
Tem coisa que parece piada. O mundo inteiro discute inteligência artificial, energia limpa, descarbonização e mobilidade sustentável. Enquanto isso, em Sergipe, a grande inovação continua sendo pagar IPVA. O carro elétrico já virou realidade em boa parte do Brasil, mas por aqui ele parece depender de uma autorização especial do futuro. E olha que nem precisa inventar a roda. Ela já existe, só falta deixar girar.
A deputada estadual Kitty Lima percebeu isso antes de muita gente. Apresentou duas indicações ao Governo do Estado propondo a alteração da Lei Estadual nº 7.655/2013 para criar isenção de IPVA para veículos híbridos e isenção ou alíquota diferenciada para veículos 100% elétricos. As propostas reconhecem que a iniciativa depende do envio de um projeto de lei pelo Poder Executivo. Não é uma ideia revolucionária. É, na verdade, uma medida que acompanha o que vários estados brasileiros já decidiram fazer.
No Nordeste, Pernambuco e Bahia já concedem incentivo para veículos elétricos. Na Paraíba também existem benefícios tributários. Em outras regiões, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Tocantins e Rio de Janeiro adotaram modelos de isenção ou redução do IPVA para estimular a eletrificação da frota. A lógica é simples: quem quer atrair tecnologia, inovação e investimentos precisa criar um ambiente favorável. Não basta fazer discurso sobre sustentabilidade no Dia Mundial do Meio Ambiente. É preciso transformar discurso em política pública.
O resultado aparece rapidamente. Não é difícil encontrar sergipanos que compraram seus veículos elétricos em estados vizinhos, como Bahia e Pernambuco, justamente porque lá existem incentivos fiscais e um mercado mais desenvolvido para esse tipo de tecnologia. O dinheiro que poderia circular na economia sergipana acaba fortalecendo concessionárias, revendas e serviços de outros Estados. Em vez de disputar investimentos, Sergipe corre o risco de exportar consumidores.
E não se trata apenas de economia. Um veículo elétrico não emite gases pelo escapamento, reduz significativamente a poluição sonora e contribui para uma matriz de transporte mais limpa. Menos emissão de carbono significa melhor qualidade do ar, menos impacto ambiental e cidades mais saudáveis. O planeta agradece. A saúde pública agradece. O bolso de quem abastece também costuma agradecer, já que o custo por quilômetro rodado tende a ser menor do que nos veículos movidos exclusivamente a combustíveis fósseis.
É claro que todo incentivo fiscal precisa ser analisado com responsabilidade. Abrir mão de parte da arrecadação exige planejamento e avaliação de impacto. Mas esse debate não pode ser encerrado antes mesmo de começar. Diversos estados concluíram que vale a pena incentivar uma tecnologia que gera benefícios ambientais, atrai novos negócios e acompanha uma tendência mundial. A pergunta que fica é porque Sergipe ainda não entrou nessa conversa.
Enquanto isso, o contribuinte continua pagando IPVA e convivendo com reclamações frequentes sobre a infraestrutura viária. O cidadão vê o imposto sair da conta todos os anos e naturalmente espera que as políticas públicas acompanhem as transformações do século XXI. Modernizar a tributação também faz parte da modernização do Estado.
Ainda há tempo para que Sergipe participe dessa mudança. O debate proposto pelas indicações da deputada Kitty Lima merece ser enfrentado com dados, transparência e visão de longo prazo. O futuro da mobilidade já chegou ao Brasil. A dúvida que permanece é se Sergipe pretende apenas observá-lo passar pela BR ou se vai decidir colocar a chave na ignição e seguir viagem. Afinal, o futuro não costuma esperar por quem insiste em estacionar no passado.
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