FAZENDO O CURSO A

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Cartas do Apolônio

 

 

Cascais, 10 de marco de 2006

 

Caros amigos de Sergipe

 

O amigo Alencarzinho convidou-me para um interessante ciclo de estudos que deve acontecer aí na terrinha a partir do mês que vem. Trata-se do sensacional curso ‘Homens do Mundo Moderno’, uma verdadeira universidade para o macho que quer conviver bem com as invencionices dos dias que correm. Serão dois módulos, o Básico ou ‘curso A’ e o Avançado, curso B, naturalmente. 

No currículo de ambos, temas importantíssimos como passar uma camisa em menos de duas horas ou como ferver a água antes de pôr o macarrão. Homem supimpa e frajola que sou, confesso que estou pensando seriamente em me matricular no primeiro módulo. Sempre tive muitas dúvidas sobre estes assuntos de vida doméstica e coabitação com mulheres moderninhas. Sou do tempo do Ioiô e da Iaiá, meus amigos.

Limpar a cozinha, por exemplo, provoca ou não impotência? Tenho minhas dúvidas, mas sinceramente acho que sim. A xícara de café é outra questão importante. Afinal ela levita indo da mesa à pia ou temos que buscá-la com nossas próprias mãozinhas? Francamente, não sei. E o que dizer da lavadora de roupas, esse grande mistério dos tempos modernos? Por que ela insiste sempre em triturar aquele papelzinho com o telefone da loira no bolso da calça suja? Só pode ser inveja, meus queridos!

 Tenho dúvidas também sobre a tal necessidade de secar o banheiro depois do banho. Ora bolas, ao sairmos do box as gotículas que se espalham pelo chão são de água limpa. E ademais, com o calor infernal que anda fazendo no planeta, em poucos segundo elas evaporam. Outra coisa, por que toda essa gritaria das nossas consortes, em torno da importância de se levantar a tampa do vaso sanitário? Confesso que acho até mais higiênico, mas convenhamos, o que são algumas gotas de uréia, comparadas à força incomensurável do amor? Creio que as mulheres gostam mesmo é de uma boa celeuma. 

Ainda assim, quero me modernizar sem deixar de ser espada. Quero aprender que o controle remoto pode ficar nas mãos da parceira (não mais que meia hora, evidentemente!) e que os sapatos não vão sozinhos para o armário (por isso é tão importante colocar uma sapateira atrás da porta de entrada da casa).      

Desejo entender finalmente o que elas querem dizer quando juram que ‘não se classificar pro Mundial não é a morte’ ou quando pronunciam frases enigmáticas como ‘Eu não sou a sua mãe, Arnaldo!’.

Quem sabe, assim eu me torne um ser humano mais sensível e compreensivo. Um novo homem que, finalmente, não urine fora do vaso nem arrote tomando cerveja. Que saiba atravessar com galhardia o pedregoso caminho entre a porta de casa e o cesto de roupas sujas. Um ser de luz sempre disposto a trocar a lâmpada da cozinha e a chamar um eletricista competente para fazer os reparos na fiação. Uma pessoa, enfim, que não emita gases intestinais por baixo dos lençóis ao lado da parceira e que aprenda finalmente a fazer uma sopa instantânea sem queimar a droga da panela. Um dia eu chego lá.

 Até semana que vem.

 

Um abraço do

 

Apolônio Lisboa

 

 

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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