Um novo rumo na política de Sergipe

Quando Ricardo Marques apareceu ao lado de Flávio Bolsonaro e Rodrigo Valadares como pré-candidato ao governo de Sergipe, a política local não recebeu uma novidade. Recebeu a confirmação de um roteiro que já vinha sendo cochichado nos corredores desde fevereiro. As anotações sobre a estratégia do PL já desenhavam esse cenário. O que mudou foi apenas a iluminação do palco. O que era bastidor virou fotografia.

A verdade é que ninguém em Sergipe caiu da cadeira com o anúncio. Ricardo foi eleito vice-prefeito de Aracaju ao lado de Emília Corrêa, que chegou à prefeitura com forte respaldo popular e discurso de renovação. Mas a convivência política dos dois acabou entrando em turbulência. O que começou como parceria eleitoral virou uma novela administrativa com exonerações, desconfortos e silêncio constrangedor. Quando começam as exonerações, a política já saiu da terapia de casal e entrou na fase da divisão dos comissionados.

Depois da ruptura, Ricardo passou a circular pela política sergipana como quem visita apartamento antes de decidir onde morar. Batia numa porta aqui, tomava um café ali, fazia um aceno acolá. Conversou com meio mundo, ouviu propostas, tirou foto, testou sofá político como quem testa colchão em loja. Até que Brasília entrou na história e Rodrigo Valadares resolveu apresentar o corretor de imóveis mais influente do momento, Flávio Bolsonaro. Rodrigo vendeu o peixe com convicção e disse que Ricardo era peça importante para o tabuleiro sergipano. Quando Flávio gravou o vídeo anunciando Ricardo como pré-candidato ao governo, o recado não foi sussurro de bastidor. Foi anúncio de outdoor na BR, daqueles que todo mundo vê passando.

Só que a política sergipana tem um detalhe curioso. Ela não anda em linha reta. Antes mesmo desse anúncio, muita gente dentro do próprio ambiente do PL já comentava que Valmir de Francisquinho era o nome mais competitivo para enfrentar Fábio Mitidieri. Inclusive com reconhecimento público de Valdemar Costa Neto. Isso não nasceu ontem. Valmir construiu presença política no interior, acumulou recall eleitoral e criou um capital político que não se fabrica em laboratório.

Em outras palavras, enquanto Ricardo entra agora no jogo majoritário, Valmir já está jogando faz tempo. Ele percorre o Estado, conversa com prefeitos, vereadores e eleitores. Recall eleitoral não se cria em campanha de internet. Ele se constrói andando estrada. E nisso Valmir tem quilometragem acumulada.

E é aí que a política fica divertida. Sergipe pode terminar com dois palanques para Flávio Bolsonaro. De um lado Ricardo Marques com Rodrigo Valadares. Do outro Valmir de Francisquinho com Emília Corrêa e Eduardo Amorim. Quem imaginava uma direita organizada em fila indiana descobriu que ela pode aparecer em forma de bloco carnavalesco, cada um puxando seu trio elétrico.

Fábio Mitidieri, diga se de passagem, cometeu um erro clássico. Achou que a eleição já estava resolvida. Que seria vitória tranquila, quase um passeio. Só que a entrada de Valmir na disputa já tinha colocado uma pulga atrás da orelha do Palácio. Agora com Ricardo no tabuleiro a eleição ganhou barulho, poeira e imprevisibilidade.

Valmir de Francisquinho larga na frente em um ponto essencial. Recall eleitoral. Foi o mais votado no primeiro turno de 2022, mesmo impedido de assumir. Hoje roda o Estado com presença forte no interior. Ricardo terá de construir esse caminho praticamente do zero. Rodrigo aposta que o bolsonarismo resolve a equação. Mas política não é tutorial de internet. Política é lastro.

