trata, portanto, de uma oposição inventando sede. Trata se de um Estado em que a água some em municípios diferentes enquanto as notas oficiais chegam sempre pontualmente.
É nesse cenário que causa estranheza a insistência do governador Fábio Mitidieri em destacar que a responsabilidade por determinada adutora é da Deso. Sim, a divisão operacional existe. A Deso permaneceu responsável pela captação e pelo tratamento da água, enquanto a Iguá assumiu a distribuição e o esgotamento sanitário em 74 municípios. Mas uma concessão não é um truque de desaparecimento político. O governo concebeu o modelo, publicou o edital, conduziu o leilão, celebrou o contrato e continua sendo o poder concedente. Quando uma adutora pública rompe, a Deso precisa responder. Quando a água produzida não chega às casas, a Iguá precisa responder. Quando as duas partes falham e o cidadão continua carregando baldes, o governador precisa responder pelas duas. Repetir “a culpa é da Deso” pode delimitar uma atribuição técnica, mas também produz a impressão incômoda de que o governo está mais empenhado em proteger a arquitetura da concessão do que em garantir o resultado prometido por ela.

O negócio movimentou R$ 4,5 bilhões em outorga e prevê R$ 6,3 bilhões em investimentos ao longo de 35 anos. Milton Andrade foi o porta voz governamental do processo e exaltou a seriedade do edital. Alessandro Vieira integrou a comitiva que acompanhou o leilão e classificou a concessão como investimento histórico, embora anteriormente tivesse declarado oposição à privatização da Deso. Todos tiveram direito à fotografia, ao discurso e à solenidade. Agora precisam ter compromisso com a torneira. Em 2025, depois dos graves rompimentos da Adutora do São Francisco, o governo anunciou revisão de todas as adutoras, inspeção completa das linhas da Deso e auditoria dos serviços de manutenção. Então a pergunta não pode ser afogada por nova nota oficial: os trechos que romperam em Socorro foram inspecionados? Qual era o laudo? Havia desgaste? Foi recomendada substituição? Quanto dos recursos anunciados foi destinado à renovação das estruturas antigas? O dinheiro da concessão não pode render tranquilamente em aplicação financeira enquanto o povo passa a madrugada disputando um fio de água.
A falta de água é diferente de qualquer outra falha pública porque entra na casa sem pedir licença. Ela interrompe o banho da criança, impede o preparo da comida, acumula roupa suja, fecha comércio, compromete escola, maltrata idosos e transforma o banheiro, salvo o de Sua Excelência, numa coleção de baldes. A sede não aceita propaganda, não bebe entrevista e não enche caixa com promessa. O governo de Fábio Mitidieri ainda tenta dividir a responsabilidade entre Deso, Iguá, tubulação, pressão e distância. O povo, porém, enxerga algo muito mais simples: antes da concessão prometeram eficiência, investimentos e segurança hídrica; depois dela, muitas famílias passaram a conhecer a madrugada pelo horário em que a água aparece. A torneira seca está fazendo aquilo que nenhuma oposição conseguiria fazer sozinha. Está secando a confiança no governo. E um governo pode sobreviver a críticas, pesquisas e adversários. O que dificilmente atravessa uma eleição é um estado inteiro olhando para a torneira e descobrindo que, junto com a água, também foi embora a credibilidade.
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