O Vaticano de Aracaju

Letícia Conceição Silva

Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Bolsista do Projeto Impactos da Segunda Guerra Mundial no Nordeste brasileiro: mobilizações e transformações sociais em Sergipe (1942-1945)

 

Com propósitos bem diferentes da cidade papal, um grandioso prédio chamado de Vaticano marcou o cotidiano dos aracajuanos nas décadas de 1930 e 1940. Ocupando duas ruas no centro da capital, recebeu esse nome por suas dimensões monumentais. Embora a ideia inicial de seu fundador fosse a construção de um luxuoso hotel, seus planos não foram concluídos e o espaço passou a ser habitado por pessoas marginalizadas. Segundo os jornais da época, o nome foi escolhido pela população para ironizar a miséria presente no prédio. De acordo com o jornal Correio de Aracaju, em 21 de setembro de 1944, essa diversidade de moradores criava uma dinâmica própria, “uma cidade que vive dentro da cidade”, tal qual o Vaticano em Roma.

Eram dois andares. Enquanto o primeiro piso possuía quartos residenciais e comerciais para aluguel, o andar superior abrigava pontos de prostituição e boemia. Localizado numa das principais zonas meretrícias de Aracaju, nas imediações do Beco dos Cocos, o Vaticano era frequentado por clientes de diversas classes sociais, sendo um espaço de descontração onde se buscava, além do sexo, jogos e relaxamento num contexto de vigilância estatal constante. Ainda que se destacasse no cotidiano noturno da cidade, o prédio tinha outras funcionalidades durante o dia, sendo usado como ponto de encontro de trabalhadores e até mesmo em ações governamentais. Assim, desempenhava diferentes papéis no dia a dia da capital, tanto nas atividades representativas da ordem quanto nas ousadias.

Por estar presente em tantos eventos da vida cotidiana, o Vaticano era um importante espaço de sociabilidade dos aracajuanos, que lhe davam múltiplas utilidades. Por décadas, o  simbólico prédio influenciou as formas como os moradores se relacionavam nesse espaço de movimento urbano. Atualmente, pouco resta dessa construção que marcou a vida boêmia de Aracaju, mas sua importância como local de lazer, prazer e descontração permanece central para compreender como a complexa e diversificada vida noturna da cidade funcionava no século passado.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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