Rodrigo Valadares joga outro campeonato. O Senado. A eleição permite dois votos e ele aposta em capturar o voto mais fiel da direita. O apoio de Laércio Oliveira fortalece essa conta política. Rodrigo faz um cálculo simples. Primeiro consolidar o eleitorado bolsonarista. Depois disputar o segundo voto dos eleitores insatisfeitos com o governo Lula.

Só que entra aqui um detalhe saboroso da política sergipana. Laércio Oliveira apoia Rodrigo e Flávio Bolsonaro, mas também faz parte da base do governador Fábio Mitidieri. Tem cargos, secretarias e influência dentro do governo. Ou seja, surge a pergunta inevitável. Laércio vai subir no palanque de Flávio com Ricardo ou no palanque de Fábio com Lula.

Esse tipo de situação deixa analista político coçando o queixo. Laércio é conhecido como um político de centro, cuidadoso, que observa o tabuleiro antes de mover a peça. Um estilo que lembra o Santa Cruz de Pernambuco, seu time do coração. O Santinha entra em campo, joga com raça, anima a torcida, mas às vezes demora tanto para definir a jogada que o campeonato já acabou. Na política acontece algo parecido. Demorar demais pode transformar prudência em indecisão.

A crise entre Rodrigo Valadares e a Prefeitura de Aracaju também não é conversa de boteco. Reportagens já registraram tensão dentro do grupo político da prefeita Emília Corrêa. A aproximação de Rodrigo com Ricardo gerou desconforto. E não seria surpresa se Emília resolvesse ir a público declarar que não apoia Rodrigo ao Senado por quebra de acordo político. Na política quando acordo quebra em praça pública o silêncio institucional costuma durar pouco.

No meio desse xadrez, Fábio Mitidieri começa a perceber que o cenário ficou mais apertado do que imaginava. O governador já enfrentava críticas administrativas e agora vê novos focos de oposição se organizando. O curioso é que Ricardo, em determinado momento, chegou a ser visto como possível aliado do governo. Houve conversa, café e até a possibilidade ventilada de Cecília Marques assumir a Secretaria da Mulher.

Mas a caminhada política de Ricardo virou quase um tour institucional. Conversou com o governo, apareceu em foto com Valmir de Francisquinho e, no fim das contas, terminou caindo nos braços de Rodrigo Valadares. E aí entrou um detalhe importante da engenharia política do acordo. Rodrigo apresentou dentro do PL o projeto de Moana Valadares como candidata a deputada federal, enquanto Ricardo Marques passou a colocar o nome de Cecília Marques como candidata a deputada estadual. Esse arranjo familiar, naturalmente, criou alguns ciúmes e um certo rebuliço dentro do partido, porque política também tem disso, todo mundo gosta de espaço no palco. Caberá agora a Rodrigo administrar essa equação com inteligência e calma para manter o grupo alinhado. Afinal, em política acontece muito isso: tem gente que procura porta em todos os prédios da rua e, quando percebe, já entrou pela janela do vizinho.

Com essa movimentação toda, o Senado também virou um campo aberto. Rodrigo Valadares aposta no voto da direita. Rogério Carvalho mantém sua base de esquerda. Edvaldo Nogueira constrói presença na capital. Eduardo Amorim aparece com forte ligação com o eleitorado conservador. E André Moura segue com uma vantagem estratégica no interior do Estado. Se vier forte na capital, pode perfeitamente ocupar uma das vagas.

No fim das contas, o lançamento de Ricardo não matou a disputa. Apenas acabou com a preguiça dela. Sergipe agora tem mais barulho, mais movimento e menos vitória antecipada em planilha de excel. Ricardo entrou no jogo, Rodrigo dobrou a aposta e Valmir de Francisquinho continua firme e forte como um dos nomes mais competitivos do cenário. Enquanto isso o governo percebe que a eleição de 2026 não será passeio em carro aberto. Vai ser disputa de rua, de interior e de narrativa. E para desespero de quem já estava encomendando o W.O., o campeonato político em Sergipe apenas começou.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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